Um data center de 100 megawatts que a DataSpots, empresa de Curitiba, anuncia para Campo Largo, na Região Metropolitana, equivaleria, sozinho, a até 35% da capacidade dos transformadores que levam energia da subestação de Bateias para a rede de 138 mil volts da região — a mesma subestação onde começou o apagão nacional de outubro de 2025.
O cálculo da Plural tem como base o parecer de acesso do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que só considera a conexão viável depois que a Copel instalar um terceiro transformador em Bateias, previsto para 2028, e aponta carregamento acima do limite de longa duração em caso de falha mesmo com a obra pronta. A empresa apresenta o projeto, chamado Bricklin, como "aprovado e estruturado".
O que o ONS emitiu é um parecer de acesso — documento técnico que diz se a rede comporta a nova carga e em que condições. Não é licença para construir. O parecer tem validade de 90 dias e depende da assinatura de contratos com a Copel. Os documentos obtidos pela Plural não mostram que esses contratos tenham sido assinados.
Até um terço da transformação de Bateias
O parecer de acesso do Bricklin, DTA-2025-PA-0133-R0, foi emitido pelo ONS em 1º de agosto de 2025, a pedido da Bricklin SPE, "representada pela Dataspots". Prevê 100 MW a partir de dezembro de 2030, no barramento de 138 kV da subestação de Bateias, que pertence à Copel Geração e Transmissão. O data center ficaria em Campo Largo, ligado à subestação por uma linha de cerca de 15 quilômetros.
O ONS concluiu que a conexão é viável, "porém, condicionada à entrada em operação do 3º TR 230/138 kV – 150 MVA da SE Bateias" — um terceiro transformador que a ANEEL autorizou a Copel a instalar pela Resolução Autorizativa 15.817/2025, com operação prevista para janeiro de 2028. Hoje, a subestação tem dois transformadores desse tipo, de 150 MVA cada, em operação desde 1999, segundo o cadastro do ONS.
O parecer informa que o data center terá demanda de 100 MW com fator de potência de 0,95 — o que corresponde a cerca de 105 MVA, a unidade em que se mede a capacidade de transformadores. Hoje, Bateias tem 300 MVA para rebaixar a energia de 230 mil para 138 mil volts. O data center equivaleria a 35% disso. Com o terceiro transformador, a capacidade sobe para 450 MVA, e a fatia cai para 23%. Mas o ONS avalia a rede supondo a perda de um equipamento: com um dos três transformadores fora de operação, sobram 300 MVA, e o data center voltaria a ocupar 35%. É nesse cenário que o parecer aponta os transformadores restantes acima da capacidade de longa duração.
O problema não fica só na subestação. Mesmo com a obra pronta, o parecer aponta que, se a linha de 230 kV Bateias–Curitiba Norte sair de operação, a linha Pilarzinho–Curitiba Norte passa a operar acima da capacidade de longa duração e perto do limite de curta duração. Se o transformador atrasar para depois de dezembro de 2030, o ONS prevê "sobrecargas inadmissíveis", inclusive em condições normais de operação.
Bateias é a subestação onde começou o apagão de 14 de outubro de 2025. Segundo o Ministério de Minas e Energia, um incêndio num reator da subestação provocou, à 0h32, o desligamento da instalação de 500 kV e a desconexão entre o Sul e o Sudeste/Centro-Oeste; os estados mais afetados foram São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. O data center se ligaria ao setor de 138 kV, e o parecer do ONS é anterior ao apagão.
Pelas regras do setor, a DataSpots tinha até 30 de outubro de 2025 para assinar o contrato de conexão com a Copel Geração e Transmissão e o contrato de uso do sistema de distribuição (CUSD) com a Copel Distribuição. Em 15 de outubro, a empresa reclamou à ANEEL que a Copel ainda não havia enviado a minuta do contrato de conexão, cujo prazo de envio vencera em 30 de setembro. As minutas chegaram em 28 de outubro, dois dias antes do fim do prazo: a do contrato de conexão pela manhã — "contrato padrão, com cláusulas estabelecidas pela Aneel", segundo a Copel — e a do CUSD às 20h09. No mesmo dia, em carta à ANEEL, a DataSpots afirmou que o CUSD trazia uma cláusula de eficácia que não constava da minuta original e que o contrato de conexão mantinha um anexo de garantia que ela considera inaplicável. Não há, nos documentos, registro de que os contratos tenham sido assinados.
Uma holding de R$ 1 mil e 29 empresas de propósito específico
A DataSpots Ltda. foi aberta em outubro de 2024, com capital social de R$ 1.000, segundo dados da Receita Federal de junho de 2026. É sócia de 29 sociedades de propósito específico (SPEs) com nomes de projetos e de cidades — 11 ativas e 18 baixadas. A Polaris SPE foi registrada em 18 de maio de 2025, também com capital de R$ 1.000. A Bricklin SPE, em 24 de março de 2025, com R$ 10.000.
O contrato social da Polaris, anexado ao processo judicial, prevê que a sociedade dura até a "conclusão do projeto vinculado a Sociedade e venda do projeto a terceiros".
Em tabela incluída nas suas contrarrazões no processo judicial, a ANEEL lista 18 pedidos de acesso da DataSpots ao ONS entre fevereiro e maio de 2025, somando 1.550 MW em seis estados. Onze deles foram protocolados em 19 e 20 de maio de 2025. No dia 20, a diretoria da ANEEL aprovou a Resolução Normativa 1.122, que passou a exigir garantia financeira de quem pede acesso à Rede Básica de transmissão. A agência afirma, no processo, que os pedidos foram feitos naquelas datas para "não ser afetada pela exigência de garantias".
Em Ponta Grossa, garantia de R$ 60,8 milhões e uma liminar
O outro projeto da DataSpots no Paraná, o Polaris, também de 100 MW, fica em Ponta Grossa. O parecer do ONS, DTA-2025-PA-0146-R0, de 26 de agosto de 2025, prevê a conexão na subestação Ponta Grossa Sul, com 50 MW em dezembro de 2027 e 100 MW a partir de 2028. O ONS registra que a carga "não foi objeto de estudo específico" no planejamento, que a linha de 230 kV Ponta Grossa Norte–Ponta Grossa Sul chegaria perto do limite em caso de falha e que o data center poderia ficar sujeito a corte de carga. Recomendou à própria Polaris "avaliar os riscos contratuais e regulatórios" antes de assinar os contratos.
Em 15 de outubro de 2025, a Copel Distribuição escreveu à ANEEL que os três data centers da DataSpots no Paraná somavam cerca de 350 MW, "aproximadamente 4% de todo o volume contratado" pelos 17,3 mil consumidores do Grupo A — os de média e alta tensão — atendidos pela distribuidora, o equivalente à demanda somada de seus dez maiores clientes. Pediu autorização para exigir garantias. Em 24 de outubro, a área técnica da ANEEL respondeu, no Ofício 542/2025, que "não há previsão regulatória neste momento" para condicionar o CUSD a garantias.
A Copel então pediu uma medida cautelar à diretoria da agência, em 14 de novembro, alegando risco "superior a R$ 20 milhões" caso o empreendimento não se concretizasse. Em 25 de novembro — um dia depois do fim do prazo para a assinatura dos contratos — a ANEEL atendeu ao pedido, por maioria, no Despacho 3.508/2025. O relator, Gentil Nogueira de Sá Júnior, reconheceu que não havia "regulamento vigente" que exigisse a garantia e a aplicou por analogia à regra da transmissão. O diretor Fernando Mosna votou contra: para ele, a exigência "configura restrição de direitos" e não pode ser imposta por analogia.
Em 4 de dezembro, a Copel cobrou da Polaris uma garantia de R$ 60.768.000, calculada pelos parâmetros fixados na decisão da ANEEL: 36 meses de encargos de transmissão para 100 MW. O valor equivale a três vezes o patamar de risco que a própria Copel havia declarado à agência, "superior a R$ 20 milhões".
A Polaris assinou o contrato de conexão com a Copel Geração e Transmissão em 24 de novembro, mas não o CUSD, que a distribuidora condicionou à garantia. Foi à Justiça Federal em Brasília (mandado de segurança 1147312-06.2025.4.01.3400). A primeira instância negou o pedido em 17 de dezembro. Em 23 de dezembro, no plantão, o presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, desembargador João Batista Moreira, suspendeu o despacho da ANEEL, afastou a garantia e mandou a agência dar prazo adicional de até 15 dias para a assinatura do contrato, "ao menos até que o Relator possa conhecer do pedido". Com isso, a garantia deixou de ser condição para o contrato. A decisão, porém, é provisória: em março de 2026, a ANEEL manteve a exigência ao negar recurso administrativo da empresa, e não há registro de que a liminar tenha sido confirmada ou revogada pelo relator da apelação, o desembargador João Carlos Mayer, da 6ª Turma, com quem o processo aguarda decisão desde junho. Se ela cair, a exigência volta a valer. O Ministério Público Federal devolveu o processo sem opinar.
Nas contrarrazões, a procuradoria da ANEEL foi além. Afirmou haver "evidências de que o proposto contrato seja meramente especulativo, SIMULADO" e que a Polaris e a controladora pretendem "SIMULAR UM NEGÓCIO" para reservar capacidade da rede a baixo custo e "negociar especulativamente esses direitos", citando o capital "simbólico" das duas empresas e a reserva de "grande parte da margem do sistema acessado". Os autos não informam se a Polaris assinou o CUSD no prazo aberto pela liminar.
O terceiro pedido no Paraná não foi viável
Havia um terceiro projeto da DataSpots no estado, o Plank, de 150 MW, na subestação Ponta Grossa Norte. Em 8 de outubro de 2025, a Copel informou à empresa, por e-mail: "Conforme parecer ONS, a conexão não é viável. Desta forma, o processo está encerrado por parte da Copel Distribuição." A Plank SPE consta como baixada na Receita, e o projeto não aparece no portfólio da empresa.
Fora do Paraná, o mesmo impasse
Os documentos de outros estados mostram dificuldades parecidas. No Rio de Janeiro, a Light recusou, em abril de 2026, o CUSD do projeto Adria, de 100 MW, em Belford Roxo: segundo a distribuidora, o ONS exigia a contratação dos 100 MW durante todo o ano de 2029, o que geraria cerca de R$ 23,1 milhões em encargos sem uso. A Adria SPE foi à Justiça Federal (mandado de segurança 1037755-50.2026.4.01.3400) e teve a liminar negada em 19 de abril. Em junho, a ANEEL respondeu à DataSpots que a distribuidora pode, em caráter excepcional, negar o contrato e que o parecer já havia perdido a validade.
Em São Paulo, o pedido do projeto Eniac, em Limeira, recebeu parecer "sem viabilidade" do ONS em maio de 2025. Um mês depois, o operador cancelou o pedido de revisão: as obras necessárias ainda não estavam no plano de expansão, e novos pedidos passaram a exigir garantia. Em protocolo à ANEEL, a empresa citou entre aspas, como se fosse do Ofício 491/2025 da agência, a frase de que pedidos anteriores à nova regra não precisariam de garantia; o ofício não contém essa frase.
Em setembro de 2026, o cofundador do Grupo ON, Luiz Fernando Ortega, afirmou ao BNamericas que os oito projetos do portfólio têm parecer de acesso e que há "oito CCTs" — contratos de conexão — "e sete CUSDs assinados". Os documentos analisados pela reportagem não comprovam CUSD assinado para nenhum dos dois projetos do Paraná.
Procurada em agosto, a Prefeitura de Ponta Grossa informou que "não consta, até esta data, qualquer solicitação de instalação, apresentação de estudo ou contato direto com a gestão municipal" sobre o projeto.
A Plural procurou a DataSpots, a Copel e o ONS. Não houve resposta até a publicação.
Fontes: pareceres de acesso do ONS DTA-2025-PA-0133-R0 (Bricklin), DTA-2025-PA-0146-R0 (Polaris) e DTA-2025-PA-0147-R0 (Adria); Despachos ANEEL 3.508/2025 e 720/2026 e votos; Ofícios ANEEL 542/2025-STD, 491/2025-STD e 218/2026-STD; cartas e e-mails da Copel e da DataSpots protocolados na ANEEL; autos do mandado de segurança 1147312-06.2025.4.01.3400 (TRF1); decisão no mandado de segurança 1037755-50.2026.4.01.3400 (TRF1); Receita Federal (base CNPJ); cadastro de transformadores do ONS; nota do Ministério de Minas e Energia de 14/10/2025; BNamericas, 09/09/2026; Prefeitura de Ponta Grossa.