Este é um romance policial. Os capítulos são publicados semanalmente pelo Plural. Para ver todos os capítulos, clique aqui.
Eu estava na última fileira do bonde, a caminho do Cine Pathé, quando ouvi dois homens conversando exaltados, perto do motorneiro. Com os ânimos à flor da pele, um deles exclamava algo do topo dos pulmões e o outro, com grunhidos, concordava. O ar vibrava com a promessa de aventura e violência. Ouvia nomes: “Getúlio Vargas”, “Aliança Liberal”, “Washington Luís'”. Em certo momento, escutei um deles dizer “aquele jornal”. Avancei alguns assentos no bonde até sentar apenas umas duas fileiras atrás deles.
“Essa é a nossa oportunidade de nos libertarmos desses oligarcas.”
“Tudo tem que ser destruído. Devemos acabar com nossos opositores. A começar pelos jornais. Pela imprensa governista.”
“Devíamos começar com o do Mário. Destruir o jornal deles. Empastelar.”
“Concordo! Só penso que...”
“Está com medo?”
“Será que devemos fazer isso agora?”
“O que é isso? Você não quer destruir aquele jornaleco de uma vez?”
“Só depois da Revolução. Agora, daria argumentos para eles... Eles já estão moralmente perdidos.”
O pacifista continuava com seus argumentos estratégicos quando os dois se deram conta que era hora de descer do bonde.
Eu não me importava realmente com a especificidade política do momento. Tinha aprendido a modular minha convicção, de modo que se misturasse à convicação daqueles ao meu redor. Entre os republicanos, eu era republicana. Entre os liberais, eu era liberal. Na Crítica, eu aprendi a ser governista e ferrenha opositora de Getúlio e da Aliança Liberal. Mas nada daquilo me interessava ou me tocava genuinamente. Como se eu assistisse as formas que as nuvens desenham no céu, só vagamente tocada.
Cheguei à Avenida Central esbaforida, depois de quase tropeçar tentando caminhar mais rápido do que seria prudente. A noite no rio de janeiro efervescia como um sopro de novidade. As conversas, como a disputa polêmica do ônibus, eram exaltadas, apaixonadas. Todos tinham acabado de descobrir a novidade do mundo e planejavam exauri-la bem naquela noite.
Estanquei frente ao Cine Pathé observando a fachada luminosa que projetava seus encantos sobre a calçada. A entrada do cinema estava repleta de jovens endinheirados. Contemplando o obelisco elegante que era o prédio do cinema, mal percebi que um par de entrada se esticava na minha direção.
Gusmão me estendia os bilhetes com um sorriso impecável.
Ainda faltavam alguns minutos para começar e sugeriu que sentássemos no Café ao lado para conversar enquanto isso.
“Não tinha certeza se você viria.”
“Tudo pela investigação.”
“Sei como é. É preciso estar próximo dos suspeitos, não é mesmo?”
“Não há nada tão emocionante quanto dividir a mesa próximo de um potencial assassino.”
Gusmão Lobo riu debilmente, com menos encanto do que costume, e depois suspirou como se estivesse exausto.
“Me desculpe, Amália. É que toda essa situação é um tanto desconcertante. Em um momento, eu estava no cinema com meu amigo. No dia seguinte, fui acordado com um telefonema desesperado de sua tia, dizendo que ele estava desaparecido. É difícil aceitar que Haroldo está morto.”
“Posso te contar uma coisa?”
“Vá em frente.”
“Vi você no enterro de Haroldo”, confessei.
“É mesmo?” ele parecia desconcertado.
“Sim, vi que você prestou homenagem a um outro morto também.”
Gusmão voltou-se para trás na cadeira, na defensiva. Parecia tentar estimar o quanto eu sabia daquele dia.
“Você acha que esse seu gosto pelo Machado era compartilhado por seu amigo?”
“Não sei dizer bem... Haroldo era um tanto indiferente à literatura nacional, talvez por ter nascido na casa em que nasceu, sei lá. Por que você pergunta?”
“Vi um exemplar de Papéis Avulsos lá na casa de Clarisse.”
“Essa polêmica antiga deve ter acendido a curiosidade literária do meu amigo. Ontem mesmo, me peguei pensando nos planos que ele tinha para este fim de semana...”
“Quais eram?”
“Uma sessão espírita. Ele ia até a casa do Médium para ouvir dos mortos histórias sobre seus antepassados.”
“Sobre o boato envolvendo Machado e os outros?”
“Provavelmente. Ele estava cada vez mais convicto de que era mesmo neto dele. Obra desse sujeito, o famoso Médium do Arpoador. Um farsante, na minha humilde opinião.”
Gusmão Lobo falou isso enfaticamente, como se o fato de não acreditar em nada disso lhe outorgasse uma superioridade sobre a ingenuidade do resto do mundo.
“Você acredita no espiritismo?”
“Não acredito que é possível conversar com as almas de pessoas mortas movendo copos sobre um alfabeto, se é isso que você pergunta.”
“Você disse alguma vez isso para Haroldo de Alencar, enquanto ele estava vivo?”
“Disse sim. Mas ele nem me escutava. Me garantia de pés juntos que bastava que, assim que eu me permitisse uma sessão com o tal Médium, tudo viraria de cabeça para baixo.”
Gusmão sorriu enigmaticamente e pensei que se lembrava do amigo com um misto de tristeza e alegria.
“O que você acha que havia de tão sedutor nesse tal de Médium do Arpoador?”
“Ele tinha seus truques. Coisas elementares, que se fazem em Paris há algumas décadas: truques de levitação, imagens de fumaça. Fantasmagorias, enfim...”
“Haroldo não acreditava que eram truques?
“Haroldo estava desesperado. O desespero é o alimento dos charlatões. Ele queria inventar sua ascendência, criar seu pai para se criar como filho. Como Telêmaco.”
“Desculpe. Como quem?”
“O que quero dizer é que, na verdade, a curiosidade de Haroldo sobre seus antepassados não veio dessa história especificamente, mas do desejo irrecorrível de se autoconhecer. Esse boato sobre Machado de Assis e Mário de Alencar foi a ocasião que ele encontrou para empreender essa busca.”
“Você acha que aconteceu alguma coisa que especialmente chamou a atenção de Haroldo para essa questão?”
“Foi certamente depois da morte do pai dele. Mário de Alencar deixou muita coisa sem resolução, assuntos que passaram aos cuidados dos filhos.”
“Que tipo de assunto?”
“Todo tipo de assunto, na verdade. Papéis da Academia, por exemplo.”
“Papéis da Academia?”
“Academia Brasileira de Letras. Mário de Alencar, talvez por ter ficado bastante próximo de Machado de Assis ao longo da vida, passou a unir em sua atuação uma série de demandas burocráticas da academia. Sei, por exemplo, que Mário trabalhava na edição de obras póstumas de escritores, cotejando versões em manuscritos. Alguns dos papéis pertenciam ao próprio Mário, alguns pertenciam à ABL. Essas coisas deram um bom trabalho para Haroldo e os irmãos.”
Achei que a conversa tinha chegado em uma rua sem saída. Lá longe, as pessoas na frente do cinema começaram a se apressar para entrar. A sessão devia estar quase começando. O filme em si me interessava muito pouco. Precisava aproveitar melhor a presença e a disponibilidade de Gusmão Lobo.
“Como foi que você e Haroldo se conheceram?”
Gusmão contou que tinham sido vizinhos, ainda crianças. Moravam em casarões do Botafogo, um de cada lado da rua. O médico me contou que, desde que se lembrava, Haroldo já tinha em si as características que levaria para toda vida: um atrevimento e uma ímpeto centralizador. Haroldo gostava mesmo de comandar as brincadeiras, orientando o pega-pega com a convicção de um general romano que empurra suas tropas para o inimigo.
“Por causa disso, é claro, Haroldo angariou muitas inimizades. Ultimamente, seu algoz era o tal Miguel, mas já teve muitos desafetos e rivais durante a vida inteira. Acho que ele dividia o mundo entre aqueles que simpatizavam com ele e os outros.”
“E as tendências de Haroldo? Apareceram desde cedo?”
“Acho que ele sabia que gostava de homens antes de eu saber que gostava de mulheres”, Gusmão disse, sorrindo.
A cada resposta evasiva, eu me sentia mais distante de obter qualquer coisa que fosse verdadeiramente útil para a investigação. Minha cabeça fervia com a necessidade de formular uma próxima pergunta que fosse interessante o suficiente para reaproximar Gusmão Lobo da conversa. Foi o médico, inclinando-se na cadeira na minha direção, que retomou a conversa:
“Mas me conte, Amália, você aceitou meu convite só para terminar o novo inquérito?”
“Ainda não decidi bem porque aceitei o seu convite”, disse sem jeito.
“Eu sei”, arriscou Gusmão. “Mas me conte”, retomou o médico, “você é desenhista forense da polícia?”
“Sou ilustradora, na verdade. Ocasionalmente contratada, quando um dos comissários acha que um retrato fiel da cena do crime pode ser útil para investigação”, arrisquei.
“Entendo. Sua participação na investigação se restringe a desenhar cenas de crime?”
Me via, novamente, na posição de ter que explicar para os outros o que sequer conseguia explicar para mim mesma:
“O comissário disse que eu tenho um olhar atento. Por isso me chama vez ou outra para acompanhar as diligências.”
“Ele está interessado em seu olhar, então?”, insinuou Gusmão.
“Não acho que Sylvio Terra se preocupe com muita coisa a não ser com a investigação, se é isso que você está sugerindo.”
“Se é mesmo assim, tanto melhor. O que acha de entrarmos? A sessão está quase começando.”