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Após fracasso, Curitiba esvazia Vale-Creche e dobra o repasse a creches privadas

Três decretos somaram R$ 107 milhões ao repasse às creches privadas de Curitiba em 2026. Saíram R$ 28 milhões do Vale-Creche e R$ 70 milhões da folha da Educação.

Após fracasso, Curitiba esvazia Vale-Creche e dobra o repasse a creches privadas
O prefeito Eduardo Pimentel (PSD). Foto: Tami Taketani/Plural

Em três decretos publicados entre junho e setembro, a Prefeitura de Curitiba somou R$ 107 milhões à verba do atendimento da educação infantil por entidades privadas — mais do que o dobro do que a lei orçamentária reservou para o ano. Todo o dinheiro saiu de dentro da própria Educação: R$ 29 milhões da manutenção da rede, R$ 28 milhões do Vale-Creche, o voucher pago às famílias, e R$ 70 milhões da folha de pagamento dos servidores da secretaria.

A conta fecha exatamente. A ação orçamentária chamada "atendimento da educação infantil, por meio da prestação de serviços com entidades privadas" começou 2026 com R$ 97.127.000. Depois dos três decretos, chega a R$ 204.127.000 — alta de 110%.

O levantamento é da Plural, a partir da base de dados própria com o texto integral do Diário Oficial do Município e dos saldos orçamentários publicados pela própria Prefeitura, com posição em 31 de agosto de 2026. Como o Plural já noticiou, o programa Vale-Creche é um fracasso porque as famílias que precisam de vagas não encontram escolas privadas próximas para atendimento.

Os três decretos

PublicaçãoDecretoValorDe onde saiu
19/06/2026944R$ 29.000.000Manutenção da educação básica pela política municipal de ensino
29/07/20261.210R$ 28.000.000Manutenção do Vale-Creche
21/09/20261.532R$ 50.000.000Folha de pagamento dos servidores da SME (R$ 70 mi, dos quais R$ 50 mi para as entidades privadas)

Nenhum dos três traz explicação. As justificativas são de uma linha. No decreto que esvazia o Vale-Creche, o texto diz apenas: "reprogramação de despesas com auxílios financeiros a pessoas físicas". No de setembro: "reprogramação de despesas com custeio e pessoal".

O Decreto 1.210 é o mais direto: uma única redução, uma única suplementação, o mesmo valor. Vinte e oito milhões saem da linha do voucher e entram na linha do repasse às instituições.

O Vale-Creche perdeu dois terços da verba

O Vale-Creche foi criado pela Lei 16.492, de 11 de março de 2025, que o define como "medida transitória até a ampliação da rede pública de ensino infantil". É um voucher pago aos pais para matricular a criança numa instituição privada enquanto não há vaga em CMEI. A família presta contas todo mês, com declaração de frequência e nota fiscal.

Em 4 de março de 2026, o Decreto 257 fixou o tamanho do programa para este ano: "R$ 52.920.000,00, pago em 12 vezes, considerando o teto mensal de R$ 1.050,00 por criança". Pela própria conta do decreto, o valor daria para 4.200 crianças ao longo do ano.

O orçamento não acompanhou. A dotação da ação Manutenção do Vale-Creche abriu o ano em R$ 43.532.000 — já abaixo do montante fixado em março. Depois do decreto de julho, caiu para R$ 14.051.446. É menos de um terço do que havia no começo do ano e pouco mais de um quarto do montante que o Decreto 257 estabeleceu.

O gasto efetivo é ainda menor. Até 31 de agosto, o programa tinha empenhado R$ 2.931.595 — 6,7% da dotação inicial do ano. Em junho, eram R$ 1,2 milhão.

Vale-Creche em 2026Valor
Montante fixado pelo Decreto 257, de marçoR$ 52.920.000
Dotação inicial no orçamentoR$ 43.532.000
Dotação depois do Decreto 1.210, de julhoR$ 14.051.446
Empenhado até 31 de agostoR$ 2.931.595

A operacionalização do programa — meios de pagamento, processamento e prestação de contas — foi contratada da Cash In Intermediação e Agenciamento de Serviços S.A., e em junho a Prefeitura abriu novo pregão para o mesmo serviço.

A rede conveniada gastou quase tudo antes de setembro

Do outro lado, o repasse às entidades privadas corre rápido. Até 31 de agosto, a ação já tinha R$ 144.222.064 empenhados — 93,6% dos R$ 154,1 milhões que havia na dotação naquele momento. Liquidados, R$ 112,6 milhões.

Foi esse ritmo que puxou os reforços: em junho a dotação passou de R$ 97,1 milhões para R$ 126,1 milhões; em julho, para R$ 154,1 milhões; com o decreto desta segunda-feira, para R$ 204,1 milhões.

São dois caminhos para o mesmo problema — a falta de vaga em creche pública. Num deles, o dinheiro vai para a família, que escolhe a instituição. No outro, vai direto para instituições contratadas pela Secretaria da Educação. Em 2026, o segundo cresceu R$ 107 milhões e o primeiro encolheu.

A folha e a manutenção da rede também encolheram

O decreto de setembro tirou R$ 70 milhões da ação "atendimento de despesa com a folha de pagamento dos servidores municipais de Curitiba – SME". Além dos R$ 50 milhões que foram para as entidades privadas, o restante ficou em custeio da própria secretaria: R$ 9,6 milhões em serviços de tecnologia da informação, R$ 7 milhões em passagens e despesas com locomoção, R$ 3,4 milhões em serviços de terceiros de pessoa física, R$ 400 mil em serviços de pessoa jurídica e R$ 100 mil em locação de mão de obra. A soma bate com o total do decreto.

Essa dotação da folha abriu o ano em R$ 290.355.000 e estava em R$ 254.775.000 no fim de agosto. Com o corte de setembro, vai a R$ 184.775.000 — R$ 105,6 milhões, ou 36%, abaixo do que a lei orçamentária previu.

Movimento parecido atingiu a manutenção da educação básica pela política municipal de ensino, de onde saíram os R$ 29 milhões de junho: a dotação caiu de R$ 259.194.000 no início do ano para R$ 166.895.011 em 31 de agosto.

As alterações são muitas. Em 2026, o Diário Oficial publicou 71 decretos de crédito adicional que mexem em dotações da Secretaria Municipal da Educação. Em todos, a soma das suplementações confere com o valor declarado no próprio decreto.

O que os decretos não dizem

Nenhum dos atos informa quantas crianças estão na rede conveniada, quantas recebem o Vale-Creche, quantas seguem na lista de espera do cadastro on-line, nem quanto a Prefeitura paga por criança em cada um dos dois caminhos. Também não explicam por que a folha de pagamento da secretaria comporta um corte de R$ 70 milhões no meio do exercício.

A Lei 16.492 define o voucher como solução transitória "até a ampliação da rede pública". No orçamento de 2026, as ações de construção de escolas municipais e de reforma e ampliação de CMEIs perderam recursos: a de construção de escolas teve R$ 1,28 milhão remanejado para outras finalidades, e a de climatização de CMEIs, R$ 9,06 milhões.


Fontes: Diário Oficial do Município de Curitiba (Decretos 944, de 18 de junho; 1.210, de 29 de julho; 1.532, de 18 de setembro; e 257, de 4 de março de 2026; Lei Municipal 16.492, de 11 de março de 2025), base de dados da Plural com o texto integral das edições desde 2024; Prefeitura Municipal de Curitiba, saldos orçamentários de 2026, posição em 31 de agosto. Levantamento feito em 25 de setembro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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