Em três decretos publicados entre junho e setembro, a Prefeitura de Curitiba somou R$ 107 milhões à verba do atendimento da educação infantil por entidades privadas — mais do que o dobro do que a lei orçamentária reservou para o ano. Todo o dinheiro saiu de dentro da própria Educação: R$ 29 milhões da manutenção da rede, R$ 28 milhões do Vale-Creche, o voucher pago às famílias, e R$ 70 milhões da folha de pagamento dos servidores da secretaria.
A conta fecha exatamente. A ação orçamentária chamada "atendimento da educação infantil, por meio da prestação de serviços com entidades privadas" começou 2026 com R$ 97.127.000. Depois dos três decretos, chega a R$ 204.127.000 — alta de 110%.
O levantamento é da Plural, a partir da base de dados própria com o texto integral do Diário Oficial do Município e dos saldos orçamentários publicados pela própria Prefeitura, com posição em 31 de agosto de 2026. Como o Plural já noticiou, o programa Vale-Creche é um fracasso porque as famílias que precisam de vagas não encontram escolas privadas próximas para atendimento.
Os três decretos
| Publicação | Decreto | Valor | De onde saiu |
|---|---|---|---|
| 19/06/2026 | 944 | R$ 29.000.000 | Manutenção da educação básica pela política municipal de ensino |
| 29/07/2026 | 1.210 | R$ 28.000.000 | Manutenção do Vale-Creche |
| 21/09/2026 | 1.532 | R$ 50.000.000 | Folha de pagamento dos servidores da SME (R$ 70 mi, dos quais R$ 50 mi para as entidades privadas) |
Nenhum dos três traz explicação. As justificativas são de uma linha. No decreto que esvazia o Vale-Creche, o texto diz apenas: "reprogramação de despesas com auxílios financeiros a pessoas físicas". No de setembro: "reprogramação de despesas com custeio e pessoal".
O Decreto 1.210 é o mais direto: uma única redução, uma única suplementação, o mesmo valor. Vinte e oito milhões saem da linha do voucher e entram na linha do repasse às instituições.
O Vale-Creche perdeu dois terços da verba
O Vale-Creche foi criado pela Lei 16.492, de 11 de março de 2025, que o define como "medida transitória até a ampliação da rede pública de ensino infantil". É um voucher pago aos pais para matricular a criança numa instituição privada enquanto não há vaga em CMEI. A família presta contas todo mês, com declaração de frequência e nota fiscal.
Em 4 de março de 2026, o Decreto 257 fixou o tamanho do programa para este ano: "R$ 52.920.000,00, pago em 12 vezes, considerando o teto mensal de R$ 1.050,00 por criança". Pela própria conta do decreto, o valor daria para 4.200 crianças ao longo do ano.
O orçamento não acompanhou. A dotação da ação Manutenção do Vale-Creche abriu o ano em R$ 43.532.000 — já abaixo do montante fixado em março. Depois do decreto de julho, caiu para R$ 14.051.446. É menos de um terço do que havia no começo do ano e pouco mais de um quarto do montante que o Decreto 257 estabeleceu.
O gasto efetivo é ainda menor. Até 31 de agosto, o programa tinha empenhado R$ 2.931.595 — 6,7% da dotação inicial do ano. Em junho, eram R$ 1,2 milhão.
| Vale-Creche em 2026 | Valor |
|---|---|
| Montante fixado pelo Decreto 257, de março | R$ 52.920.000 |
| Dotação inicial no orçamento | R$ 43.532.000 |
| Dotação depois do Decreto 1.210, de julho | R$ 14.051.446 |
| Empenhado até 31 de agosto | R$ 2.931.595 |
A operacionalização do programa — meios de pagamento, processamento e prestação de contas — foi contratada da Cash In Intermediação e Agenciamento de Serviços S.A., e em junho a Prefeitura abriu novo pregão para o mesmo serviço.
A rede conveniada gastou quase tudo antes de setembro
Do outro lado, o repasse às entidades privadas corre rápido. Até 31 de agosto, a ação já tinha R$ 144.222.064 empenhados — 93,6% dos R$ 154,1 milhões que havia na dotação naquele momento. Liquidados, R$ 112,6 milhões.
Foi esse ritmo que puxou os reforços: em junho a dotação passou de R$ 97,1 milhões para R$ 126,1 milhões; em julho, para R$ 154,1 milhões; com o decreto desta segunda-feira, para R$ 204,1 milhões.
São dois caminhos para o mesmo problema — a falta de vaga em creche pública. Num deles, o dinheiro vai para a família, que escolhe a instituição. No outro, vai direto para instituições contratadas pela Secretaria da Educação. Em 2026, o segundo cresceu R$ 107 milhões e o primeiro encolheu.
A folha e a manutenção da rede também encolheram
O decreto de setembro tirou R$ 70 milhões da ação "atendimento de despesa com a folha de pagamento dos servidores municipais de Curitiba – SME". Além dos R$ 50 milhões que foram para as entidades privadas, o restante ficou em custeio da própria secretaria: R$ 9,6 milhões em serviços de tecnologia da informação, R$ 7 milhões em passagens e despesas com locomoção, R$ 3,4 milhões em serviços de terceiros de pessoa física, R$ 400 mil em serviços de pessoa jurídica e R$ 100 mil em locação de mão de obra. A soma bate com o total do decreto.
Essa dotação da folha abriu o ano em R$ 290.355.000 e estava em R$ 254.775.000 no fim de agosto. Com o corte de setembro, vai a R$ 184.775.000 — R$ 105,6 milhões, ou 36%, abaixo do que a lei orçamentária previu.
Movimento parecido atingiu a manutenção da educação básica pela política municipal de ensino, de onde saíram os R$ 29 milhões de junho: a dotação caiu de R$ 259.194.000 no início do ano para R$ 166.895.011 em 31 de agosto.
As alterações são muitas. Em 2026, o Diário Oficial publicou 71 decretos de crédito adicional que mexem em dotações da Secretaria Municipal da Educação. Em todos, a soma das suplementações confere com o valor declarado no próprio decreto.
O que os decretos não dizem
Nenhum dos atos informa quantas crianças estão na rede conveniada, quantas recebem o Vale-Creche, quantas seguem na lista de espera do cadastro on-line, nem quanto a Prefeitura paga por criança em cada um dos dois caminhos. Também não explicam por que a folha de pagamento da secretaria comporta um corte de R$ 70 milhões no meio do exercício.
A Lei 16.492 define o voucher como solução transitória "até a ampliação da rede pública". No orçamento de 2026, as ações de construção de escolas municipais e de reforma e ampliação de CMEIs perderam recursos: a de construção de escolas teve R$ 1,28 milhão remanejado para outras finalidades, e a de climatização de CMEIs, R$ 9,06 milhões.
Fontes: Diário Oficial do Município de Curitiba (Decretos 944, de 18 de junho; 1.210, de 29 de julho; 1.532, de 18 de setembro; e 257, de 4 de março de 2026; Lei Municipal 16.492, de 11 de março de 2025), base de dados da Plural com o texto integral das edições desde 2024; Prefeitura Municipal de Curitiba, saldos orçamentários de 2026, posição em 31 de agosto. Levantamento feito em 25 de setembro de 2026.