No Paraná, 36% das pessoas desaparecidas em 2025 eram crianças e adolescentes. Ao longo do ano, o estado registrou 6.455 ocorrências, uma média de 18 desaparecimentos por dia, com aumento de 8,1% em relação a 2024. Janeiro foi o mês mais crítico, com 617 registros. Do total, 2.552 pessoas desaparecidas eram do sexo feminino, e a taxa estadual chegou a 54,29 casos por 100 mil habitantes.
Os dados estaduais dialogam com um cenário nacional igualmente preocupante. Em todo o país, três em cada dez registros de desaparecimento em 2025 envolveram pessoas com menos de 18 anos. Segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), foram 23.919 ocorrências de crianças e adolescentes entre 84.760 casos registrados no ano — 28% do total.
Isso significa que, em média, as delegacias brasileiras registraram 66 boletins de ocorrência por dia envolvendo o desaparecimento de crianças e adolescentes. O número representa alta de 8% em relação a 2024, crescimento proporcionalmente duas vezes maior que o observado no total geral de desaparecimentos no país (4%).
Apesar de o volume nacional ainda estar abaixo do patamar de 2019 — ano de entrada em vigor da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas —, a tendência voltou a subir a partir de 2023. Naquele ano, haviam sido registradas 20.445 ocorrências, número que segue em elevação gradual.
Outro recorte relevante é o de gênero. Embora os homens representem 64% do total de pessoas desaparecidas, entre crianças e adolescentes a maioria das ocorrências envolve meninas (62%), apontando um padrão distinto no público infantojuvenil.
O que é considerado desaparecimento
Desde 2019, a legislação brasileira define como desaparecida qualquer pessoa cujo paradeiro seja desconhecido, independentemente da causa, até que sua localização e identificação sejam confirmadas por meios físicos ou científicos.
Especialistas apontam, no entanto, que o fenômeno é heterogêneo. Há casos de desaparecimento voluntário, involuntário (sem uso de violência) e forçado. Para a pesquisadora Simone Rodrigues, coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes), da Universidade de Brasília, ainda existe uma quarta categoria menos discutida.
Ela chama de “desaparecimento estratégico” as situações em que a pessoa some como forma de proteção ou sobrevivência, como mulheres que fogem de relacionamentos abusivos ou crianças vítimas de maus-tratos. “As causas do problema são complexas e diversas”, afirma.
Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam ainda que a maioria dos desaparecimentos ocorre entre sexta-feira e domingo, período associado a maior circulação de pessoas e menor supervisão familiar.
Um caso em Curitiba
Em Curitiba, o desaparecimento do menino I.S.B., de 10 anos, no fim de dezembro do ano passado, ilustra como muitos casos terminam sem violência, mas deixam marcas profundas. O garoto saiu da casa do pai para brincar e acabou passando três dias longe, com receio de voltar e ser repreendido. Foi encontrado por um idoso que viu o alerta nas redes sociais e acionou a polícia.
O pai, o pintor Leandro Barboza, relata que passou noites procurando o filho, batendo de porta em porta e registrando ocorrência. “É uma angústia que eu não desejo para nenhum pai ou mãe. A gente sempre imagina o pior”, contou.
Mesmo após o reencontro, o medo permanece. Leandro defende que famílias que passam por esse tipo de situação deveriam receber apoio psicológico, tanto para lidar com o trauma quanto para orientar crianças e responsáveis. “Além da dor, ainda vem o julgamento. Tem muita gente pronta para culpar, pouca para ajudar”, resume.
No Paraná, onde mais de um terço dos desaparecidos são crianças e adolescentes, os números mostram que o problema vai além de casos isolados — e exige respostas estruturais de prevenção, acolhimento e busca ativa.
Com informações da Agência Brasil