A briga no Madalosso que nos deu uma romancista | Plural
20 abr 2019 - 5h44

A briga no Madalosso que nos deu uma romancista

Como se sabe, mas cada vez menos se diz, a literatura tem poderes incríveis e transformadores. Alguns imprevisíveis e picarescos, é bem verdade, como o…

Como se sabe, mas cada vez menos se diz, a literatura tem poderes incríveis e transformadores. Alguns imprevisíveis e picarescos, é bem verdade, como o de fazer com que a filha do Sr. Madalosso, aquele mesmo do restaurante italiano de Santa Felicidade, fosse demitida dos negócios da família pelo próprio pai depois de tretar com um cliente “que tem sempre razão”.

A vida curta no ramo das polentas, risotos e radiccis serviu, no entanto, para que Giovana Madalosso cultivasse memórias para criar a garçonete protagonista de Tudo Pode Ser Roubado (Todavia), primeiro romance da curitibana radicada em São Paulo.

O livro vem no embalo surpreendente de A Teta Racional (Grua Livros), finalista do Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, em 2017. Sobre feminismo e feminino, com delicadeza e crítica na mesma medida, a obra foi o resultado da decepção consciente da jornalista (formada pela UFPR) com a profissão.

“Não tenho compromisso com a verdade. Prefiro inventar a checar”, diz Giovana, que estreou com A Teta Racional aos 35 anos. Ela então migrou para a publicidade. Como redatora, trabalhou em agências de Curitiba, São Paulo e Nova Iorque. Estudou roteiro de cinema na New York University e fez roteiros de séries para os canais GNT e Multishow. “Mas o que queria mesmo era ser escritora. Lia romances trancada nos banheiros das agências.”

A experiência com o texto publicitário e com roteiros foram fundamentais para o feitio de Tudo Pode Ser Roubado, romance de linguagem ágil em primeira pessoa e com diálogos que remetem ao melhor das séries norte-americanas. A história é narrada por uma garçonete abstêmia-cleptomaníaca que seduz clientes ricos no restaurante em que trabalha, em São Paulo, para furtar artigos de luxo em suas casas – o sexo “justificaria” os fins. Alguns destes artigos são vendidos para a amiga Tiana, transexual dona de um brechó.

A rotina suburbana, de encontros boêmios, drogas ocasionais e de encontros com a real decrepitude das relações contemporâneas, é interrompida quando um sujeito induz a garçonete a roubar a primeira edição do livro O Guarani, de José de Alencar, publicada em 1857. A moça topa missão e inicia uma perseguição falsamente romântica a Cícero, dono da obra, um professor solitário e com disfunção erétil.

Para além do fio condutor engenhoso e curioso, algumas das questões mais relevantes do romance, dividido em capítulos de títulos saborosos e irônicos como “Do fungo ao sol” e “O poder reconciliador das coisas cintilantes” é discutir questões urgentes, como a idolatria inconsciente “ao macho”, a legitimação da diversidade sexual (Tiana) e a crítica debochada à elite econômica brasileira, fútil e vazia.

Giovana alcança o objetivo sem, no entanto, apelar para digressões ou tratativas pseudofilosóficas. Suas armas são as relações humanas. Ela escreve, às vezes, como se Woody Allen contasse uma piada.

“Queria falar sobre a ilusão de felicidade escondida nas conquistas materiais, sobre a opressividade dos padrões de gênero e, acima tudo, sobre a forma contemporânea de se relacionar, com dezenas de interações casuais que ocultam mas não mitigam em nada a nossa solidão”, diz.

Outro subtexto presente em Tudo Pode Ser Roubado é a relação com a literatura, notadamente a brasileira. “O Guarani” é um livro indianista que se propôs, à época de seu lançamento, demonstrar e refletir a realidade brasileira do século 19. Os personagens de Giovana – cafetões, malandros, cocainômanos e hipócritas talvez tenham algum significado numa possível radiografia do Brasil de 2019.

“A escolha de O Guarani foi bem mais aleatória do que parece. Visitei um negociador de livros raros em São Paulo e perguntei a ele qual obra brasileira valeria mais, caso surgisse no mercado. Ele me disse que, possivelmente, a primeira edição de O Guarani. Reli o livro, não me lembrava tão bem dele. E achei perfeito porque, de certa forma, a narrativa do José de Alencar estava em sintonia com o Cícero, o personagem algo anacrônico que possui o O Guarani em Tudo Pode Ser Roubado.”

O pior e o melhor de Tudo Pode Ser Roubado é que o livro tem um jeitão de roteiro cinematográfico. Talvez por isso mesmo, os direitos da obra foram vendidos para virar série nas mãos da produtora e diretora Vera Egito, assistente de direção do filme O Cheiro do Ralo (2007) de Heitor Dhalia, e diretora do longa Amores Urbanos (2016).

SERVIÇO
Tudo Pode Ser Roubado
Editora Todavia
192 págs.
R$ 49,90

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