Giovanny Godoi trabalha como motoboy para ajudar a família e luta para concluir a faculdade de física na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Quer trabalhar com pesquisa, ser cientista. Aos 21 anos, ele entende que a mudança social que deseja passa pelo socialismo, defendido pela Unidade Popular (UP). Por isso, está candidato a deputado federal por Londrina.
Um dos partidos mais jovens do país, a UP tem chapa presidencial composta por duas mulheres negras, Samara Martins e Raquel Brício. Para o Governo do Paraná, disputa com Tayná Miessa e Willian Araki. O partido não tem tempo na propaganda eleitoral nas TVs e rádios e acredita em um boicote da imprensa tradicional. Por isso, é preciso estar nas ruas para falar com as pessoas.
“Tem tido uma abertura gigantesca (à campanha), principalmente nas ruas, conversando com o povo, a gente vê isso. O povo tá bem cansado dessa velha política, de votar nos ‘juniores’, nos filhos, né? Nas mesmas famílias, nas mesmas pessoas sempre e estão bem abertos ao programa do nosso partido. É um programa que se destaca dos demais”, defende Giovanny.
Segundo o motoboy, estar nas ruas não é uma atividade de campanha apenas para a UP, mas uma prática constante. “É onde a gente é forte. Porque na TV, nas mídias, a gente é boicotado. A gente nasceu das ruas, nasceu do trabalho de base, da classe trabalhadora mesmo. E a ideia é continuar assim, porque o dia que a gente sair da rua é o dia que a gente perde o nosso princípio”.

Ingresso no partido
Natural de Santo Antônio da Platina, no Norte Pioneiro do Paraná, Giovanny se mudou para Londrina há quatro anos. Foi quando, após dificuldades para continuar a universidade na pandemia, conseguiu transferência para a UEL. O sonho do menino do interior de estudar e fazer ciência se mostrou cheio de obstáculos.
“Me esforcei muito para entrar na universidade, mas tem essa barreira gigantesca que é se manter, porque você vê os colegas não precisando trabalhar, tendo tempo livre, a gente tem que enfrentar essa realidade de não ter dinheiro pra se manter, de ter que deixar a qualidade da aula, do nosso ensino, pra poder sobreviver, né?”, explica Giovanny.
A consciência do abismo social levou o jovem também para a Unidade Popular. “A gente percebe que se não lutar, a gente não se forma. Que também é sobre isso, perceber a realidade de quantos de estudantes também não passam pela mesma coisa. Que essa é a realidade da maioria dos estudantes filhos de trabalhadores que estão dentro da universidade”.

Fim do vestibular
Um dos principais pontos defendidos pela campanha da Unidade Popular nacionalmente é o fim do pagamento de juros da dívida pública, que apenas este ano, pode alcançar R$ 1 trilhão. O dinheiro, na visão do partido, deveria ser revertido em investimentos na saúde e educação.
“Se a gente parar de pagar os bancos, vai ter dinheiro para a nossa educação. E para aumentar o número de cadeiras, construir mais universidades e garantir que o povo trabalhador pobre esteja dentro da universidade, e políticas de permanência”, detalha.
A UP defende o acesso livre às universidades públicas, com o fim do vestibular. “Eu não fiz vestibular pra entrar na escola pública, porque ela é necessária pra gerar mão-de-obra. Agora, por que eu não posso, não é meu direito, ter educação continuada, sair da escola pública e ir para universidade? Aí falam que vai diminuir o nível das universidades. Mas por isso mesmo que tem que investir na nossa educação, garantir que a escola pública funcione. No Paraná, o ‘Parceiro da Escola’ a gente já viu que o orçamento não é um problema”, defende.
Giovanny se refere ao programa de terceirização de escolas públicas promovido pelo governo Ratinho Jr., que repassa recursos públicos para empresas privadas gerenciarem as unidades.
“A gente vê que dentro da universidade parece que não é o nosso espaço, do povo pobre, do povo trabalhador. E é uma contradição que sempre grita assim dentro de mim, porque eu sei que quem constrói a universidade é o trabalhador”, diz o candidato.
“Então é, de fato, colocar o investimento na educação, garantir que as escolas públicas funcionem, sejam de qualidade, sejam as melhores e a gente consiga entrar na universidade. Que seja o nosso direito a educação continuada. O jovem só se forma quando sai da faculdade”.

Ocupações
Como organizar o povo trabalhador? Para Giovanny existem diversas formas e os movimentos de luta por moradia e outros direitos sociais, promovidos pela UP em vários pontos do país, são prova de como isso funciona. Um deles é o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).
“A questão da moradia tá garantida lá na Constituição, é direito de todo brasileiro ter um espaço, um teto, um lugar para morar. Isso a gente acredita que é um direito básico de todo ser humano, né? Mesmo assim, no nosso país, a gente vê um déficit habitacional absurdo, enquanto a gente sabe que tem espaço, tem lugar”, explica.
Como exemplo de ação do movimento, ele cita a Ocupação Francisco Bernardo, em Curitiba, que ocupava um prédio público da União, sofreu reintegração de posse e se reorganizou em outro local.
A fila da Cohab por moradia em Curitiba é de 56 mil famílias. Em Londrina, chega a 60 mil o déficit habitacional.
“O MLB organiza o povo trabalhador que não aguenta mais pagar aluguel, porque o salário mínimo não é o suficiente, porque existe esse mercado especulativo, que aumenta o preço do aluguel e joga o povo pobre trabalhador mais distante, para a periferia da cidade”, diz Giovanny.
A UP também se organiza junto ao Movimento de Mulheres Olga Benário para promover ocupações e transformá-las em casas de acolhimento a mulheres em situação de violência. Em Londrina, a Ocupação Margarida Alves está localizada em um imóvel na Rua Belém.
Outras candidaturas
Além da candidatura de Giovanny Godoi e Julia Marinho, da região de Curitiba, à Câmara Federal, a UP tem dois candidatos a deputado estadual: Juliane Mendes e Lohan Cota. Para o Senado, concorre com Joaquim do MLB.