Este é um romance policial. Os capítulos são publicados semanalmente pelo Plural. Para ver todos os capítulos, clique aqui.
Quando a sessão acabou, ele se ofereceu para me levar até em casa em seu Ford, mas recusei, alegando que ainda tinha trabalho policial para fazer durante a noite. Contei para Gusmão os próximos planos da polícia. Ainda naquela noite, pretendia me encontrar com Sylvio Terra para seguirmos a pista indicada pelo bilhete. Disse a Gusmão que iríamos, no dia seguinte, consultar o Médium do Arpoador. Me acompanhou caminhando até o pé do morro. Nos despedimos com poucas palavras, apressadas e desajeitadas...
A noite estendia sobre o céu do Rio de Janeiro um manto negro. Respirei fundo e comecei a caminhar para dentro da noite.
Caminhei uns dez minutos sob a escuridão quando, com um susto, escutei uma voz de dentro das folhagens que margeavam o caminho.
“Amália”, disse uma voz sufocada.
O barulho vinha de dentro da mata. Com os pés vacilantes, avancei para além das margens da estrada. Respirava em ciclos curtos, como se tivesse medo de espantar o silêncio da noite. As árvores sacudiam. Talvez fosse o vento, talvez fossem animais caminhando sobre os galhos.
Senti uma presença próxima, atrás de mim. Virei o pescoço, devagar, mortificada. Atrás de mim, recortada pela escuridão, vi a silhueta de um homem de chapéu.
O comissário Sylvio Terra, saindo de trás de um arbusto, me cumprimentou desajeitadamente, enquanto limpava dos joelhos as manchas de terra úmida. Ia gritar para repreendê-lo pelo susto, mas ele ergueu o dedo sob os lábios e apontou para a rua lá embaixo.
Me escondi como ele atrás de uma árvore e também me pus a espiar a rua. Passos contra a terra de chão ecoavam lá de baixo. Não se via nada.
Sylvio, do meu lado, sussurrou:
“Vamos ficar por aqui, espiando. Ainda não sabemos para onde devemos ir.”
Com muito vagar, os murmúrios distantes se aproximaram dos nossos ouvidos. As silhuetas dos caminhantes lentamente se firmaram sob a luz do luar. Com o olhar, perguntei para Sylvio o que estava acontecendo. Sylvio respondeu, também sem palavras, que não tinha a menor ideia.
Quatro homens carregavam um caixão branco. Quando eles se aproximaram mais, pude entender mais distintamente o que falavam entre si. Um deles, cansado, pedia para que parassem por um momento. Outro respondeu que faltava muito pouco para chegar, que não adiantava parar. Quando passavam exatamente pela nossa frente, o que estava cansado soltou o caixão:
“Vocês façam o que vocês quiserem. Se quiserem carregar sozinhos, vão em frente. Eu preciso parar.”
Do meu lado, Sylvio Terra contorcia o rosto tentando evitar a vontade cada vez maior de espirrar. O comissário mordia o dedão em desespero.
Quando voltei a olhar para os homens subindo a rua, notei que um deles me era bastante familiar. Demorei alguns instantes antes de ter certeza que um dos quatro homens era um fuzileiro da marinha que tinha sido entrevistado por Sylvio Terra e pelo delegado: João da Silva Barros. Foi ele que falou:
“Aguenta mais um pouco, estamos quase lá.”
O que estava cansado respondeu:
“De quem foi a bendita ideia de levar um caixão até lá, hein?”
O fuzileiro respondeu:
“De quem mais seria?”
Os outros confirmaram com a cabeça. Os homens já tinham voltado a subir com o caixão quando o espirro, vencendo a resistência do Sylvio, explodiu de sua boca.
Os homens, alguns metros à frente, estancaram de repente.
“Ouviram isso?”.
Os outros fizeram que sim.
“Deixa pra lá. Deve ter sido um bicho qualquer. Vamos logo que tá pesado.”
“Ela tinha que morar bem num morro!”
Quando suas silhuetas quase se perdiam no breu, Sylvio Terra fez um gesto como a mãos para avançarmos. Andamos sempre alguns metros atrás do curioso cortejo até que os quatro homens estancaram. Estavam em frente a uma porta de madeira. A casa era grande e se esticava para além das árvores. O fuzileiro tocou a campainha e os quatro entraram em seguida.
“O que fazemos agora?” sussurrei para Sylvio.
“Esperamos.”
Cada ruído de dentro do bosque acendia minha espinha com calafrios. Não precisamos esperar muito antes de flagrarmos outra pessoa subindo a rua. Do pé do morro, se escutava uma gargalhada solitária. A gargalhada depois se tornou um engasgo, seguido de gemidos e tosse. Sylvio não pode conter a careta de nojo:
“Ele está vomitando?”
Fiz que sim. A vista estava nublada pelo breu, mas o som era inconfundível. Lentamente, a silhueta do homem foi se divisando na escuridão.
“Eu o conheço. Ele trabalha comigo na Crítica. Se chama Umberto della Latta. É ilustrador”, sussurrei.
Umberto andava como sempre: cambaleando de bêbado. Vestia um terno listrado surpreendentemente limpo. Ele estava quase passando pelo ponto onde estávamos quando tropeçou no próprio pé e caiu no matagal a poucos metros de nós. Tive o impulso de ajudá-lo, mas Sylvio Terra me segurou pelo ombro.
Umberto rapidamente recuperou a consciência, limpando a lama de seu rosto. Eu podia vê-lo claramente e tive certeza que, se levantasse rápido o suficiente, o italiano nos surpreenderia escondidos nas margens da estrada. Ele virou para nossa direção e abriu os olhos. Não consegui escapar a tempo de sua vista. Olhando diretamente para mim, disse:
“Sua farmácia é bastante limpa e agradável, embora o preço da John Hime seja um tanto obsceno.”
Levantou-se sem notar que as listras da sua calça haviam-se apagado em um todo marrom. Como se nada tivesse acontecido, retomou sua caminhada até a casa. Quando chegou, pudemos ouvir os gritos animados dos demais recebendo Umberto.
Além dos que já haviam chegado e de Umberto, mais alguns homens saíram de um carro estacionado do lado oposto da rua, minutos depois. Quando parecia bastante óbvio que mais ninguém chegaria, Sylvio mudou de estratégia.
“Vamos nos aproximar da casa por trás e tentar encontrar um lugar onde possamos escutar o que quer que vá acontecer lá dentro.”
A casa onde os homens entraram com o caixão era um sobrado de fachada larga e portas de madeira sobre uma estrutura de alvenaria. Desviando dos arbustos, nos aproximamos pelo lado. Depois de olharmos ao redor para ter a certeza de que ninguém nos via, colocamos o ouvido contra a parede.
Conseguimos ouvir algumas vozes, por entre os tijolos.
“Qual é o problema, Adriano?”
“Não acho isso certo. Eu conheci o Haroldo de Alencar quando ele ainda era vivo. Não temos o direito de fazer isso.”
“Por isso mesmo que podemos fazer o que quisermos. Ele já está morto, não vai saber.”
“Você deve achar que são ingenuidades minhas, coisas de gente do interior. Mas tem coisas que são erradas e ponto final. Se você estivesse morto, gostaria que brincassem dessa maneira?”
“Eu não me importaria. A morte do corpo é a morte da alma. Não existe mais nada de Haroldo de Alencar. Haroldo está tão morto quanto todas as pessoas que ainda nem nasceram.”
O que se chamava Adriano começou a responder, mas não conseguiu terminar. Primeiro, veio o som da porta rangendo e, logo em seguida, um estrondo. Imediatamente se recompôs e disse:
“Esse italiano tem que aprender a maneirar...”
Ao que Umberto Della Latta respondeu:
“Por acaso é aqui que mora Miguel Rodrigues, conhecido como Miguelita e vice-versa?”
Adriano respondeu condescendente:
“Sim, você está na casa certa, Umberto. Agora vem comigo, levanta.”
O comissário e eu nos entreolhamos apreensivos.
“É o nome que Gusmão Lobo mencionou”, lembrou o comissário.
O terceiro perguntou a Adriano se a noite ainda estava de pé, que, depois de um longo suspiro, confirmou.
“Prometo que, depois dessa noite, o respeito pela morte de Haroldo de Alencar vai ser a última de suas prioridades. Agora me deixa eu te ajudar com o italiano aí...”
Me virei para Sylvio. De dentro do bosque soprava uma brisa gelada.
“Você acha, comissário, que eles profanaram o túmulo do Haroldo?”
O comissário não respondeu.
“Temos que ir para outro lugar, não vamos escutar mais nada daqui de cima.”
“Para os fundos?”
O comissário fez que sim e segui seus passos ao redor da casa. Cuidei para desviar dos gravetos. O comissário fazia o mesmo. Lentamente a fachada de trás da casa se abriu para nós: havia várias janelas nos dois andares do sobrado. Na parte de cima, se estendia uma larga varanda. No canto esquerdo, uma porta de madeira fechada.
O comissário fez o sinal e eu o segui. As janelas extensas iam quase até o chão da casa e tivemos que passar por elas engatinhando. A primeira janela, embora escondida por uma cortina escura, iluminava os fundos da casa com fiapos de claridade na noite fechada. Sylvio Terra passou pela primeira janela e encostou o ouvido do outro lado da parede de alvenaria. Não ouviu nada e seguimos.
Com o mesmo vagar cauteloso, passamos por toda a extensão da parte de trás da casa sem ouvir sequer uma voz.
“Eles devem estar no andar de cima”, concluiu o detetive.
Tomei distância da casa para observá-la como um todo. Além das três janelas em sequência na parte de baixo, havia, no andar superior, uma varanda que se abria para três portas. Todas fechadas. Só as janelas, respingando réstias de luz no bosque, delatavam a presença de alguém na casa. Dando a volta, flagrei uma claraboia.
“Veja Sylvio”, chamei o comissário, apontando.
“Você não está pensando em...”
“Temos escolha?”
Fui até o lado oposto da casa de onde estávamos antes. A varanda começava a uns dois metros do chão. Achei que, se conseguisse chegar até lá, talvez conseguisse subir o bastante para, pisando sobre a cerquinha, alçar meu corpo até poder espiar a casa pela claraboia.
“Me dá pezinho? Acho que consigo subir até alcançar a varanda.”
“É claro que não, Amália” sussurrou o comissário. “Eu subo. Você me dá pezinho.”
Concordei, indiferente. Estiquei minhas mãos para que o comissário pisasse, mas ele ainda olhava apreensivo para a altura da claraboia.
“Sabe o que penso, Amália? Talvez haja coisas mais urgentes nessa investigação do que seguir essa pista que, afinal, e tem tudo para ser forjada.”
Respondi dizendo que agora que já estávamos ali o melhor a fazer era ir até o fim.
“Tudo bem, se você pensa assim. Se quiser eu te dou um pezinho para subir aí. Por sua conta e risco”, avisou o comissário.
Voltamos à nossa ideia inicial: alavancada pelas mãos de Sylvio até conseguir subir nos seus ombros, alcancei com as mãos o chão da varanda. Tentei me segurar e levantar meu corpo, mas me faltou força.
Sylvio segurou meus calcanhares e me subiu alguns centímetros a mais levantando meu corpo em cima de seus ombros. Minhas pernas tremiam com a vacilação dos braços de Sylvio. Com muita dificuldade, consegui galgar a varanda.
Rastejei por debaixo da cerca até conseguir me levantar por inteiro. O mais silenciosamente possível, tentei ficar em pé sobre as ripas que delimitavam a varanda. Era uma estrutura fina de madeira que parecia apodrecida há muitos anos pela chuva. Antes de subir efetivamente, balancei a cerca de um lado para o outro, testando sua resistência. Um pedaço da sua estrutura partiu e caiu no bosque, perto de Sylvio.
Lá em baixo, os lábios de Sylvio me desenharam: “cuidado!”
Respirei fundo e pisei sobre a madeira. A cerca pendeu para o vazio. No desespero, gritei. Para minha sorte, a madeira resistiu e bambeou de volta para dentro. Quando senti que estava razoavelmente equilibrada, estiquei as mãos até a borda da claraboia. Apoiando meu corpo sobre as telhas, consegui uma visão de dentro da casa.