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Eleição de Flávio Bolsonaro traria risco real de "teocracia" evangélica

Com sinalizações sutis e outras mais abertas, Flávio Bolsonaro ganha dois em cada três votos de evangélicos. E, caso eleito, precisará compensar isso com políticas conservadoras

Eleição de Flávio Bolsonaro traria risco real de "teocracia" evangélica
Flávio Bolsonaro é batizado no Rio Jordão. Foto: Arquivo/Redes sociais

Durou apenas um segundo, mas foi um sinal importante. Na entrevista para a Globo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) disse, como se aquilo tivesse lhe escapado sem maiores pensamentos, que será eleito presidente "em nome de Jesus". Foi a única menção feita pelo presidenciável à sua religião em cerca de 45 minutos de interação com a jornalista Renata Lo Prete.

Se passou praticamente despercebida pela imprensa (que não deu destaque ao fato) e por boa parte dos eleitores, a frase certamente chamou a atenção de uma parte importante da sociedade brasileira. Sim, estamos falando dos evangélicos, uma massa heterogênea mas que hoje corresponde a 47 milhões de brasileiros. Mais de um quarto do eleitorado que irá decidir o próximo presidente da República no próximo domingo (25).

A relação entre o conservadorismo dos Bolsonaro e as igrejas evangélicas é conhecida e vem sido bastante estudada. Foi o tema central do documentário "Apocalipse nos Trópicos", da cineasta Petra Costa, e de uma boa dezena de livros nos últimos anos no país. E a dobradinha entre os dos lados está a pleno vapor nas eleições de 2026.

No debate da Band, no último domingo (18), Flávio fez mais um pronunciamento que, sem falar em nenhum momento em religião, serviu de aceno para os evangélicos. Disse que vai criar o "Ministério da Prosperidade", para que os brasileiros possam acumular dinheiro e sair da má situação financeira em que estariam, segundo ele, graças ao governo Lula.

Prosperidade, uma palavra usada durante boa parte do debate pelo candidato do PL, é uma expressão que está no centro do sucesso do neopentecostalismo. Igrejas criadas no Brasil desde os anos 1970 vêm atraindo milhões de novos fiéis com base na Teologia da Prosperidade - uma teoria religiosa segundo a qual o enriquecimento é não apenas permitido como passa a ser visto como um sinal da bênção divina.

Mas a sinalização mais clara de que seu governo, caso venha a acontecer, será "teocrático", aconteceu logo depois do primeiro turno. Vitorioso, com uma margem apertada sobre Lula, o candidato disse que, se eleito, decretará que o Brasil pertence "ao Senhor Jesus Cristo".

Pesquisas de intenção de voto têm mostrado o resultado dessa aposta no evangelismo. A cada três eleitores de fé protestante, dois dizem votar em Flávio Bolsonaro neste ano. Isso, por si só, pode representar uma vantagem de dez milhões de votos para o candidato da extrema-direita em relação a Lula, que fica com apenas um terço desse eleitorado.

Flávio é evangélico de fato, ao contrário de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que chegou a ser batizado numa igreja protestante mas continua se considerando católico. E sua proximidade com os pastores lhe rende apoios importantes. Nesta semana, parte importante das Assembleias de Deus endossou abertamente a candidatura da direita.

Mais do que apoiar Flávio, porém, o que o apoio dos evangélicos tem feito é demonizar a esquerda. São comuns comentários, por exemplo, de que Lula e o PT "não são de Jesus", em função de sua crença num Estado laico e pelo apoio a uma visão de mundo mais progressista: adesão ao feminismo e à emancipação feminina, apoio aos direitos das comunidades LGBTI+ e, principalmente, uma simpatia pelo direito ao aborto - o grande cavalo de batalha da direita conservadora.

Jair Bolsonaro tomou, ao longo de seu governo, várias medidas no sentido de valorizar o conservadorismo religioso. Sua ministra Damares Alves (PL), em tese responsável pelos direitos das mulheres, preferia reforçar estereótipos como "meninas vestem rosa". Na educação, houve um combate à suposta doutrinação por parte de professores esquerdistas, sem falar na perseguição a universidades, vistas como antros de progressismo e drogas; o Supremo Tribunal Federal passou a ser visto como um possível instrumento para impedir a aprovação de leis progressistas, e Bolsonaro nomeou um ministro "terrivelmente evangélico", André Mendonça.

Flávio, que de fato é ligado à Igreja Batista e também já foi batizado na Comunidade das Nações, tem tudo para ir mais longe. Até porque terá maioria conservadora na Câmara e no Senado, depois da eleição de radicais da direita como Michele Bolsonaro (batista), Deltan Dallagnol (barista), Filipe Barros (presbiteriano), Bia Kicis (católica), Gustavo Gayer (Igreja Videira) e Marcel Van Hattem (luterano) - além da própria Damares (Quadrangular), já senadora desde 2022 e do deputado Nikolas Ferreira (Lagoinha).

Mas o principal risco do avanço de uma "teocracia" estará mesmo no STF. Se conseguirem cassar um ou dois dos ministros atuais, como preveem os aliados de Flávio à direita, o novo presidente, caso eleito, poderá indicar até cinco nomes para o Supremo num mandato de quatro anos. Somados a André Mendonça e a Kassio Nunes Marques, formariam uma maioria ampla, capaz de mudar entendimentos importantes que trouxeram avanços civilizatórios para o Brasil nos últimos anos.

Exemplos de decisões judiciais que foram adotadas pelo STF mas que nunca tiveram o respaldo de novas leis aprovadas no Congresso são o casamento homoafetivo, a criminalização da homofobia e a alteração do nome das pessoas trans. Tudo isso poderia ser revisto com simples julgamentos no Supremo, sem necessidade de que o Parlamento interviesse.

Os riscos de uma eleição de Flávio Bolsonaro são visíveis em várias áreas, da saúde à educação, da economia às relações internacionais. Mas é preciso não esquecer os riscos para a democracia, para o Estado laico e para os direitos do cidadão brasileiro.

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Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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