Sentada em um banco a poucos metros de onde a filha com Síndrome de Down pratica exercícios, Rosane não precisa pedir desculpas pelo comportamento frequente de oposição da filha, nem lidar com olhares de reprovação. A cena, que até pouco tempo atrás seria uma raridade, começa a ganhar espaço em Curitiba. Locais como o Espaço Rodrigo Brivio & GêDois e a Volpe TEAm, ambas no bairro Mercês, fazem parte de um grupo de academias, com diferentes iniciativas, que decidiram adaptar não apenas suas estruturas físicas, mas a mentalidade de seus profissionais, para receber crianças, adolescentes e até adultos que possuem neurodivergências ou algum tipo de deficiência, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a Síndrome de Down.
A necessidade de espaços de acolhimento é respaldada por números. No Brasil, a cada 600 a 800 crianças nascidas, uma tem Síndrome de Down, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O mesmo instituto revelou, em seu último Censo Demográfico, que o país tem hoje 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista, com o maior índice concentrado entre crianças de 5 a 9 anos (2,6% desta faixa etária). Para essa parcela da população, o ambiente hiperestimulante de uma academia tradicional muitas vezes representa uma barreira intransitável.
O fim do julgamento e o começo da autonomia
Para famílias atípicas, encontrar um local onde o exercício físico não seja acompanhado de tensões sociais é um alívio imediato. "Quando eu soube da abertura em Curitiba, fiquei muito feliz. É um espaço onde realmente não tem julgamento, não tem comparação", relata Rosane Kirshner, mãe de uma menina com Down de 5 anos.
A evolução motora, segundo ela, reflete diretamente na autoconfiança da filha. "Ela sempre gostou de movimento, mas sinto que agora ela está mais confiante. Em relação à bicicleta e à patinação, ela está muito mais segura. Cada movimento diferente que ela não fazia e consegue fazer, é uma comemoração", destaca.
Essa transferência de habilidades da academia para a vida real é o cerne do trabalho dessas novas metodologias. No Espaço Rodrigo Brivio & GêDois, a estratégia é camuflar o esforço físico através do lúdico. Fernanda Napoli Martins, fundadora da unidade curitibana da rede, explica que o ambiente, repleto de cores, camas elásticas e circuitos, é desenhado para ser motivacional. O atendimento é individualizado, com um professor para cada aluno.
"A ideia é exercitar de uma forma totalmente lúdica, para que eles não percebam aquela coisa maçante de academia. Fazemos uma avaliação para ver onde está o atraso da criança, seja tônus muscular, coordenação ou motricidade, e criamos um plano terapêutico", explica Fernanda.
O impacto dessa abordagem vai desde bebês até adultos. Jonathan Klein, conhecido como "Tio Jhony", preparador físico da Rodrigo Brivio, relata o caso de um aluno de dois anos que, em poucos meses, deixou de precisar sentar no chão para tirar o tênis, ganhando equilíbrio para erguer o pé. Em outro caso, um jovem de 24 anos com deficiência intelectual, que chegou com o tônus muscular muito baixo, hoje consegue subir degraus sem ajuda. "Na academia comum, você faz o treino resistido, a repetição em máquinas. Aqui, através de circuitos dinâmicos, fazemos trabalhos funcionais para que as habilidades motoras sejam generalizadas em outros contextos", detalha Jonathan.
Esporte como ferramenta para a vida
A generalização, ou seja, a capacidade de usar o que se aprendeu na terapia em situações cotidianas, é também o pilar da Volpe TEAm. A iniciativa vai além do próprio espaço físico nas Mercês, atuando dentro de clínicas parceiras e clubes da capital.
Sob a liderança de Felippo Volpe, profissional de educação física e analista do comportamento, a equipe utiliza a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e o protocolo PCM (Professional Crisis Management) para garantir que alunos com qualquer nível de suporte ou desafios comportamentais possam ser atendidos.
"O esporte, a atividade que o aluno vai praticar, é a ferramenta que utilizamos para ensinar não só o exercício, mas as habilidades sociais, comunicativas e cognitivas necessárias para a independência", afirma Felippo. O objetivo da Volpe TEAm é ousado: dar alta da própria mão de obra.
O trabalho começa de forma acompanhada, garantindo que as barreiras sociais e motoras sejam superadas, para que, no futuro, o aluno possa frequentar ambientes coletivos por conta própria. "Ele nunca vai ter alta do esporte, porque isso é para a vida toda. Mas ele vai ter alta da nossa presença, podendo praticar a modalidade que ele gostar de forma independente", conclui Felippo.
O termômetro da alegria
Seja qual for a abordagem, desde o circuito lúdico individualizado ou a inclusão comportamental em esportes coletivos, o resultado final é medido no bem-estar da rede familiar e no sorriso de quem pratica. Felippo conta que viu um pai chorar de alegria ao ver o filho autista convidar outras crianças para treinar judô com ele, o que segundo o responsável significa um avanço gigantesco na socialização da criança.
Para André Zanotto, que faz questão de acompanhar as sessões de sua filha com Síndrome de Down de 7 anos, o exercício diário é um reforço vital para o convívio escolar e social. "A gente percebe que ela pode participar das brincadeiras com as outras crianças sem muitas limitações. O maior termômetro é perceber que ela chega feliz e sai feliz", conta o pai, destacando que a evolução acontece muitas vezes durante a própria sessão.
Além da saúde física, a saúde mental e a rotina da casa se transformam. A tranquilidade pós-treino ajuda na regulação de energia, no foco durante as aulas regulares e até na disposição diária. Em um dos casos relatados por Fernanda, uma mãe que enfrentava crises da filha todas as segundas-feiras de manhã antes da escola encontrou na academia a solução: a criança agora acorda ansiosa e feliz para ir treinar e, de lá, segue regulada para o colégio.
Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR
Sob orientação de Rogerio Galindo
Serviço
Espaço Rodrigo Brivio & GêDois
Endereço: Rua Jacarezinho, 485, Mercês, Curitiba-PR
Contato: (41) 99630-8202
Volpe TEAm
Endereço: R. Edmundo Saporski, 272 - Mercês, Curitiba - PR
Contato: (41) 98842-0592