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De pobreza menstrual à arquitetura hostil: jovens discutem desafios da sociedade no TEDx do Medianeira

Pelo quarto ano consecutivo, alunos do Colégio Medianeira apresentam palestras no formato TED sobre problemas sociais relevantes

De pobreza menstrual à arquitetura hostil: jovens discutem desafios da sociedade no TEDx do Medianeira
Speakers e professores do TEDx Youth Medianeira 2026. Foto: Ellen Thays/Divulgação

Diante da plateia, das câmeras e dos holofotes, as meninas Bianca e Mélany sobem ao palco e iniciam sua apresentação. O assunto é difícil e algo polêmico: as duas vão tratar do apagamento da mulher em uma das maiores indústrias do mundo, o cinema. Mas em pouco tempo é possível ver que elas estão preparadas para falar do tema com propriedade. Citam estatísticas do Oscar, do Festival de Cannes e comprovam que há de fato um problema de que vale a pena falar.

Alunas do Ensino Médio do Colégio Medianeira, as duas passaram meses se preparando para esse momento. Selecionadas para compor a turma do TEDx, aprenderam ao longo de sessões semanais com professores todo o repertório necessário para uma boa apresentação - a começar, claro, por um conteúdo aprofundado. Por isso elas sabem quais diretoras venceram os prêmios mais importantes e conseguem discorrer sobre a relevância de se ter uma maior diversidade de gênero (e de pontos de vista) no cinema.

O TEDx Youth é uma versão acadêmica, para jovens estudantes, do TED, um formato de palestras que revolucionou a comunicação de conhecimento nos últimos anos. Com uma estrutura pré-determinada, tempo limitado e regras para uso de mídias auxiliares, o formato ajuda a transmitir ideias rapidamente sem que se abra mão da profundidade e da relevância. Grandes mentes de todo o mundo participam do projeto, que permite sua disseminação e o uso da marca desde que as regras mínimas sejam seguidas.

No Medianeira, este é o quarto ano consecutivo em que alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio têm a oportunidade de criar suas próprias palestras e apresentá-las ao público, com direito a trasmissão via internet.

As aulas que preparam a moçada para o TEDx Youth incluem dicas de como construir um bom texto, com técnicas narrativas para prender a plateia. Modos de se comportar no palco, sem perder a concentração e o foco. E a importância de se discutir um tema que vá ajudar as pessoas a refletir sobre problemas relevantes da sociedade. Dificilmente alguém irá discordar que a maior equidade entre pessoas de diferentes situações sociais, como sexo, classe e etnia, se enquadre nessa categoria.

Sob o tema geral “Novas perspectivas e mentes críticas”, os alunos foram incitados a pensar sobre o mundo em que vivem. Desde “a casa comum”, o planeta em que todos vivemos, até questões que afligem os nossos semelhantes. Mais do que um projeto de pesquisa, trata-se de um processo de geração de empatia entre adolescentes que logo estarão em postos de decisão no nosso mundo.

Nessa quinta-feira (15), quando dez garotos e garotas fizeram suas apresentações no TEDx do Medianeira, diante de professores, familiares e da plateia virtual do YouTube, foi possível perceber que essas discrepâncias de oportunidades - e especificamente as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em nossa sociedade - estão entre os assuntos que mais incomodam a geração que hoje faz parte do Ensino Médio. 

Os desafios das mulheres

Responsável pela segunda palestra da tarde, Maria Vitória, por exemplo, seguiu na mesma linha, tratando de outra questão básica que, mesmo no século 21, ainda não fomos capazes de resolver. Ela tratou da pobreza menstrual. “Não se trata só da ausência de absorventes”, ensinou ela. “Há toda uma série de questões de higiene e de educação envolvidas.” 

Com sua pesquisa, Maria Vitória foi capaz de apontar situações limite, como meninas pobres que precisam apelar para chumaços de algodão ou papel quando menstruam, e presidiárias que não recebem número adequado de absorventes para as necessidades de um mês. “Quinze por cento das meninas dizem que já faltaram algum dia à escola por não terem absorvente”, explicou com os dados coletados em sua pesquisa.

Duas outras talks da tarde trataram de dificuldades enfrentadas pelas mulheres. A estudante Luísa falou de uma barreira que afeta o desenvolvimento da própria ciência. Ao serem pouco estimuladas para se tornarem pesquisadoras, as mulheres acabam evitando o ambiente científico - o que priva laboratórios, universidades e empresas de cérebros mais do que necessários.

Isabelli: o teatro como cura. Foto: Ellen Thays/Divulgação

“A mídia mostra as mulheres em duas situações: ou como inteligências inatingíveis ou como pessoas em situação de apagamento”, afirmou. Para ilustrar o primeiro caso, ela cita a polonesa Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel. Exemplo de apagamento seria Rosalind Franklin, pioneira nos estudos do DNA excluída de boa parte dos textos que explicam a descoberta da dupla hélice (e esquecida pelo próprio Nobel).

Falando com os próprios professores, ela diz ter chegado à conclusão de que os homens, ao dar aula sobre suas disciplinas, veem-se eles mesmos incomodados por não saber mais sobre a história de mulheres em suas respectivas áreas de conhecimento.

Responsável pela última palestra da tarde, a aluna Ana Paula enfrentou um tema ainda mais amplo. Sua pergunta foi: quem tem como decidir o que uma mulher é e o que ela pode ou não fazer. A autonomia para decidir o seu plano de vida e segui-lo é um dos temas mais profundos da filosofia dos últimos cem anos, e foi parte fundamental da luta das mulheres por seus direitos. 

Depois de começar com uma citação à distopia descrita pelo livro “O Conto da Aia”, da canadense Margaret Atwood, que serviu de base para uma célebre série de tevê, Ana falou que, embora a situação das mulheres na trama seja radicalizada, lembra o que acontece de fato com elas tanto no Ocidente quanto em outras partes do planeta. Se no livro há mulheres sendo forçadas a procriar e punidas com perda de partes do corpo quando se rebelam, no mundo real há uma opressão que, de fato, leva a abusos corporais graves.

“A mulher é tida como alguém que existe apenas do ponto de vista sexual”, diz ela, mencionando tendências radicais da sociedade contemporânea. Exemplos, diz ela, são as trad wives (mulheres ultra tradicionalistas que veem como obrigação feminina a subserviência ao homem) e o movimento red pill (formado por homens que querem libertar o mundo de uma suposta “opressão feminina”).

O interesse da turma de 2026 por assuntos ligados às questões de gênero levou inclusive a uma reformulação da equipe do projeto, conta o professor Leonardo Girardi, responsável de início pela orientação dos trabalhos. “Nós percebemos já na audição dos alunos que havia muito interesse em tratar da situação da mulher, e não fazia sentido só nós, homens, orientarmos esses projetos. Por isso chamamos a Mari Vargas, que tem muito repertório e pôde contribuir demais com as pesquisas”, diz ele.

Olhar crítico

O olhar crítico sobre essas questões, que já deve ter ficado claro pelo relato, e sobre os demais assuntos tratados no TEDx é, segundo Leonardo Girardi, um dos grandes ganhos que o projeto traz para os alunos e as alunas. “A contribuição maior é a conquista de um olhar crítico, que não se conforma, que perscruta a realidade. Essa formação cidadã é o que fica de mais importante para eles.”

O professor ressalta também que outra conquista é o aprendizado relacionado à pesquisa. O estímulo para que os alunos possam, mais tarde, sentir o desejo de trabalharem com ciências sociais, biológicas, ou outras áreas do conhecimento em que a pesquisa seja decisiva. 

“A pesquisa no Brasil é pouco valorizada. Muita gente pergunta unicamente qual o lucro que isso pode trazer. Participar de um projeto como esse muda a forma de pensar sobre o assunto. O papel de intervenção no mundo, de ação sobre o mundo se sobressai”, afirma o professor.

Artes

Três das talks trataram de assuntos ligados às artes. Quem primeiro tocou no tema foi o aluno Miguel, que falou sobre música de um ponto de vista curioso. Estudante de violão, ele diz que sempre ficou na sua cabeça uma frase que ouve muitas vezes. “Vivem dizendo que não se faz mais música como antigamente”, disse ele. E ao estudar o tema, ele diz ter chegado a uma conclusão contrária. Eis a tese: “O que acontece é que nós estamos chamando duas coisas diferentes pelo mesmo nome.”

De um lado, diz Miguel, estaria a música com maior densidade artística; de outro, o que ele chamou de “música industrial”. Ou seja, aquelas canções que são feitas não para expressar algo, e sim para ganhar mercado e faturar, aproveitando os gostos, muitas vezes mais rasos, dos ouvintes. 

Dois exemplos opostos, segundo ele, estariam no modo como a banda The Killers escreveu seu maior hit, a faixa “Mr. Brightside”, e a história do sucesso “Jetski” no carnaval brasileiro. A canção dos Killers surgiu da necessidade de um músico de expressar sua dor com um fim de relacionamento. O sucesso de Pedro Sampaio, por outro lado, seria uma soma de elementos musicais facilmente disponíveis para simplesmente emplacar um sucesso de verão - e no qual ninguém expressa sentimento verdadeiro.

Miguel: música e indústria em discussão. Foto: Ellen Thays/Divulgação

Ainda na música, a aluna Alice apresentou uma fala sobre o movimento punk. Sua pergunta, intrigante, era: o punk se mercantilizou ou já era, desde o começo, uma derivação do sistema capitalista. Recuando na história, ela lembrou o caso de Vivienne Westwood e Malcolm McLaren, e sua relação com a icônica banda inglesa Sex Pistols.

Embora o punk fosse um movimento de rebeldia contra o establishment, os músicos foram escolhidos em boa parte por seu visual e pela capacidade de galvanizar a juventude, na expectativa de lucro. Apesar disso, segundo Alice, não é possível dizer que o punk foi ou é submisso ao capitalismo.

“O que aconteceu foi que essa juventude rebelde encontrou um modo de usar o capitalismo para disseminar suas opiniões e suas críticas”, disse ela. Por outro lado, o capitalismo também soube como fazer dinheiro com a rebeldia do movimento. E eis a beleza da pesquisa: descobrir que nenhuma das duas hipóteses opostas, que pareciam ser as únicas, sobreviveu. A verdade estava no meio.

Já Isabelli falou sobre teatro. Especificamente, sobre a capacidade das artes cênicas de servirem como uma espécie de “terapia” destinada a enfrentar nossos males individuais e coletivos. A talk começou com números que mostram o quanto a depressão e a ansiedade são endêmicas em nossa sociedade; em seguida, relatou as dificuldades de acesso às terapias clínicas e também os preconceitos que impedem muita gente de se beneficiar de psicologia, análise etc.

Foi no teatro de Augusto Boal, na segunda metade do século passado, que Isabelle encontrou um antídoto para essas dificuldades. As peças da contracultura montadas pelo dramaturgo faziam com que o espectador participasse da construção da cena. Era o “espectator” - uma mistura de espectador e ator. “Essa arte pode ser um modo coletivo de tratarmos de nossas mazelas individuais”, disse.

Otimismo e ação

A palestra da aluna Monique foi sobre outra situação relevante que hoje causa problemas em grandes cidades do mundo todo: a arquitetura hostil. Começando pela ação radical do padre Júlio Lancellotti, que usou uma marreta para destruir pedras colocadas debaixo de um viaduto em São Paulo, a estudante tratou de outros casos em que as cidades agem para impedir que pessoas em situação de rua ocupem o espaço urbano.

Chegando a Curitiba, ela mencionou a existência de um projeto de lei voltado para o assunto e que jamais foi votado pelos vereadores locais. “São mais de 236 mil pessoas em situação de rua no Brasil”, disse ela, dando uma noção do tamanho do problema. E Monique também falou sobre possíveis soluções - tudo passa, diz ela, pela mudança da arquitetura hostil para a “arquitetura do acolhimento".

A estudante também mostrou que o TEDx Youth é marcado pela busca de propostas. Ao se envolver com o assunto, Monique decidiu criar um site, o PermaneSER, que aceita denúncias de casos de arquitetura hostil nas cidades de todo o pais, e incitou a plateia a relatar situações desse tipo.

A talk que tratou de um assunto mais amplo, a ponto de ser quase transcendente, foi a do aluno Henrique. Ele lembrou a viagem da sonda Voyager, que partiu em 1977 da Terra e que fez uma última imagem do nosso planeta depois de já ter passado por Saturno. Apelidada de “Pálido Ponto Azul”, a imagem mostra nosso globo como algo minúsculo em meio à vastidão do cosmo.

A pergunta que Henrique se colocou foi: será que essa aparente miniaturização do planeta faz com que obrigatoriamente vejamos nossos problemas, nossas metas, nossas vidas como algo também “pequeno”. Será possível evitar uma espécie de depressão com nossa pequenez diante do universo e manter o otimismo?

Buscando referências em astrônomos de primeiro time como Neil de Grasse Tyson e Carl Sagan, Henrique apostou que sim - que é possível manter a crença na importância da vida humana e nos vermos como algo além de pontos diminutos. Para isso, diz ele, o caminho passa por uma reconex˜ao. Reconexão não só com o planeta, mas de uns com os outros.

“Somos oito bilhões de histórias, e temos uma obrigação de sermos gentis uns com os outros”, disse. E, para terminar, citou um trecho do Diário de Anne Frank, a adolescente holandesa que relatou o drama de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de tudo, Henrique lembrou, Anne ainda acreditava na benevolência humana “Tornemos o nosso pequeno planeta o mais belo ponto azul do universo”, disse.

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