"Nós assinamos um documento autorizando o uso da nossa imagem, mas agora acho que todo mundo está repensando isso", diz com um sorriso de orelha a orelha um educador do Colégio Medianeira. Ele acaba de sair de uma oficina corporal em que todos os participantes foram instados a trabalhar seus movimentos de formas inusitadas. Por exemplo, dançando em duplas conforme as instruções que um terceiro colega dava, sem palavras, apenas mexendo bolinhas que carregavam diante deles.
De fato, a cena podia ser engraçada: cerca de vinte adultos dançando ao som de uma música suave, de balé, mas na maioria dos casos sem a graça que se espera dos bailarinos. Ninguém, porém, achou ruim, pelo contrário. O plano para sumir com as autorizações de uso de imagem era só uma brincadeira, mais uma prova de que todos estavam à vontade. Até porque, e daí que ninguém ali era dançarino profissional? O importante não era o resultado, mas o espírito da busca pelo conhecimento do próprio corpo.
A atividade fez parte do Simpósio de Práticas Inovadoras, realizado neste fim de semana no Colégio Medianeira, em Curitiba. Nesta edição - a quarta do evento - professores do colégio e de várias outras escolas da Rede Jesuíta de Educação, além de convidados que lecionam em colégios conveniados, reuniram-se para pensar a educação infantil. Durante dois dias, os educadores se propuseram a discutir o assunto com base na proposta básica, que ganhou o nome “Traços, vozes e experiências: a Educação Infantil em foco”.
Movidos pelo espírito de compreender o que já vêm vivenciando em sala de aula e de aprender com a experiência de seus pares, os profissionais mergulharam em técnicas, teorias e discussões sobre os métodos mais inovadores e efetivos de ensino para as crianças.
Desenhando o mundo
A palestra de abertura foi com a artista e educadora Stela Barbieri, referência na educação infantil. O tema era a relação da criança com o desenho, algo que pode parecer singelo mas que forneceu material para muita discussão importante, e também para histórias curiosas. Como por exemplo o caso de dois meninos que tinham relações bem diferentes com o ato de desenhar. Um era apaixonado por desenho, e o outro sempre se refreava, demonstrando pouco interesse ou receio em pegar os lápis e começar a riscar o papel.

"Até que um dia ele, do nada, pegou um papel e começou a desenhar ao mesmo tempo com as duas mãos, contou Stela. Num frenesi, o garoto fez daquela sua experiência inicial um transbordamento de tudo que parecia represado dentro dele. E a partir daí, não parou mais de desenhar. "Stela, o que aconteceu? Ele agora desenha em tudo que é papel, no guardanapo da lanchonete, onde tiver um espacinho em branco", perguntou intrigada a mãe.
Stela diz que às vezes a relação da criança com o desenho de fato muda. Pode mudar, por exemplo, quando ela percebe que o objetivo não é "desenhar bem" - ou seja, que não se trata de uma atividade que deve ser julgada pelo seu resultado, mas que deve ser, isso sim, prazerosa. Não se trata de um concurso. E, assim como aconteceu no caso dos professores que não eram bailarinos, o que valia era a experiência, o aprendizado. Uma nova vivência, que no caso das crianças é sempre formadora.
Segundo Stela, uma das coisas importantes que os adultos, e principalmente os profissionais da educação, precisam perceber é que a criança quando está na atividade de desenhar se entrega por inteiro para aquilo. Assim como se entrega toda a uma brincadeira. O desenho, na infância, não é mera atividade voltada para se produzir um resultado; é algo que vale por si mesmo, e que assim deve ser compreendido.
A professora defendeu ainda o modelo de educação voltado para a construção do caráter e do indivíduo, para a emancipação e a cidadania, que hoje parecem, segundo ela, estar sob ataque tanto no Brasil quanto em várias partes do mundo. E convidou os educadores a manterem sua convicção de que esse é o caminho que a educação infantil precisa seguir - algo que chegou a levar uma das educadoras, que pediu para comentar a palestra no momento das falas da plateia, às lágrimas.
Prêmio e oficinas
O segundo dia do Simpósio começou com a entrega de uma premiação. Professores do Medianeira haviam sido convidados a apresentar projetos voltados à inovação, e não faltou quem tivesse ideias. No total, 23 educadores sugeriram um total de 12 propostas de como melhorar o ensino para a criançada.
O projeto vencedor foi o Ateliê Corpo Vivo: investigação, robótica e modelagem científica, das professoras Natalia Martins Guerra e Suellen Oriana Kricky. Elas propuseram transformar a experiência corporal em um percurso investigativo contínuo mediado pela robótica pedagógica, utilizando a programação como linguagem de modelagem científica. Na prática, os estudantes tornarão visíveis os processos fisiológicos ao construírem protótipos, fazerem testes e revisarem seus projetos. Cada uma levou um iPad para casa. Mas o principal é que o colégio ofereceu R$ 10 mil em orçamento para que a proposta saia do papel e seja colocada em prática na escola, além de um tempo remunerado ao longo do ano para que elas planejem e executem o projeto. De acordo com o diretor acadêmico, Carlos Torra, houve tantas boas ideias que outras também serão colocadas em prática.

Em seguida, todos partiram para as oficinas. E o que não faltou foram opções para que os educadores escolhessem: havia ateliês para estudar formas de usar o papel em sala de aula; para aprender trabalhos manuais; oficinas que tinham como base sementes e suas possibilidades; conversas sobre matemática, culinária, espiritualidade e muito mais.
Numa das salas, professores que haviam ouvido uma história sobre uma menina (e a chuva) na primeira parte do ateliê, foram instigados a criar uma narrativa que envolvesse palavras e corporalidade relacionada ao que haviam escutado. Um dos grupos partiu para uma experiência sensorial, pedindo que todos fechassem os olhos e percebessem a chuva por meio do vento que os colegas produziam com os materiais disponíveis no local.
Outro grupo colocou uma de suas integrantes sentada no chão, vendada. Enquanto um dos componentes fazia sons com um instrumento de percussão (conhecido justamente como pau de chuva), a professora foi suavemente abraçada por uma colega. "É que a chuva é um abraço", explicou um dos professores que haviam elaborado a narrativa,
No ateliê sobre trabalhos manuais, professores e professoras aprenderam técnicas seculares vindas de diversas tradições. A atelierista, professora Anna Grisolia, explicou o uso de teares de variados tipos, de um instrumento que simula o tricô (o rabo de gato) e de outros modos de construção de materiais a partir de fios. "São modos antigos, ancestrais, de produção. Mas que por nos manterem longe das telas são também inovadores", disse ela, ressaltando o paradoxo.
Na oficina sobre usos do papel, a educadora Silvia Pandini ressaltou algo semelhante. Fazendo referência à "cultura do liso", teorizada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, ela falou sobre a importância de termos contato com texturas, e não apenas com "a suavidade do touch". O papel, em suas variadas formas, pode ser uma maneira de as crianças escaparem da tela rumo ao mundo real, defendeu ela.
Santo Inácio e Reggio Emilia
Todas as oficinas e a discussão encampada pelo simpósio dialogam com as principais tradições que formam a base da educação jesuíta, presente hoje no Brasil em 18 escolas espalhadas por nove estados. Além de sua relação com o Paradigma Pedagógico Inaciano, o evento fez questão de incluir a pedagogia de Reggio Emilia, na Itália, como uma de suas principais referências. Mas tudo isso sem esquecer a vivência prática dos professores em sala de aula e, claro, as circunstâncias específicas da experiência brasileira.