Um documento redigido por jornalistas da RPC TV, afiliada da Rede Globo no Paraná, denuncia atos de assédio eleitoral dentro da redação. Funcionários do grupo estariam sendo convocados em pequenos grupos para reuniões com a chefia e recebendo a informação de que a manutenção dos empregos para o próximo ano depende do resultado das eleições presidenciais deste ano.
Desde fevereiro deste ano, as tevês e rádios do grupo são comandadas majoritariamente pela família Lemanski, que comprou parte significativa das ações do outro clã com quem dividia a sociedade, os Cunha Pereira. Ambas as famílias têm perfil conservador e mostram preferência inequívoca pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) no atual segundo turno das eleições.

Segundo o documento redigido pelos funcionários, ao qual o Plural teve acesso, as reuniões com as chefias são "marcadas por ameaças de perdas salariais e declarações de cunho político".
"Nessas reuniões, gestores afirmam que, com o fim da escala 6x1, os profissionais de redação poderão perder 30% dos salários, enquanto repórteres de rua e cinegrafistas teriam perdas de até 60%. E mais: disseram que tudo dependerá também do resultado das eleições, porque o cenário pode mudar", afirma o documento, que teria sido entregue ao Ministério Público do Trabalho.
Os responsáveis pelo grupo também teriam anunciado, segundo o Plural apurou, que não haverá mais participação nos lucros e "orientaram os funcionários a não contar com esse dinheiro".
"Caso clássico", diz advogado
Questionado pela reportagem, o advogado Nasser Ahmad Allan diz que não teve acesso aos fatos, mas que o relato parece se referir a um "caso clássico" de assédio eleitoral.
"Os fatos como relatados, ressalvando que não conversei com quem os relatou, podem caracterizar quadro de assédio eleitoral. Explico: pelo conteúdo da denúncia, há pressão por parte da direção da empresa ou seus prepostos para induzirem os votos de seus empregados em um candidato, mediante ameaça futura de perda na remuneração ou mesmo do emprego", afirma.
"Os fatos indicam, como retratados na denúncia, tratar-se de um caso típico de assédio eleitoral. Lembro sempre que o sindicato da categoria pode contribuir para conter esse tipo de situação, assim como o Ministério Público do Trabalho possui canais para denúncia que pode ser feita de modo anônimo."
Sindicato
O Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná afirmou ao Plural, por meio de nota, que ainda não foi procurado oficialmente pelos funcionários da RPC, mas que já teve ciência dos fatos de maneira informal.
"Nós não recebemos nenhuma denúncia formal por parte dos trabalhadores e trabalhadoras até o momento. Mas já contatamos o Ministério Público do Trabalho. As denúncias devem ser feitas ao Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná ou ao próprio MPT", afirma o texto.
Outro lado
O Plural procurou a RPC para ouvir a versão da empresa, mas até o momento da publicação deste texto, não houve resposta. Caso haja manifestação da empresa, ela será publicada aqui.
