A aldeia de muitos caciques | Jornal Plural
8 jul 2019 - 6h00

A aldeia de muitos caciques

Guaranis Mbya substituíram uma única liderança por várias, incluindo as mulheres

O poder nas mãos de um único homem significa problemas; assuntos importantes podem ficar ocultos e nem tudo pode seguir para o coletivo. Com este pensamento, índios da etnia Guarani-Mbya decidiram dividir o poder em sua aldeia. O “cargo” de cacique foi destituído e criou-se uma comissão de lideranças, formada por homens e mulheres. Deles vem o comando, mas as decisões são tomadas sempre de forma democrática, com diálogo, respeito e participação de toda comunidade.

Os Guaranis são uma etnia indígena muito conhecida no Sul e Sudeste do Brasil, onde nove aldeias dividem o Território Tenonde Porã. Uma delas é composta pelos Guarani-Mbya. Em Curitiba, para protestar pelos direitos indígenas, eles estão acampados na Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), na Vila Izabel, desde o dia 30 de junho. Foi lá que o Plural encontrou Jayuka, 28 anos, e Kerexu, 48, índias Guarani-Mbya, que aceitaram, com ressalvas, contar um pouco sobre sua cultura singular.

A decisão de não haver mais um único cacique veio há quatro anos. “Nunca tivemos cargos. Cada família tem seu núcleo familiar e cada núcleo a sua liderança. Então, ninguém pode decidir nada sozinho. Quando o poder está centralizado em uma só pessoa, é mais difícil saber o que acontece. Quando dividimos o poder, é mais difícil fazer coisa errada”, avalia Jayuka.

Professora da língua guarani em uma escola estadual na aldeia, localizada no Sul de São Paulo, Jayuka conta que depois da mudança no comando indígena houve uma maior procura às lideranças. “Tinha temas que as mulheres não sentiam liberdade de conversar com o cacique. Agora, elas sabem que podem nos procurar, que haverá acolhimento”, diz ela.

A maioria da equipe é formada por mulheres. São oito; e cinco homens. “Ainda há machismo. Foi difícil chegar aonde chegamos, mas hoje temos apoio dos outros homens líderes, que são ótimos, nos ajudam e nos colocam pra frente”, garante a índia.

Guaranis-Mbya estão em Curitiba. Foto: Giorgia Prates/Plural

Crenças

Jayuka conta que na cultura guarani um dos rituais mais longos e esperados é o batismo das crianças. Ele é sagrado, acontece só duas vezes no ano e dura dois dias.  A erva-mate é um elemento importante, usado no benzimento.  Ao nascer, o bebê recebe um nome brasileiro, escolhido pelos pais. Com um ano, ao ser batizado, ele tem o nome indígena escolhido pelo pajé, o líder espiritual da aldeia.

É do pajé a responsabilidade de ouvir e orientar os índios, podendo inclusive sugerir a mudança do nome depois de adulto. “Como o nome indígena representa nosso espírito, se o pajé entender que há problemas graves espirituais, pode pedir pra mudar.”

Jovens guaranis. Foto: Giorgia Prates/Plural

A professora guarani destaca ainda a importância da figura do pajé na saúde indígena. “Entendemos que há dois tipos de doença, a do corpo e a da alma. E nas doenças da alma quem atua é o pajé, por isso é importante ter agentes de saúde indígenas e respeito a nossa cultura, para permitir a presença do pajé nos hospitais quando necessário.”

Para ela, outro ponto importante que pede respeito é o parto indígena. “Nós enterramos nossa placenta. Também não comemos carne nem nada derivado de animais por 30 dias após o nascimento do neném. Então, nos hospitais é complicado se não houver respeito a nossos costumes.”

O hospital, no entanto, não é mais tão procurado pelas gestantes, segundo a índia Kerexu. “Todas fazem o pré-natal no posto. Aquelas que estão saudáveis, incentivamos a ter seus filhos em casa pois lá podemos acompanhar e dar todo o apoio, durante todo o tempo. No hospital, ainda existe muito preconceito contra a mulher e muita violência na hora do nascimento. Deixam a mulher sozinha e não respeitam este momento sagrado”, acredita a parteira.

A parteira Kerexu é uma das líderes comunitárias no Território Tenonde Porã. Foto: Giorgia Prates/Plural

Protesto pela Saúde

Uma das lutas coletivas das lideranças do Território Tenonde Porã – assim como no restante do país –  é a saúde indígena. Com a cultura peculiar, os guaranis se unem a outras etnias para protestar contra a anunciada extinção da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que o governo federal quer transformar em um departamento da nova Secretaria Nacional de Atenção Primária.  A proposta seria municipalizar os atendimentos, hoje feitos por 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Disei), com profissionais e recursos específicos.

Os manifestos contra a proposta acontecem por todo Brasil. Em março, centenas de índios protestaram em Guaíra, no Paraná, na divisa com Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. Eles paralisaram a BR-163 e a ponte Ayrton Senna, sobre o Rio Paraná, que liga as duas cidades.  Nesta semana, comunidades indígenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná chegaram a Curitiba para protestar contra o fim dos contratos emergenciais, responsáveis pelo transporte dos profissionais de saúde e dos doentes nas comunidades.

“Os municípios não vão até as aldeias. O transporte das equipes de atendimento de saúde e dos indígenas até a cidade é feito por carros alugados por meio do terceiro contrato emergencial, pois não abrem edital de licitação”, revela Andreia Takua, presidente do Conselho de Saúde Indígena do Litoral Sul. “Este contrato acaba em 30 de julho e não sabemos como vai ficar. Se vão contratar outra empresa, se vai parar, se vai acontecer uma licitação. Fica sempre esta dúvida e toda vez precisamos nos mobilizar.”

Andreia explica que não há Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU). “A gente não tem Samu. Se alguém se machuca ou passa mal, são esses carros que fazem o socorro. Se eles não estiverem, ficamos sem atendimento. Então agora estamos sem opção, não temos mais como negociar. Precisamos resolver.”

Andreia Takua, presidente do Conselho de Saúde Indígena do Distrito Litoral Sul.

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