Entre francesinhas, flores e esmaltes: era assim que Beatriz Lins, ainda criança, passava as férias em Curitiba com a avó. Era o início dos anos 2000, o local era um pequeno salão de beleza no bairro Boqueirão, e a menina se conectava à cena de mulheres negras que trabalhavam cuidando da autoestima de outras pessoas da comunidade.
Anos depois, Beatriz é BadBia Nails, designer de unhas, modelo e bacharel em Direito. Enquanto trabalhava em telemarketing e cursava faculdade, encontrou no trabalho com nail art uma forma de expressão artística e, aos poucos, também um ofício.
A sugestão para aprender nail art - essa técnica que envolve mais do que cuidar, dar forma e pintar as unhas, mas fazê-lo de maneira criativa e artística - veio de sua mãe, em 2019. Na época, Beatriz já havia construído uma carreira de modelo de editoriais de moda e buscava uma forma de complementar a renda.
Investiu em um kit barato e começou a aprender sozinha. Fazia as unhas da mãe, da irmã e as próprias. Criava looks que eram alinhados com as unhas, fotografava e publicava nas redes sociais. As postagens chamaram atenção das amigas, que viraram clientes.
“É um ofício totalmente artesanal e também terapêutico. Foi muito importante para mim, que estava passando por várias situações naquele momento, encontrar no design de unhas uma forma de me expressar e embelezar as pessoas, que é algo que eu gosto muito”, conta BadBia ao Plural.

Os primeiros atendimentos aconteciam em um canto da sala do apartamento onde morava com a mãe e a irmã. O espaço era limitado, mas não impedia o desejo de ter seu próprio estúdio. Como as primeiras clientes, assim como a própria BadBia, trabalhavam com carteira assinada, os atendimentos aconteciam depois do expediente, muitas vezes madrugada adentro nos fins de semana.
Aos poucos, a atividade deixou de ser apenas uma renda complementar. BadBia passou a ser chamada para trabalhar em salões e estúdios de tatuagem de Curitiba, onde construiu uma clientela própria e percebeu que poderia fazer da nail art sua profissão. Quando o estúdio em que trabalhava precisou fechar, decidiu apostar e abrir seu próprio espaço.
Há quatro anos, BadBia administra o Traço de Gata, seu estúdio de nail art e brechó.
O estúdio como extensão da artista
O espaço parece ter saído de um videoclipe dos anos 2000: cores, brilho, referências da cultura pop e uma estética que mistura o extravagante ao delicado.

Nas paredes, desenhos feitos por BadBia quando era adolescente retratam animais, natureza e artistas como Lana Del Rey, A$AP Rocky, Tyler, the Creator, Beyoncé e Rihanna. O ambiente traduz uma estética que também aparece no trabalho da criadora: muita personalidade, referências diversas e liberdade para experimentar.
No Traço de Gata, a sessão de unhas não se resume ao procedimento estético. O atendimento se transforma em conversa, criação, troca e, muitas vezes, em uma necessária pausa para quem vai até lá.
Muito antes de a nail art ocupar editoriais de moda, redes sociais e estúdios especializados, a ornamentação das unhas fazia parte de práticas de beleza e expressão cultural há milhares de anos. O Smithsonian National Museum of African American History and Culture aponta registros assim há cerca de 5 mil anos. Ao longo do tempo, as unhas também se tornaram uma superfície de identidade, status e expressão. E essa possibilidade de transformar as unhas em espaço de criação pauta cada sessão da nail art.
Para ela, não existe uma combinação necessariamente certa ou errada, bonita ou feia. Existe aquilo que faz sentido para cada pessoa naquele momento.
“Às vezes eu quero uma unha de tigresa. Hoje não, hoje quero algo mais básico. Não tem certo ou errado. Não tem o que é feio ou bonito. A gente tem mais é que se libertar e se expressar.”




Fotos: Tami Taketani/Plural
A referência também pode vir de qualquer lugar.
Uma cena de um filme, um vídeo ou uma roupa podem virar ponto de partida para uma criação. É essa ideia que BadBia leva para os cursos e mentorias que oferece.
“Eu gosto de trabalhar com referências diferentes. Não estar me baseando apenas em unhas que vi no Pinterest. Eu gosto de me desafiar, pensar de repente numa imagem, num momento, num vídeo, numa fotografia de infância, um prédio que você viu na rua… tudo serve como fonte de inspiração para a nail art.”
A artista sempre utilizou o Instagram como principal ferramenta para divulgar o trabalho e conquistar clientes. Mas, sua estratégia nunca foi construída em torno da obrigação de viralizar.
BadBia passou a publicar o que fazia sem transformar a produção de conteúdo em um fim em si mesmo. Diz que nunca foi seu objetivo acumular milhões de seguidores ou participar de todas as trends e memes que circulam entre nail artists.
Com cerca de 3 mil seguidores no Instagram, @badbianails tornou-se uma espécie de vitrine de seu trabalho. De lá vieram clientes, cursos, mentorias, campanhas publicitárias, editoriais de moda e encomendas de unhas postiças para diferentes partes do Brasil.
Também vieram trabalhos com marcas e artistas como Guaraná Antarctica, Maria Dolores, Mc Carol, Vitão e Valentina Bandeira.
“Eu gosto de trabalhar de uma forma orgânica e que seja confortável para mim. Eu prefiro ter essa postura, porque a minha cliente vai chegar aqui e ver que eu sou isso.”
Sabe que seu trabalho é nichado e não vê isso como um problema. Ao contrário, quer falar diretamente com as pessoas que se identificam com sua linguagem.
“Não faz sentido a gente querer tanto ser autônomo, querer trabalhar com a própria arte, e ainda acabar sendo refém da internet.”


Calma e concentração para os toques finais na encomenda de unhas postiças inspiradas no cantor Michael Jackson. Foto: Tami Taketani/Plural
Novas telas, novas possibilidades
Em 2025, o trabalho de BadBia ganhou uma projeção internacional ao ser incluída no livro Fresh Sets, de Tembe Denton-Hurst. O livro reúne 35 artistas de diferentes cidades do mundo, entre elas Nova York, Tóquio, Seul e Moscou, e apresenta a nail art como uma linguagem de criação e expressão sem limites.
BadBia foi a única brasileira do segmento de unhas artísticas experimentais incluída na publicação.
A presença no livro amplia uma trajetória que começou em um canto de apartamento, passou por salões e estúdios de Curitiba e chegou a um espaço próprio.
Agora, ela quer aproximar ainda mais o trabalho do design e da moda brasileira. Acredita que a produção nacional tem muito a oferecer ao mundo e cita como referência a marca soteropolitana Dendezeiro.
Também sonha em atender Alcione e Érika Hilton.
Mais do que acompanhar tendências, BadBia quer continuar criando a partir de referências próprias. Agora está num novo endereço: Rua José Loureiro nº 12, sala 401, com espaço pronto para receber ideias e vivências.
Das madrugadas de trabalho no canto da sala de um apartamento ao circuito internacional da nail art, a trajetória de BadBia continua tendo como ponto de partida a mesma ideia que aparece em seu trabalho: beleza não precisa significar repetição. Pode ser também invenção, identidade e liberdade.