Era outubro de 2016 quando, aos 16 anos de idade, a menina Ana Júlia Ribeiro virou notícia pela primeira vez. Da tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná, falou como representante dos alunos que ocupavam escolas de Ensino Médio no Paraná, num protesto contra a reforma da educação proposta pelo então presidente Michel Temer. A fala, forte e bem construída, virou notícia.
Exatos dez anos depois, Ana Júlia se despede da Assembleia Legislativa, onde ocupou por quatro anos o cargo de deputada estadual. Agora, vai para Brasília, eleita deputada federal como a mulher mais bem votada do estado neste ano, com 184 mil votos. Lá, diz que continuará o mesmo trabalho que, quase por acaso, começou a fazer naquela tarde de 2016.
"Eu sempre estive muito perto das pautas da educação", diz a deputada recém-eleita, em entrevista ao Plural. "E claro que naquele dia eu nem estava pensando nisso, só queria fazer a minha parte naquele processo. Mas vendo em retrospectiva vejo que foi o começo de uma caminhada e que não deixa de ser um incentivo para que outros jovens também comecem a se interessar pela política."
A declaração tem muito a ver com o discurso que o candidato de Ana Júlia nas eleições presidenciais, o atual presidente Lula, tem feito para os mais novos: se a situação política do país te incomoda, ao invés de só criticar os políticos, entre na disputa, concorra a mandatos. Embora seja ainda jovem, Ana Júlia entra agora no seu terceiro mandato - antes de ser deputada chegou a assumir uma vaga na Câmara de Curitiba como vereadora.
No Congresso, a deputada diz que uma de suas tarefas será o confronto com a direita radicalizada, que vem crescendo na Câmara e no Senado. "Eu pretendo buscar trabalhar, claro, no enfrentamento à extrema-direita, no enfrentamento ao ódio, à raiva, à intolerância, enfrentamento àqueles que querem diminuir e sucatear os direitos dos trabalhadores, mas também quero trabalhar de forma como fiz na assembleia, de forma propositiva", diz.
Conhecida na Assembleia por sempre jogar "com o regimento debaixo do braço", para impedir que o governo atropele as regras e passe projetos de maneira açodada, Ana Júlia diz que que já começou a estudar o regimento da Câmara.
"A política é sempre, na minha visão se sobressai à burocracia, mas quando se chega no limite da política, a burocracia é o pacto que se tem para manter as coisas dentro do regramento, então eu sigo esse pacto e cobro que os outros sigam também", diz ela.
Curiosamente, Ana Júlia terá a missão de substituir na Câmara sua principal cabo eleitoral, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), que ao invés de disputar a reeleição tentou uma vaga no Senado. Gleisi é uma das principais apoiadoras de Ana e, até a eleição passada, era a grande puxadora de votos do partido no Paraná, função que coube agora à sua pupila.
"Tenho uma relação de profundo respeito e profunda admiração pela Gleisi. Construir o que ela construiu, ter sido nossa senadora, a primeira mulher a ser senadora no Paraná, ter sido ministra duas vezes. A habilidade política que ela construiu, ter comandado o nosso partido, são de fato coisas, assim, extraordinárias", diz.
Por enquanto, porém, Ana Júlia diz que se dedicará antes de mais nada à campanha de Lula no segundo turno. A deputada diz que não desmobilizará sua equipe e que é preciso acreditar na vitória do atual presidente contra Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno na liderança dos votos.
"Há algumas avaliações no sentido de que tudo que o Flávio conseguiria desidratar e sugar de outros candidatos, ele já fez. E teve um número muito grande de abstenções, de voto branco... Há uma batalha agora para incentivar as pessoas, para dialogar com esse com esse eleitorado também e acredito que nos estados a mobilização precisa continuar. Nós vamos buscar fazer isso aqui no Paraná também."