24 fev 2022 - 10h25

Francesa luta contra um urso e sobrevive para contar a história em “Escute as feras”

Antropóloga Nastassja Martin mostra uma capacidade incrível para compreender o mundo em um livro com descrições de tirar o fôlego

A antropóloga Nastassja Martin viajou à Sibéria, na Rússia, para fazer pesquisa de campo. Um dia, numa floresta de Kamtchátka, cruzou o caminho de um urso. Ela nunca diz que foi atacada nem assume o papel de vítima. E prefere se referir ao evento com um encontro ou, a certa altura do livro “Escute as feras”, como um combate. “Eu lutei com um urso.”

A luta ocorreu em 2015 e a primeira edição do livro saiu na França em 2019. Com cerca de cem páginas, o texto é uma bordoada e tem várias descrições de tirar o fôlego. “Penso na minha história”, escreve Martin. “No beijo do urso em meu rosto, nos seus dentes que se fecham em minha face, no meu maxilar que estala, no meu crânio que estala, na escuridão dentro da sua boca, no seu calor úmido e no seu hálito carregado, no aperto de seus dentes que se soltam, no meu urso que, bruscamente, inexplicavelmente, muda de opinião, seus dentes não serão os instrumentos de minha morte, ele não me engolirá.”

Como a antropóloga explica, antes de “mudar de opinião”, o urso levou embora um pedaço de seu maxilar e quebrou o osso zigomático direito. Além de ter estraçalhado sua cabeça, que teve de ser raspada e costurada.

A luta com o urso é traumática. Mas é um tipo de trauma diferente do que ela sofre ao ser atendida em hospitais russos e, mais tarde, em hospitais franceses. O trauma com o urso inspirou um tipo de compreensão que ela não tinha em relação ao mundo. O trauma com os hospitais é apenas degradante.

Nastassja Martin parece ter uma coragem (ou imprudência) muito parecida com a de Timothy Treadwell, tema do documentário “O homem urso” (2005), de Werner Herzog. Num ato que muitos veriam como insano, Treadwell abandonou o convívio com pessoas para estudar ursos pardos no Alasca. E, de fato, viveu entre os animais por mais de uma década, até ser devorado por um deles, em 2003.

Martin, “A mulher ursa”, teve mais sorte do que Treadwell e viveu para contar a história ela mesma.

“Escute as feras” é uma realização. Martin elabora bem o que viu e sentiu. Todas as vezes que menciona o encontro com o urso são impressionantes. Há casos em que o estilo da autora, cheio de metáforas e exageros, parece literatura ruim. Como quando diz ser “o peixe que volta a mergulhar e se transforma em pássaro multicolorido sob a superfície fria e escura do rio”; ou quando cita uma “constelação de detalhes que pululam no corpo”. Mas não é nada que comprometa o valor do livro.

No entanto, o maior talento da antropóloga, hoje com 35 anos, tem a ver com uma capacidade incrível para compreender os outros e o que se passa. Para compreender o urso, a luta, o povo even, a mãe e o irmão. Ela só não consegue compreender a si mesma. “Nunca sei verdadeiramente aonde vou nem quem sou.”

Livro

“Escute as feras”, de Nastassja Martin. Tradução de Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann. Editora 34, 112 páginas, R$ 46. Antropologia.

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