As eleições de domingo (4) representaram o fim de uma geração de políticos no Paraná. Último representante do grupo que dominou a cena local desde os anos 1980, Roberto Requião tentou uma vaga na Câmara dos Deputados. Fez uma boa votação, mas seu atual partido, o PDT, não conseguiu legenda e o ex-governador, de 85 anos, sofreu sua quarta derrota eleitoral consecutiva. Dificilmente voltará a se candidatar.
O mesmo processo eleitoral começou com a aposentadoria de Alvaro Dias - outro ex-governador ligado historicamente ao MDB. Durante meses, Alvaro, que está sem mandato desde 2023, disse que tentaria voltar ao Senado, onde já teve quatro mandatos. No fim das contas, acabou desistindo da eleição e anunciou que está saindo de vez da vida política - resumiu-se a gravar propaganda política para terceiros.

Requião e Alvaro são parte importante da história recente da política paranaense. Na redemocratização do país, estiveram unidos e foram, ao lado de José Richa, os três mais bem-sucedidos nomes de uma geração que ajudou a enterrar os velhos caciques ligados à ditadura militar, como Ney Braga, Saul Raiz e Paulo Pimentel. É a geração que liderou o pedido por eleições diretas para presidente e que comandou a transição para a democracia ao longo dos anos 1980 no estado.
As eleições de 1982
A eleição que mudou a política paranaense definitivamente, marcando a transição da ditadura para a nova democracia, aconteceu em 1982. Antes disso, o MDB, único partido de oposição tolerado pelo regime dos generais, já vinha conquistando vitórias eleitorais importantes no estado. O principal marco desse processo foi a eleição do desconhecido Leite Chaves para o Senado em 1974.
Em 1978, a vitória da oposição era tão previsível que o governo Geisel aprovou um pacote de mudanças eleitorais, incluindo a criação dos senadores biônicos. Das duas vagas que seriam disputadas em cada estado, apenas uma caberia aos eleitores; a outra ficaria disponível para o arbítrio dos ditadores.
Foi nesse ano que José Richa conseguiu se eleger senador; ao mesmo tempo, o jovem Alvaro Dias se tornou o deputado federal mais votado do Paraná. Quatro anos depois, ambos estariam na chapa majoritária do MDB e conseguiriam vitórias que, pouco antes, pareciam quase inevitáveis.

Richa derrotou nas urnas Ney Braga, que havia sido duas vezes governador e que foi ministro da Educação na ditadura. Tornou-se assim o primeiro governador eleito do Paraná desde 1966. Alvaro Dias se elegeu para o Senado; e a vaga de "biônico" ficou com Affonso Camargo.
Diretas, Alvaro e Requião
Em 1986, quando encerrava seu mandato de governador, José Richa voltou ao Senado, e conseguiu emplacar seu sucessor. Alvaro Dias ganhou de lavada, depois de ter participado com destaque na campanha (frustrada) das Diretas Já. O país já estava numa democracia, mas ainda não tinha voltado a votar para presidente. O prefeito de Curitiba ainda era escolhido pelo governador - e quem Richa nomeou foi Maurício Fruet.
O primeiro grande comício da campanha pelas Diretas Já, que pedia a aprovação de uma emenda à Constituição da época apresentada por Dante de Oliveira, aconteceu em Curitiba em 1984, e teve a participação de José Richa, como governador, e de Alvaro Dias como senador. Requião, a essa altura, era deputado estadual.
Alvaro se tornou um dos governadores mais populares do estado e chegou a cogitar uma disputa presidencial. No estado, fez de Roberto Requião seu sucessor, numa campanha polêmica que incluiu a criação de um matador fictício, que supostamente agia a mando da família do candidato da direita, José Carlos Martinez.

O "triunvirato" do PMDB (o partido mudou de nome com a chegada da demcocracia) se dividiu com a criação do PSDB. Richa e Requião foram concorrentes em 1990, e jamais voltariam a estar do mesmo lado. Em 1994, Requião apoiaria Alvaro, e os dois ainda estariam lado a lado mais uma vez em 1998, quando o candidato ao governo foi Alvaro.
Em 2002, a parceria ruiu, e os dois disputaram um contra o outro o Governo do Paraná. Requião ganhou no segundo turno e, em 2006, conseguiria mais uma vitória, dessa vez contra o irmão de Alvaro, o então senador Osmar Dias. Depois de 2010, porém, os antigos emedebistas jamais conseguiram voltar ao poder no estado. E embora o governador seguinte tenha sido Beto Richa, filho de José Richa, o cenário já era outro, e o novo governador tinha mudado de partido e aderido a uma postura bem mais à direita.
Fim de geração
José Richa foi o primeiro dos três ex-governadores a sair de cena. Após seu último mandato de senador, trabalhou na iniciativa privada e chegou a ser cotado para a Casa Civil de Fernando Henrique Cardoso, mas não voltou a exercer cargos na política. Morreu em 2003 aos 69 anos.
Seu nomeado para a Prefeitura de Curitiba, Maurício Fruet, havia falecido em 1998. Após seu mandato como prefeito, Maurício foi deputado federal e voltou a concorrer à Prefeitura por duas vezes, mas foi derrotado por Jaime Lerner e por Rafael Greca. Seu filho Gustavo seria prefeito da capital entre 2013 e 2016.

Osmar Dias teve um fim de carreira abrupto em 2018: considerado um candidato forte ao Governo do Paraná, desistiu da campanha contra Ratinho Jr. sem que ninguém jamais entendesse seus motivos para isso. Teve dois mandatos de senador e disputou duas eleições para o governo.
Alvaro sempre quis voltar a ser governador, mas perdeu duas elei;ções, uma contra Lerner e outra contra Requião. Acabou acumulando quatro mandatos para o Senado, antes de ser derrotado por Sergio Moro em 2022.

Lerner, opositor principal do grupo, morreu em 2021 em função de problemas renais crônicos.
Requião, único político com três mandatos de governador, foi também duas vezes senador. Tentou sua última eleição para o governo em 2022. Depois, disputou a Prefeitura de Curitiba com resultados que não passaram nem perto de seu passado de gigante eleitoral. Para deputado federal, fez 78 mil votos.
Beto Richa, filho de José Richa, ainda não está oficialmente aposentado, mas perdeu a eleição para deputado federal em 2022 e ficará sem mandato a partir de 2027.

