Álbum reúne obra de Maé da Cuíca, maior nome do samba em Curitiba | Jornal Plural
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8 ago 2020 - 11h00

Álbum reúne obra de Maé da Cuíca, maior nome do samba em Curitiba

Disco “O bamba da Vila Tassi” demorou oito anos para sair e será lançado neste sábado (8) em série de eventos virtuais

Figura central do samba e do carnaval de Curitiba, o músico Maé da Cuíca (1927-2012) tem sua obra de compositor relida no álbum “O bamba da Vila Tássi”, que será lançado neste sábado (8), nas plataformas digitais.

O disco que demorou cerca de oito anos para vir à luz será apresentado no canal do YouTube do Samba do Sindicatis. Serão sete encontros transmitidos ao vivo sempre aos sábados, a partir das 16h, pelos próximos sete fins de semana, até o dia 19 de setembro.

O projeto de álbum com os maiores sambas de Maé da Cuíca começou em 2013 quando o produtor Ricardo Salmazo, com apoio do Sesc Paço da Liberdade, reuniu artistas de diferentes gerações do samba e do carnaval curitibanos para homenagear o então recém falecido sambista.

A cantora Mãe Orminda e o sambista Valter Susto são alguns dos nomes que participaram das sessões.   

As gravações foram feitas ainda naquele ano, mas por falta de dinheiro a mixagem e a masterização do material não foram finalizadas para um lançamento.

Há dois anos, os integrantes do Samba do Sindicatis, roda de sambistas e pesquisadores de cultura popular de Curitiba, se cotizaram para bancar o que faltava da produção e, enfim, lançar o álbum com a obra de Maé.

“Nossa roda aportou o recurso para finalização do projeto. Mas, além da parte financeira, o Sindicatis foi grande estimulador desse projeto em razão da relevância que o Maé possui dentro da formação da nossa identidade”, disse Bruno Santos Lima, um dos integrantes do Sindicatis. 

Ruptura

A trajetória de Maé da Cuíca é vista como um momento de ruptura na história social de Curitiba e do Paraná, uma época que envolveu movimentos emancipatórios dos negros e de outros grupos excluídos que passaram a ter voz a partir de manifestações culturais.

“Ele [Maé] é o abre-alas. Veio com essa missão. Ele peitou muita coisa pessoalmente. A liderança dele era baseada em dar liberdade para os outros fazerem suas partes. Criava os grupos, as rodas e a escola de samba e assim empoderava, dava autoestima para o povo humilde”, explica Salmazo.

A vida

Ismael Cordeiro, o Maé da Cuíca, nasceu em Ponta Grossa e veio para Curitiba após uma acidente doméstico: aos 5 anos, bebeu cálices de licor e passou tão mal que o pai precisou trazê-lo para um hospital em Curitiba.

Durante o internamento, seu pai arrumou trabalho na Rede Ferroviária e a família acabou se instalando na Vila Tassi, o bairro operário dos ferroviários e berço do samba em Curitiba.

No livro “Colorado – A primeira Escola de Samba de Curitiba”, de João Carlos de Freitas, Maé conta que a cidade era dividida pela linha do trem na região onde hoje fica o Viaduto Colorado e o Moinho Anaconda, e a população negra e humilde não se dirigia ao centro para brincar o carnaval porque não era bem vista pela sociedade curitibana.

Nesse espaço da Vila Tassi, sambistas se reuniam embaixo das árvores e, aos poucos, Maé começou a participar das rodas de samba e logo aprendeu a tocar o instrumento que lhe rendeu o apelido. Foi funcionário da Rede Ferroviária Federal e profissionalizou-se jogando como meia de campo e lateral pelo time da estatal, o Clube Atlético Ferroviário, pelo qual chegou a ser campeão paranaense em 1953.

E a obra

Na música, Maé da Cuíca foi autor do primeiro samba-enredo curitibano e autor de diversas canções do samba paranaense, sendo um dos principais responsáveis por difundir o gênero pelo estado. Foi ele que fundou, em 1945, a primeira escola de samba da capital: a Colorado.

“O Maé funciona para a cultura paranaense como um verdadeiro ponta-de-lança, até por ter sido jogador de futebol. Ele rompe a barreira do preconceito racial e social para colocar o carnaval na rua. Foi dele a iniciativa de fazer o pessoal da Vila Tassi cruzar essa linha e ir até a cidade e se divertir no período das festas, desafiando o mesmo racismo que vira e mexe insiste em mostrar as caras até os dias de hoje”, diz Santos Lima.

O samba do “nosso jeito”

Nesse sentido, a atuação de Maé tem espírito emancipatório, pois intermediava as relações das camadas mais pobres com as autoridades para que houvesse uma melhor acolhida, pelas forças de repressão, daquela massa de trabalhadores que se reuniam para comemorar o carnaval. “Maé se situa como essa figura que teve coragem de romper com as barreiras conservadoras da sociedade curitibana e dar a visibilidade ao povo marginalizado de mostrar sua manifestação”, diz.

Sua influência no samba local é tão grande que as temáticas de suas composições são a territorialidade, o preconceito contra negros, os sambistas e a boemia; as mesmas que ainda inspiram a geração atual de compositores. 

Para o produtor Salmazo, o álbum é, portanto, “uma celebração do nosso samba em torno do cara que é o principal ícone. Para mostrar um pouco do jeito de a gente fazer samba”.

Salmazo destaca que, musicalmente, Maé estava à frente de seu tempo e conectado com o que acontecia nos principais centros culturais do país, como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

“A bateria dele tocava mais rápido que o normal e usava instrumentos únicos, os andamentos eram diferentes, era uma mistura doida. Acho que tem a ver com a rede ferroviária. As influências chegavam de trem e confluíam ali na Vila”, diz.   

Vanguarda

Mas não era só na música que Maé estava afinado com o tempo cultural do país – e na vanguarda do que se fazia em Curitiba. Segundo Santos Lima, Maé, “mesmo sem uma organização formal, politizada do seu bloco e posterior Escola de Samba, percebeu que a arregimentação do seu povo em prol de um ideal poderia fazer alguma transformação no tecido social da cidade”.

“Ele viveu numa época em que o lugar do negro na sociedade era muito mais determinado do que é hoje e muitos de sua geração se conformaram com essa condição enquanto ele buscou formas de modificar essa realidade. Ele representa algo que dizemos muito em nossa roda, que cantar um samba é, por si só, um ato de resistência e nisso pretendemos manter o legado do mestre por muitos anos”, diz Santos Lima. 

Lives

Lançamento do disco “O bamba da Vila Tássi”, com sambas compostos por Maé da Cuíca e interpretados por vários músicos e cantores.

Transmissões ao vivo no canal do Samba do Sindicatis, no YouTube.

As lives serão sempre aos sábados, a partir deste (dia 8), até 19 de setembro, das 16h às 17h30.

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