O Rio descobre que Waltel sabe compor; e Waltel descobre como Elis sabe cantar | Plural
18 jan 2019 - 0h00

O Rio descobre que Waltel sabe compor; e Waltel descobre como Elis sabe cantar

Na quinta e última parte da biografia de Waltel Branco publicada pelo Plural, Felippe Anibal conta como ele compôs uma das primeiras músicas gravadas para Elis Regina

FNos estúdios e boates do Rio, a faceta de Waltel que todos conheciam era a de instrumentista. Poucos sabiam que o músico também compunha – e muito. Dois aspectos contribuíam para que, como compositor, Waltel permanecesse praticamente despercebido: o fato de dedicar boa parte de sua inspiração a criar temas clássicos que, por óbvio, não tinham espaço na noite de Copacabana; e, apesar de também compor em estilos populares – de boleros à Bossa Nova, do samba-canção ao samba-jazz –, Waltel não escrevia letras.

Ainda em Curitiba, ele já havia ensaiado rabiscar alguns versos, mas sua autocrítica o fez desistir no ato. Em terras fluminenses, tentou novamente, mas as letras não lhe pareceram boas o suficiente, de modo que preferiu atirá-las ao lixo. O problema se solucionaria a partir de parcerias, uma das quais se estabeleceu na noite, quando conheceu Joluz, um letrista ainda novato, mas que já emplacara “Vou fugir de mim”, em um compacto do sambista Jamelão e “Twist do amor”, gravada também pelos Golden Boys.

Joluz repassou a Waltel alguns escritos, para que o instrumentista os revestisse com música. Um dos primeiros frutos da parceria entre os dois, no entanto, se deu a partir do oposto: quando Joluz pôs letra em uma composição de Waltel. A música era o samba “Ciúme, teu mal”,  que tinha uma levada mais dançante, com harmonia cadenciada, moderna – embora os versos de Joluz, em certa medida, remetessem às letras de samba-canção, recheada de palavras como “briga”, “pranto” e afins. “O amor é tentação/ Da razão/ Ciúme é tão banal/ Teu mal/ É natural, meu bem/ Chorar por mim/ Assim/ É natural chorar por mim/”.

Waltel mostrou despretensiosamente o sambinha a alguns colegas e, não se sabe como, a música acabou caindo nas mãos de Carminha Mascarenhas – ex-Rádio Nacional e sinônimo de sucesso em boates e na tevê. A cantora não só gostou da canção, como passou a incluí-la em seu repertório. O compositor se animou, não só pela oportunidade que isso representava, mas porque gostava de Carminha. Ele a conhecia desde quando a estrela lotava o Copacabana Palace e, em seguida o Sacha’s.

Carminha Mascarenhas: cantora de sucesso escolheu gravar Waltel.

Naquele início de 1961, Carminha ainda colhia os louros de sua aclamada participação no show “Ary Barroso, 1960”, que ainda seguia em cartaz na boate Fred’s. Para a surpresa de Waltel, Carminha escolheu “Ciúme, teu mal” para entrar no compacto que ela gravaria pela Copacabana. Abriria o 78 rotações o samba “Per omnia saecula saeculorum, amen”, de Miguel Gustavo, cuja letra se valia da expressão em latim da liturgia da igreja católica, para fazer uma crítica social. Resultado: a censura proibiu a execução pública da faixa, o que, por conseguinte, catapultou as vendas do compacto.

O sucesso fez com que Carminha Mascarenhas fosse convidada a gravar um LP. “A noite é de Carminha” foi lançado ainda em 1961, com músicas que a cantora costumava apresentar em boates e shows – e, entre as 12 faixas, está “Ciúme, teu mal”. Assim, os quase estreantes Waltel e Joluz aparecem no disco ao lado de Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli (que emplacaram “Sei”), Maysa (autora de “Tarde triste”), Carlos Imperial (com “Chorei”) e João Roberto Kelly (“Dor de cotovelo”). Foi o último long play da cantora.

Uma cantora promissora vinda do Sul

No começo do ano seguinte – 1962 –, foi o maestro Guerra Peixe quem deu a dica a Waltel: “Se você tem alguma música na agulha no estilo samba-canção, vá à Continental e procure pelo Diogo”. Waltel foi. O Diogo em questão era Diogo Mulero, um dos diretores artísticos da gravadora, mas que era tão ou mais conhecido por também ser o Palmeira, da dupla Palmeira e Piraci – famosa pela gravação de “Menino da porteira” (T. Vieira/ L. Raimundo).

Mulero havia sido encarregado da direção do segundo disco de uma estrela em potencial – “um diamante a ser lapidado”, como sintetizou – e estava definindo o repertório. Pensava em transformar a jovem cantora de apenas 16 anos em uma diva, como as rainhas do rádio. Quando Waltel lhe apresentou “Canção de enganar despedida”, Mulero não titubeou: “Essa eu quero!”. A letra toda havia sido composta por Joluz, sobre música de Waltel. O violonista também foi autor do título. Ah, “o diamante a ser lapidado” era a gaúcha Elis Regina Carvalho Costa.

Elis Regina: cantora fenomenal em busca de um estilo.

No primeiro disco, a Continental tentou fazer com que Elis Regina soasse como uma nova Celly Campello, que já havia vendido mais de 100 mil discos e que estourava com “Estúpido cupido”. Para isso, escalaram “o disc-jóquei da juventude” Carlos Imperial para dirigir o LP e transformar Elis em um “broto”. Gordo, desbocado e cafajeste, mas com um aguçado faro comercial, Imperial viria a criar a “Jovem Guarda” – porém, isso só ocorreria anos mais tarde. O diretor repaginou a novata, em figurino e repertório. No lugar dos sucessos populares que a baixinha cantava na Rádio Gaúcha, entrariam os rocks e twists que começavam a ganhar a juventude. O disco – batizado de “Viva a Brotolândia” –, no entanto, não produziu mínimo eco. Nada aconteceu.

Agora, sob comando de Diogo Mulero, a proposta da Continental era popularizar Elis. Para isso, o diretor chamou Guerra Peixe e Renato de Oliveira para trabalharem os arranjos, ao lado de Severino Araújo. O repertório, no entanto, soava como um apanhado de músicas, como se Mulero quisesse atirar para todos os lados. O LP trazia, por exemplo, o samba “Pororó-Popó” (João Roberto Kelly) e o bolero “Podes voltar” (Nazareno de Brito/Othon Russo); a melancólica “Poema” (Fernando Dias) e a versão “Dá-me Um Beijo (Kiss Me Kiss Me)” (Trovajoli/Danell/Vrs. Romeo Nunes); e a deslocadíssima “Las secretarias” (Pepe Luis/Marta De Almeida) – um chá-chá-chá de gosto pra lá de duvidoso.

Em “Canção de enganar despedida”, Elis canta com ares de Angela Maria e chega a tascar uns tímidos vibratos. Convidado por Guerra Peixe para assistir a uma das sessões de gravação, Waltel foi acometido de um estremecimento: Elis tinha potência vocal, técnica e interpretação precisa, como poucos profissionais tarimbados. Por seu turno, o músico percebeu que a cantora parecia pouco à vontade diante daquelas canções, como se não conseguisse se encaixar nelas.

Quando deixou o estúdio, Waltel comentou com Mulero: “Vocês estão desperdiçando o diamante”. O disco iria às lojas ainda em 1962, com o título “Ellis Regina: Poema de Amor” – grafado com dois “ls” mesmo. Apesar dos arranjos de Guerra Peixe e da sorridente Elis na capa, o LP passaria completamente despercebido. Quanto a Waltel, a parceria com Joluz renderia outras sete músicas.

Uma nova parceria

Waltel ainda vivia entre as idas e vindas ao Rio, quando conheceu Nilo Sérgio. Para o violonista, seria um deslumbre, pois, em pouco tempo, passaria da condição de fã a parceiro e, por fim, amigo digno de uma amizade das mais sólidas. Nilo era um dos cantores que na década anterior Waltel havia se acostumado a ouvir no rádio. Tornara-se uma estrela ainda cedo, em 1942, aos 21 anos de idade, depois de vencer um disputado concurso de calouros na rádio Cruzeiro do Sul. Dali foi para Rádio Nacional e desta, definitivamente, para o sucesso.

Primeiramente, como crooner da The Midnighters Orchestra e, depois em carreira solo, Nilo gravou dezenas de fox-trots e beguines. Integrava o time de galãs do rádio que, invariavelmente, fazia as meninas do auditório se descabelarem. Só em 1949 passou a “abrasileirar” seu repertório, cantando em português e mantendo o estilo romântico. Nessas, compôs “Trevo de quatro folhas”, versão de “I’m looking over a four-leaf clover”, de Harry Woods e Mort Dixon – e que viria a ser gravada por João Gilberto, em “O amor, o sorriso e a flor”, de 1960.

Mas não era só o talento de Nilo Sérgio com os microfones que impressionava Waltel, mas também seu faro comercial e o estilo arrojado fora dos estúdios. Na própria Rádio Nacional, o papel de Nilo Sérgio ia muito além de ser uma estrela dos palcos. Ele escrevia roteiros de programas e viajava como correspondente internacional da emissora – numa dessas, chegou a cantar com ninguém menos que Frank Sinatra, em plena NBC. Antenado e curioso, passou a se aprofundar em todos os mecanismos que faziam girar as engrenagens do show bizz.

Desta forma, no comecinho dos anos 1950, abriu a Lojinha de Música, na Rua Senador Santas, no Centro, uma das boas importadoras de discos da capital federal. O empreendimento foi o embrião para um passo maior: a gravadora Musidisc. Fundada em 1952, a nova empresa foi tirada do papel graças a um amigo de peso, Luís Lembruber Kropft, diretor do banco Bozano Simonsen, que lhe deu aquele empurrãozinho com o financiamento da empreitada. As aspirações de Nilo Sérgio eram ousadas: fazer frente às colossais gravadoras internacionais. “O pensamento de meu pai com a Musidisc era de que se podia fazer música no Brasil com a mesma qualidade dos americanos. Simples assim”, resumiu o filho do cantor-empresário, Nilo Sérgio Pinto, em entrevista para o livro. Ainda em 1952, o astro abdicou do seu contrato com a Rádio Nacional para se dedicar exclusivamente à Musidisc. Alguns tacharam-no de louco. O tempo provou que ele estava certo.

Na ocasião em que se reencontrou com Nilo Sérgio, Waltel já vinha sendo requisitado pela Copacabana Discos, tanto para tocar nas gravações, quanto para arranjar. Se havia uma coisa que Nilo sabia fazer, era reconhecer um talento quando se deparava com um. Por isso, ao ver Waltel dando sopa, abraçou-o. A parceria que se estenderia até 1979. No caso da Musidisc, no entanto, a falta da ficha técnica na contracapa dos discos se deve não só ao costume das gravadoras de, então, não disponibilizar tais informações, mas também a uma estratégia de marketing de Nilo Sérgio. Mas, sobre isso, falaremos adiante. Porque nessa época, Waltel já se via no epicentro de uma batida de violão que revolucionaria a música brasileira, a bossa-nova.

Leia as quatro primeiras partes da biografia publicadas pelo Plural:

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