Em uma sessão marcada pela presença popular e por críticas à gestão do prefeito Tiago Amaral (PSD), vereadores de Londrina aprovaram, em primeiro turno, o Projeto de Lei 192 de 2026 (PL 192/2026), que autoriza a doação de 18 terrenos do município para o Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), destinado ao programa Minha Casa, Minha Vida. Londrina está pleiteando a construção de 2.218 moradias, mas corre o risco de ficar sem o recurso caso a doação não seja aprovada até a próxima semana.
Serão mil moradias para famílias que estão na fila de cadastro da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) e outras 1.218 para moradores da ocupação Flores do Campo. Londrina tem cerca de 65 ocupações urbanas onde vivem mais de 3,5 mil famílias.
O FAR exige que os terrenos indicados sejam próximos a equipamentos públicos e serviços urbanos. Porém, dentre os 18 terrenos indicados pela gestão constam praças no Moradias Cabo Frio, no Residencial Marajoara e duas áreas no Residencial Santa Rita 5 que são alvo de contestações. Os moradores alegam que elas servem para uso e lazer da população. Três emendas apresentadas na sessão de hoje pretendem excluir essas áreas do texto inicial e serão analisadas pelas comissões.

Ataques ao prefeito
Muitos vereadores criticaram a gestão Tiago Amaral por pressionar uma aprovação a toque de caixa do PL 192/2026. Embora tenha apresentado o texto há mais de quatro meses, não houve mobilização do Executivo para debate aprofundado. Mesmo a audiência pública, solicitada por moradores no mês de abril, não tem mais tempo hábil para ocorrer, sob pena de perda dos recursos.
Na visão do vereador Matheus Thum (PP), o prefeito enviou para a Câmara “um projeto mal feito”. O vereador ainda veiculou áudio atribuído ao prefeito, no qual ele declara: “Moradores estão preocupados com a praça e nem usam a praça”, no que seria uma alusão aos moradores dos jardins Santa Rita, Marajoara e Moradias Cabo Frio.
A vereadora Jessicão (PL) criticou o andamento acelerado do PL. “Mais uma vez colocam coisas de urgência que é para tomar das pessoas no ‘tapetão’, na bandidagem. Porque, de repente, a gente aprova isso aqui e parte das pessoas não estão sabendo e parte estão sendo enganadas”. Ela também defendeu a realização de audiência pública. “Esses terrenos não são do prefeito nem de vereador nenhum, são das pessoas”.
Em um dos momentos de maior reação nas galerias, Jessicão se dirigiu aos moradores que esperam por casa e perguntou: “Por que não trabalhou o suficiente pra ter a própria casa?”.

A vereadora Michele Thomazinho (PL) fez fala ponderando a equivalência de direitos entre os moradores dos bairros e os que esperam pela casa própria. Para ela, o projeto está sendo discutido a toque de caixa por “incompetência” da gestão Tiago Amaral.
“Não dá para fazer casa numa praça que está lá há 30 anos e tirar o lazer das pessoas que já a utilizam”, acrescentou o vereador Deivid Wisley (NOVO). “Quem devia estar falando nessa tribuna aqui se chama Tiago Amaral”.
Mais tarde, o prefeito falaria na sessão.
Moradores se manifestam
Moradores dos bairros e pessoas que aguardam há anos por uma casa própria tiveram momentos de fala. Simone Lopes Viotto, moradora do Marajoara, nega que a praça seja um terreno baldio. “É uma área usada pela população, até para plantar. E os alimentos são distribuídos aos moradores. Já tinha a promessa de que naquele espaço seria construída uma escola ou algum equipamento público para o bairro. A gente já tem falta de vaga no posto de saúde, creche não existe”, complementou.
Adriel Vicente dos Santos, morador do Santa Rita, defendeu que a moradia tem de vir acompanhada de qualidade de vida. Para ele, a construção de novas habitações pode sobrecarregar serviços como instituições de ensino e unidades de saúde. “Meus filhos ficaram dois anos esperando vaga em creche. Tem vaga nas creches? Infelizmente não tem. O que nós estamos defendendo aqui é dignidade, mas com qualidade de vida”.

Morador do Flores do Campo há 9 anos, Cleberson Aparecido de Andrade defendeu a aprovação do projeto como uma oportunidade para as famílias. “Lá no Flores do Campo não tem rede de esgoto, é fossa. Se a gente perder esse projeto, para onde vão essas moradias? A gente não é contra praça, mas não queremos perder essas moradias”, disse.
A vereadora Flávia Cabral, líder do prefeito na Câmara, teve dificuldade em dar sequência à fala em meio às manifestações das pessoas nas galerias. Ela chegou a fazer sinal de silêncio a uma mulher. “É um dia difícil, porque temos na nossa mão uma questão importante, um projeto histórico. Há mais de 10 anos não se constrói moradias FAR para pessoas com renda até três salários mínimos. Nós não podemos perder as casas, é necessário aprovar o projeto hoje”, declarou.
A vereadora Lenir de Assis (PT) classificou o projeto como “extremamente complexo e importante”, “lamentavelmente” discutido em tempo de urgência. “Estamos falando de moradores e moradoras que vivem em áreas de periferia, de vulnerabilidade social, onde tem crianças, idosos, famílias inteiras vivendo sob risco. O projeto é importante e podemos votar sim, porém, precisamos adequar algumas situações. Não tenho dúvida que poderia ter escolhido outras áreas”, afirmou.
Quatorze dos 19 vereadores votaram a favor do projeto:

Os últimos a falarem na tribuna, antes da votação, foram o representante da Cohab e o prefeito Tiago Amaral, que classificou o projeto como solução para um grave problema social.
“Como é que você constrói família se você não tem casa, se você não tem a tua casa, se você vive num barraco, se não sabe se no dia de amanhã vai ser despejado?”, afirmou.