O maestro que pôs o pop na Sinfônica e conquistou os músicos (e o público) | Jornal Plural
20 fev 2019 - 0h00

O maestro que pôs o pop na Sinfônica e conquistou os músicos (e o público)

Stefan Geiger, reeleito para comandar a Sinfônica do Paraná, rege do erudito a trilhas de filme

Em novembro de 2018, um maestro a caráter regeu um grupo de músicos profissionais em frente ao Paço da Liberdade, Centro de Curitiba. De supetão, executaram sob sol a pino o conhecido tema de abertura da série de filmes Star Wars, de John Williams. O som dos metais e da percussão saía das janelas, abertas no decorrer da peça, como se respeitassem uma marcação na partitura. O interesse de quem passava casualmente por ali foi inédito e imediato. Ouvidos atentos, sorrisos à toa e muitas perguntas ao estilo: “O que diabos está acontecendo”?

A ideia, simples e cativante, foi do maestro alemão Stefan Geiger: um flash mob para divulgar o concerto que a Orquestra Sinfônica do Paraná realizaria no final de semana seguinte, no Teatro Guaíra. À frente da sinfônica desde 2016, Geiger foi reeleito maestro titular por 41 votos a 19. E sua gestão, mais do que em todas as outras desde a fundação da orquestra, em 1985, vem sendo marcada pela aniquilação de estigmas: de que a música clássica, ou “erudita”, precisa de um teatro com ar-condicionado para acontecer; de pessoas endinheiradas para apreciar; e de suporte financeiro exclusivamente estatal para transmitir algum sentimento transformador por meio da música.  

Aos 52 anos, Geiger tem um ar jovial e um modo particular de se fazer entender, com explicações ao mesmo tempo profundas e acessíveis. Usa discursos sóbrios para falar sobre as conquistas recentes da orquestra, que abarrotou o Teatro Guaíra por três noites quando executou a ópera João e Maria, em setembro de 2018 – com ingressos a R$10 e R$20. “Se todos os músicos votassem em mim, ficaria assustado porque teria algo errado”, diz Geiger. “Não é natural um maestro ser reeleito. Quando vim para Curitiba, tive que escolher alguns caminhos. Um deles foi aumentar o trabalho dos músicos. Eles precisam estudar e tocar mais pelo mesmo salário. A reeleição foi um sinal de que compraram a ideia deste cara alemão que de repente apareceu aqui.”

Geiger: missão é aproximar a orquestra das pessoas. Foto: Bruno Stock.

Aos cinco anos, Geiger já se virava no violino, piano, percussão e trombone. De família musical, tem especial carinho pelos ensinamentos do irmão, 14 anos mais velho. O alemão também é trombonista na
Orquestra da Rádio de Hamburgo, sua cidade natal, e criador e jurado do Games Music Awards, competição que premia os melhores compositores de músicas para videogames na Alemanha.

Uma das grandes contribuições de Geiger para facilitar o acesso à produção da Orquestra Sinfônica foi realizar filmes-concerto. Aliar o cinema à música, nivelá-los num mesmo patamar artístico, democraticamente. Especialista na área, ele trouxe para o repertório da orquestra clássicos do cinema mudo como Metrópolis (1927), de Fritz Lang, e Luzes da Cidade (1931), de Charlie Chaplin. O que se viu durante estas apresentações, em que a orquestra executa a trilha sonora ao vivo, foi um público diversificado, interessado e entregue.  

“Essa é a minha missão: aproximar a orquestra das pessoas. No começo sofri porque ideias como essas demoravam muito tempo para sair do papel, anos até. Agora as coisas caminham em ritmo diferente”, diz Geiger, que no ano passado trouxe para concertos em Curitiba solistas e maestros como Sooyoung Yoon, Michael Nesterowicz, Pacho Flores, Tanja Tetzlaff e Raphael Haeger.  

Mais do que um maestro, a sinfônica contratou uma espécie de “manager” bem relacionado, que se preocupa não só com a batuta e os compassos, mas com outras instâncias da orquestra, até burocráticas. Geiger usa o futebol para se explicar. “Gosto de ser maestro não porque sou ‘o cara’. Mas porque tenho a missão de fazer com que a música se aproxime das pessoas e ao mesmo tempo as aproxime. Pense num técnico de futebol: o que ele faz é tirar o melhor dos jogadores para benefício do time. Eu amo as pessoas com quem trabalho. Gosto de seres humanos. Quando morrer, quero que lembrem disso, porque é o único legado possível. Se você é um cuzão e não gosta de pessoas, está em apuros. Sua existência será menor do que poderia ser”, filosofa o torcedor do Hamburguer Sport-Verein, time rebaixado pela primeira vez à segunda divisão alemã em 2018. “Não vamos falar disso, por favor…”

Gosto de seres humanos. Quando morrer, quero que lembrem disso, porque é o único legado possível. Se você é um cuzão e não gosta de pessoas, está em apuros. Sua existência será menor do que poderia ser

Stefan Geiger

Stefan Geiger tem três filhos (18, 14 e 11 anos) que vivem na Alemanha e dedica seu tempo livre, muito escasso, a eles. Gosta de esquiar, e o faz na companhia do trio quando pode. “Deveria ter mais dias livres para visitá-los, não acha?”, pergunta Geiger, habitué da Feirinha do Largo da Ordem aos domingos. Geiger é metódico e disciplinado. Ouve ensaios e composições “profissionalmente” de cinco a oito horas por dia. Depois disso, prefere o silêncio. “Música é trabalho”.

“Democracia” alemã

Flautista da sinfônica desde sua fundação, há mais de três décadas, Sebastião Interlandi Júnior cita a “energia” do maestro e o seu “algo a mais” como explicação para a reeleição e para o bom momento artístico da orquestra, que passou por maus bocados há alguns anos, quando músicos foram desligados e houve um complicado processo seletivo para contratar outros.

“Tudo o que ele fala é pertinente. Geiger tem uma habilidade imensa para ser maestro, e preza pela gestão humana, apesar de ser alemão”, brinca o flautista de 61 anos, ex-presidente da Associação dos Músicos da OSP (de 2015 a 2017). “O nível de exigência é muito alto, mas há uma maneira diferente de cobrança. Alguns músicos são excelentes e estão estudando ainda mais por causa dele. O resultado o público percebe, certamente”, conta Interlandi.

Democracia, mas nem tanto: regente escolhe peças e solistas. Foto: Bruno Stock.

As críticas que Geiger recebe têm relação com suas certezas. “Ele é democrático, mas entre aspas. Pede opinião, mas traz sempre os solistas que quer, e escolhe o repertório que quer”, diz o flautista. “A rejeição a ele cresceu um pouco nestes últimos tempos, mas o envolvimento do maestro com a orquestra é irresistível.”

Marcelo Oliveira, clarinetista da OSP há 27 anos, ressalta a “ótima” fase artística da orquestra e a modernização que Geiger proporcionou aos músicos, seja nos ensaios, nos concertos e no convívio diário. “Os ensaios são produtivos e ele dá atenção a quem mais precisa. Ele nos convence pelo trabalho, e mostra como estávamos atrasados em relação à preparação de profissionais da música no Brasil. Porque ele se interessa por tudo que envolve a orquestra”.

O flautista e o clarinetista são assertivos sobre o número insuficiente de instrumentistas da OSP – atualmente são 66. “Para tocar [Igor] Stravinsky, o ideal seriam 110”, diz Interlandi. A crítica esbarra no eterno nó do orçamento, que por sua vez atrasa as atividades da orquestra. “Deveríamos ter voltado aos trabalhos no início de fevereiro, mas o retorno da orquestra foi remarcado para 7 de março. Alguns concertos foram adiados, infelizmente, por falta de recursos”, diz Oliveira.  

Instituto e futuro

Pouco tempo depois de assumir a orquestra, em 2016, Stefan Geiger idealizou o IAOSP – Instituto de Apoio à Orquestra Sinfônica do Paraná. A ideia é, assim como acontece em outras formações musicais pelo mundo, arrecadar verbas para a sinfônica, para que a dependência da maré financeira estatal diminua.

Por meio de projetos culturais viabilizados pela Lei Rouanet, instituições e pessoas físicas contribuem na captação de recursos. Atualmente, há oito voluntários no IAOSP, apresentado ao público oficialmente em setembro do ano passado, antes da execução do filme-concerto “Luzes da Cidade”. “É uma espécie de clube de amigos da orquestra”, diz Marcella Carvalho, uma das diretoras. “Geiger traz uma experiência internacional que funciona em outros países.”

Em parceria com o Centro Cultural Teatro Guaíra, o IAOSP pretende, para este ano, contratar músicos convidados para apresentar concertos específicos. Os planos da Orquestra para 2019 incluem, entre outros espetáculos, a execução do poema sinfônico Aprendiz de Feiticeiro”, de Paul Dukas – trilha do filme Fantasia” (1940), de Walt Disney; La Valse”, de Maurice Ravel; A Sagração da Primavera, de Stravinsky, e uma inédita turnê pela China, só possível graças às manhas de Stefan Geiger.

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