"Moro e Dallagnol tentam criminalizar o jornalismo", diz editor do Intercept | Jornal Plural
24 jun 2019 - 1h27

“Moro e Dallagnol tentam criminalizar o jornalismo”, diz editor do Intercept

Editor executivo do Intercept diz que jamais vai entregar material à Justiça

Leandro Demori é respeitado há muito tempo entre os jornalistas. Editor da piauí, autor de um livro sobre a máfia e editor-executivo da Intercept, é difícil achar um colega que não o admire. Nos últimos dias, porém, o jornalista entrou num turbilhão que o tornou muito mais conhecido do que ele imaginaria.

Um dos principais responsáveis pela série de reportagens que revelam conversas entre o juiz Sergio Moro e os integrantes da força tarefa da Lava Jato, Demori passou de entrevistador a entrevistado – o país inteiro quer saber o que mais o Intercept tem nas mãos – até porque, aparentemente, a Lava Jato, Lula e o governo Bolsonaro (e em última instância o futuro político do Brasil) dependem disso.

Demori concedeu entrevista ao Plural falando sobre alguns dos pontos mais importantes da série e sobre o que mais vem por aí. Confira.

O ministro Sergio Moro passou boa parte da audiência no Senado acusando vocês de divulgarem informações captadas por uma organização criminosa. Como vocês lidam com a ideia do hackeamento? Em que medida isso invalida ou não o material?

Praticamente é o que sobrou para eles, já que não podem dizer que o material não é autêntico. Hoje começamos uma parceria com a Folha de S.Paulo e os repórteres do jornal tiveram acesso ao arquivo da mesma forma que nós tivemos e constataram o que nós constatamos, fizeram as verificações jornalísticas que nós fizemos. Está cada vez mais difícil dizer que o material não é autêntico, então eles precisam apostar nessa tese do hacker e isso é basicamente feito para criminalizar o jornalismo. Muito me espanta esse discurso da Lava Jato, que usou durante anos o jornalismo com vazamentos internos, que são sempre ilegais quando partem de um juiz, um procurador, um policial ou um servidor público. O que antes valia agora não vale mais. É muito engraçado. O juiz Sergio Moro precisa lembrar um pouco os anos da Operação Lava Jato e como funciona o jornalismo, que ele conhece muito bem.

Como ter certeza da integridade do material, para garantir que não houve edição, ou deturpação de algum tipo nas falas dos envolvidos?

A gente fez várias verificações. São chats, com muitos grupos e conversas individuais. Por exemplo, tem centenas de áudios, centenas de documentos e links. E essas conversas estão organizadas ali. E precisa ter uma lógica. Se alguém manda um áudio falando sobre A, as pessoas respondem sobre A. Essa é uma verificação que a gente fez. Outra é uma verificação é o que a Folha fez e nós já tínhamos feito. Procurar pessoas que entraram em contato com as pessoas que aparecem no arquivo, e fizemos isso com muitas e muitas pessoas, pedindo para olharem seu Telegram e bater com aquilo que está no arquivo. E bate tudo, vírgula e ponto. Não tem nada fora do lugar. E tem toda uma questão técnica, uma avaliação de vários e vários arquivos. Tanto é que eles não estão falando que o arquivo é falso. E eles não negam pontualmente nenhuma frase. Eu acho que se você tiver uma série de reportagens sobre o que você disse num aplicativo de mensagens dois anos atrás, três anos atrás, se alguém fala que você falou uma, duas frases, tudo bem você não vai lembrar. Mas agora já tem um volume de frases que é impossível a pessoa não olhar e falar “Isso aqui eu jamais disse”. Em nenhum momento eles falaram isso. Eles estão dizendo que algumas podem ter sido adulteradas. Então quero que eles apontem quais. Mas até agora nenhum deles fez isso. Então, por exemplo, se você fosse juiz e falasse com um procurador para blindar um ex-presidente da República, como o Moro fez com o Fernando Henrique Cardoso, chamando de aliado, e não querendo melindrar ele com um processo e com notícias ruins, você lembraria disso. Não é algo banal que você diz todo dia.

Moro disse que vocês deveriam entregar o material para a Polícia Federal ou para o Supremo Tribunal Federal, para que fosse auditado. Isso em algum momento foi uma preocupação de vocês? Vocês pretendem entregar a íntegra do material para a Justiça depois de encerradas as publicações?

Uma fonte que já tinha esse material nas mãos, e tinha interesse em passar para jornalistas, confiou o material ao Intercept. Aceitamos receber esse material com as condições que a fonte impôs, como todo jornal sério no mundo faz. E a fonte quer permanecer anônima. Então não vamos entregar esse material para ninguém mais, muito menos para um órgão que está subordinado ao ministro Moro, no caso da Polícia Federal, e que poderia usar esse material para tentar identificar a fonte. Não quebraríamos esse acordo porque jornalistas vivem de credibilidade, e a credibilidade parte da negociação com as fontes. Isso é uma tentativa deles de identificar a fonte e criminalizar o jornalismo. E não vamos fazer isso. Em nenhum país democrático do mundo o jornalismo é feito desse jeito.

O ministro disse que está sendo analisado o pedido de proteção feito pelo Intercept depois do recebimento de ameaças. Vocês estão satisfeitos com o modo como essa questão está sendo tratada?

Sobre isso eu não quero entrar em detalhes porque todas as ameaças que recebemos estão sendo analisadas, estamos atentos a isso, e todas as medidas de segurança foram tomadas e eu prefiro não entrar em detalhes.

Você disse numa entrevista que só tinham lido 1% do material. Essa estimativa mudou muito hoje?

É importante deixar clara uma coisa. Isso é uma estimativa baseada num sobrevoo que a gente fez do material, mas mesmo que a gente tenha publicado 1% ou 5% do material é importante ter claro que não vamos publicar os 99% restantes. Porque tem muita coisa de foro íntimo e tem muita coisa que não é de interesse público. A primeira coisa que o Intercept tem em mente desde o começo é não cometer injustiças. Para isso, a gente precisa olhar o material com calma, e reportar só o que é de interesse público. O que significa dizer que muito provavelmente a maior parte do material que ainda não foi publicado não será publicado, porque não é de interesse público.

O ministro Moro criticou a falta do “outro lado” nas matérias. Como vocês respondem a isso?

Nas três primeiras reportagens decidimos, após um debate interno, que abriríamos uma exceção e não ouviríamos o outro lado antes de publicá-las. Isso justamente pelo que estamos vendo agora, quando o ex-juiz e atual ministro Sergio Moro está tentando dizer que somos aliados a criminosos, que somos aliados a hackers criminosos. Se isso está acontecendo diante dos holofotes de toda a imprensa e de todo o Brasil, tínhamos razão em imaginar que se pedíssemos o outro lado antes de publicar as reportagens os envolvidos nessas reportagens poderiam, de algum modo, tentar bloquear a publicação. Isso seria muito prejudicial ao interesse público. Nesse caso, avaliamos que o interesse público era mais importante que o interesse privado dos indivíduos envolvidos nas conversas. Imediatamente depois [da publicação], tentamos ouvi-los e eles preferiram se manifestar pelo Twitter ou por notas oficiais. Nas reportagens subsequentes, a partir do capítulo 4, em todas elas nós buscamos a versões deles antes de publicar as reportagens, ao contrário do que o ministro Moro falou ao Senado.

Você disse no Twitter que outros veículos vão entrar na cobertura. Quais seriam?

Anunciamos hoje [domingo] uma parceria institucional, a primeira, com o jornal Folha de S.Paulo. O jornal teve acesso ao material e começamos a reportar em conjunto com eles. Isso não significa que os arquivos da Lava Jato serão reportados só na Folha. A série do Intercept vai seguir seu rumo no site. Também estamos buscando outras parcerias, que ainda não posso revelar. Fizemos ainda uma parceria pontual de apuração com o Reinaldo Azevedo e seu o programa O É da Coisa. na Band News FM. Uma história específica que foi apurada em conjunto entre o Intercept e o Blog do Reinaldo.

Como foi a audiência e o aumento de inscritos na newsletter de vocês? Com uma grande audiência seria tentador tentar ter receita a partir de publicidade. Essa é uma estratégia de financiamento que vocês podem explorar?

A nossa audiência aumentou após o início da série . Já vinha em um crescente desde o começo do ano passado, sobretudo após o assassinato da vereadora Marielle Franco [a vereadora do PSol e o motorista dela foram mortos a tiros em 14 de março de 2018]. Fomos o primeiro veículo a apontar a ligação de milícias com o crime. Fizemos uma cobertura do caso muito intensa. A nossa audiência também aumentou muito durante as eleições, quando fizemos uma cobertura muito forte. Cresceu bastante desde o começo deste ano por causa do início do governo Bolsonaro. Claro que agora com a Vaza Jato, isso se tornando um escândalo global, como merece ser tratado, a exposição do site aumentou. A gente viu desde New York Times ao La Reppublica [jornal italiano], de veículos da França ao Canadá publicando sobre o material. A gente concedeu muitas entrevistas. A gente vem falando com meios do mundo todo. A repercussão é muito forte no Brasil. Muito também por conta da imprensa brasileira e da televisão. A nossa audiência seguiu nesse rumo.
Nós não temos um modelo de negócios baseado em publicidade. Não há interesse do Intercept ter. O nosso interesse é aumentar o crowdfunding (financiamento coletivo). Ele vem aumentando muito depois da Vaza Jato, o que é excelente para a saúde financeira do site e para o meio independente jornalístico brasileiro no geral. As pessoas acabam tendo o desejo de doar para mais meios. A pessoa nunca doou, aí ela dou para um meio e vê que aquilo é bom, que faz sentido, que é importante, que ela está ajudando, aí ela acaba olhando para o lado e descobre outros meios para os quais pode apoiar. É uma estratégia de sobrevivência a partir do dinheiro dos nosso leitores, do nosso público. Essa é a expressão mais pura e cristalina que um meio pode ter.

Em algum momento vocês pretendem dar mais detalhes sobre a fonte, sobre a forma de obtenção dos dados e sobre como confirmaram a autenticidade delas?

Não falamos sobre a fonte. É importante frisar que todas as especulações em relação à fonte estão sendo feitas pelos envolvidos nos diálogos. Nunca falamos em hackers, nunca falamos em absolutamente nada. A nossa resposta sobre a fonte desde o começo é: nós não falamos sobre a fonte. E falar mais sobre a fonte ou não no futuro vai ser uma decisão da fonte, como é uma decisão de todas as fontes de todos os jornalistas. Desde o começo, muito antes de publicar os arquivos da Vaza Jato, o Intercept faz jornalismo da mesma forma como está fazendo agora. Temos contato com fontes, algumas em on, muitas outras em off, anônimas. Se nós fazemos uma reportagem sobre um ataque a uma aldeia indígena ou sobre um massacre de quilombolas ou sobre adoção ilegal de crianças no interior do país, e uma fonte anônima entra em contato conosco e pede para seguir anônima, porque tem medo de ser repreendida, agredida ou assassinada, nós respeitamos o anonimato dela. Não é diferente agora. A fonte pediu anonimato e nós estamos respeitamos. Se a fonte decidir vir a público, isso será uma decisão dela, que vamos respeitar como respeitamos o anonimato.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias