Este é um romance policial. Os capítulos são publicados semanalmente pelo Plural. Para ver todos os capítulos, clique aqui.
“Estou certo! Não há dúvidas! Estou certo!”
Sylvio Terra estava em êxtase enquanto me levava para sei-lá-onde. Falou rápido, não compreendi suas palavras. Depois com mais calma, pedi que me explicasse de novo.
“Sempre duvidei da culpabilidade de Antônio Alves. E pensei, pensei. Algo devia provar que não foi ele que cometeu o crime. Demorei só algumas horas para descobrir esse detalhe. Está provado! Sempre estive certo! Antônio Alves é inocente.”
Estava cética.
“Qual é o detalhe?” perguntei.
“Terei o maior prazer em fazê-lo. Posso explicar todas as circunstâncias enquanto caminhamos para o IML.”
“IML?”
“Instituto Médico Legal.”
“Eu sei o que significa a sigla.”
No caminho, Sylvio Terra me explicou as circunstâncias do que tinha descoberto. Segundo o documento da Marinha, Antônio Alves abandonou o barco vestido com a tarracha de outro marinheiro às oito horas da noite. O próprio Antônio disse que caminhou ao longo da Praia do Botafogo, olhando o mar e pensando na vida. Depois, foi até de bonde para casa dos seus sogros, que moram perto dos cortiços do centro. Ele estava morando lá junto com a esposa e seu filho recém-nascido. Eles têm álibis parciais. Um dos comerciantes, que começa seu turno à meia noite, reconheceu Antônio Alves. E os sogros confirmam que ele esteve em casa desde logo depois das três.
“Quer dizer que há mais de duas horas de intervalo durante o qual Antônio Alves poderia ter assassinado Haroldo de Alencar?”
“Exatamente. Ele foi visto meia noite quase na altura do Hospital de Alienados. De lá, poderia ter chegado em meia hora na Rua da Candelária, se fosse correndo ou de auto.”
“Ele está limpo até meia noite e meia, portanto.”
“Exatamente.”
“Mas, comissário, eu não consigo entender como isso ajuda o Antônio Alves. Segundo o depoimento de Pires Crespo, o assassinato aconteceu por volta de meia-noite e o assassino deixou a garçonnière às duas da manhã. Antônio Alves poderia ter cometido o crime justamente no intervalo durante o qual não tinha álibi.”
“Você estaria totalmente certa, não fosse...”
“Não fosse o que?”
“Espere e verá.”
Sylvio abriu seu melhor sorriso enigmático enquanto abria as portas centrais do prédio do IML. Logo que entrei no prédio, senti um cheiro de podridão que me deu ânsias de vômito. Segui o caminho de Sylvio enquanto ele virava por corredores cada vez mais nauseabundos. Só parou quando entramos em uma grande sala onde dois homens de jalecos se debruçavam sobre um corpo estendido em uma maca de metal. Ao redor, as paredes repletas de gavetas fechadas. Me segurava para não vomitar, mas Sylvio parecia só ligeiramente incomodado. Os dois homens de jaleco trabalhavam como se estivessem em um campo de margaridas. Um deles, vendo Sylvio, cumprimentou o comissário com alegria:
“Ora, comissário, muito bem-vindo ao paraíso dos defuntos! O que te traz aqui? Procurando um pouco de ar puro?”
“Um passeio matinal para me lembrar da inevitabilidade da morte, Dr. Átila. Esta que vem aqui comigo é Amália, assistente ocasional da polícia civil.”
Escutando meu nome, o outro médico depôs suas ferramentas na tábua de autópsia, do lado de um corpo aberto em Y.
“Sejam muito bem-vindos! Fazia tempo que não tínhamos uma mulher viva por aqui!”
“Na verdade, Dr. Antenor, só vim aqui para confirmar um detalhe da autópsia do Haroldo de Alencar.”
“Ao seu dispor. Lembro muito bem do Haroldo. Ontem, eu mesmo fiz a costura no seu peito, antes de despachar o corpo de madrugada. O que você quer saber?”
“O horário da morte.”
“Bom, isso já está no relatório. Entre 6 e 12 horas antes de vocês encontrarem o corpo. Em algum ponto entre 11 da noite e 4 da manhã, se bem me recordo.”
O outro médico, Átila, completou:
“Lamentável imprecisão. Imagino que não deve ajudar muito no trabalho policial.”
“Certamente que não” concordou Sylvio. “Mas tem um detalhe que esquecemos. Acredito que ajudará vocês a calcularem mais precisamente o horário da morte. Quando estávamos lá na garçonnière, vimos, no corpo de Haroldo, acontecer um processo curioso.”
Os dois médicos soltaram os instrumentos que ainda tinham na mão e passaram a escutar Sylvio Terra com curiosidade.
“Um pouco antes do meio-dia, o pênis do assassinado começou a se erguer até ficar totalmente ereto. Será que esse dado médico não poderia reduzir a imprecisão da estimativa?”
Átila e Antenor se olharam, pensativos. Um falou para o outro:
“Uma ereção post-mortem?”
“Curioso. A literatura é vasta sobre o tópico...”
“Mas pouco conclusiva...”
“Não houve fratura na cervical, isso tenho certeza.”
“Realmente, só lesões externas provocadas pelo estrangulamento.”
“Teria que ser o fluxo de sangue.”
“Os livores indicam...”
“Ele ficou deitado, parcialmente inclinado.”
“Ou seja, o fluxo de sangue seria forçosamente lento.”
“Será que conseguimos estimar um horário?”
Sylvio e eu olhávamos os médicos ansiosos pelo veredicto. Foi o Dr. Átila que arriscou:
“A ereção post-mortem é um fenômeno conhecido, bastante documentado, mas ainda não explicado satisfatoriamente na literatura médica. É sabido que as fraturas cervicais podem causar um priapismo quase imediato. Por outro lado, em alguns casos, parece que o fluxo lento de sangue do corpo acaba armazenado no corpo cavernoso da cavidade peniana, causando uma ereção mais lenta e gradual, ocorrida várias horas depois do óbito.”
O outro médico, Agenor, completou:
“É isso que acreditamos ter acontecido com Haroldo de Alencar.”
“Isso quer dizer que...” pressionou Sylvio Terra, curioso.
“Arrisco dizer que demoraria mais de doze horas para o fluxo sanguíneo em um corpo deitado causar um priapismo perceptível”.
Átila passou os olhos pela sala à procura de alguma coisa.
“Infelizmente, não posso utilizar o corpo de ocasião para mostrar para vocês os meandros anatômicos do soerguimento viril do sexo. Talvez não dê pra ver assim de cara, mas nossa hóspede da vez é a Aristolina, uma mocinha.”
Sobre a mesa, parcialmente escondida por um manto branco, deitava-se um corpo carbonizado.
“Nada é tão difícil quanto a autópsia de um queimado. Me diga, comissário, o que faz uma pessoa escolher a combustão como forma de suicídio?”
“Santidade?”
“Espero que seja”, Angenor respondeu. Virando-se para Átila, Sylvio Terra voltou ao assunto principal:
“Você acredita, então, que Haroldo foi assassinado antes da meia-noite?”
“Sim. Só assim o sangue teria tempo de fluir o suficiente para provocar uma ereção em um corpo deitado.”
O comissário olhou para mim com um sorriso triunfante.
“Aí está. Antônio Alves é inocente. Testemunhas oculares viram-no caminhar na orla da praia do Botafogo exatamente à meia-noite. Não poderia ter matado Haroldo de Alencar no mesmo horário.”
“E antes disso ele estava no encouraçado, em alto mar”, completei. “Realmente, comissário, parece que Antônio é inocente.”
Mal contendo a animação, Sylvio perguntou se havia mais alguma coisa que pudesse se afirmar sobre o corpo de Haroldo. Angenor respondeu com um sorriso difícil de entender:
“Era certamente um sujeito que deixaria Dorian Gray com uma boa pitada de inveja. Um cadáver muito sedutor.”
“Algo relacionado ao assassinato?”
O Dr. Átila interveio:
“Acredito que não, senhor comissário. As informações relevantes já foram expostas à polícia.”
O médico fez uma pausa cautelosa, como se hesitasse. Então, caminhou até a porta. Seguindo o tímido convite, seguimos seus passos. De uma prateleira repleta de livros, pendiam ilustrações de crânios e de corpos, salientando categorias, proporções e anomalias em cores pastéis.
“Se me permite, comissário... Os avanços recentes da ciência médica têm permitido uma inserção muito mais profunda nos enigmas da raça humana do que se julgava anteriormente. Acho que é mais do que hora para que a polícia civil do Rio de Janeiro se atualize das novas descobertas da medicina. Desde o século passado, já sabemos que basta um exame atento da forma cranial dos homens para denunciar importantes traços de seu caráter.”
Sylvio esboçou uma reação de surpresa. Eu pedi para que ele continuasse sua explicação.
“Com isso, quero dizer, Sylvio e Amália, que os legistas não mais se ocupam apenas dos mortos, mas usam os mortos para conhecer os vivos. Esse procedimento específico que estou estudando foi explicado por um médico alemão, cientista atento e curioso. Infelizmente hoje seu nome está em questão. Muitos acusam os próprios pilares de suas descobertas. A ciência que ele inventou, contudo, há de provar-se, a qualquer leitor atento, a intrínseca força de sua verdade. Chama-se frenologia. Meu trabalho com a polícia, além de realizar autópsias, é estudar a obra dos grandes médicos do nosso tempo de maneira a apropriar seus conceitos e suas ideias para a criminologia.”
“Um Lombroso à brasileira, nosso Dr. Átila.” Sylvio comentou, vagamente direcionando sua fala para mim.
“Não diga isso, comissário. Sou um aprendiz, apenas um aprendiz...”
A tentativa de modéstia não escondia a felicidade de Átila com a comparação. Sua explicação tornou-se mais professoral. Postou-se atrás de uma bancada sobre a qual estavam vários crânios humanos expostos em linha.
“Um. Reparem na protuberância do maxilar. Indica uma masculinidade exacerbada. Traço frequente nos políticos, ainda mais nos que gostam de falar alto. Lembro certamente de um amigo meu da faculdade, um sujeito travesso que gostava de me chamar de... bem, não vamos falar disso. Outro traço importante de se notar é este aqui, no segundo crânio. A diferença de altura das bossas. Indica desequilíbrio. Sem dúvida nenhuma lembra minha primeira namorada. Ah, saudosa Marcela, certamente não sinto falta de nossas brigas. Agora reparem nessa concavidade na região das bochechas. A marca inequívoca dos meninos sapecas, desonestos, mais espertos. Não posso deixar de apontar que quase todas as crianças que roubam da caixinha da igreja têm esse traço muito evidente. A própria constituição encefálica já nos diz muito. Um dos critérios estudados é a relação entre os tamanhos das partes do crânio. A metria frontal em um crânio deve ser pelo menos equivalente à metria horizontal. Do contrário, ocorre a idiotia. Este crânio aqui, por exemplo, pertenceu a um homem muito nobre e inteligente. Nota-se sua inteligência pela metria frontal. Certamente, aqui coube muita massa encefálica.”
“Permite-me perguntar de quem é?” arrisquei.
“Não teria nenhum problema em lhe dizer: pertenceu a meu pai, médico ilustre cuja grandeza é meu Norte,todos os dias.”
Sylvio me deu uma piscadela cúmplice e divertida.
“Nota-se” isso Sylvio dizia para o doutor, enquanto apontava para um crânio na outra extremidade, “que esse crânio aqui tem uma forma muito parecida com o seu próprio. Poderia até adivinhar sua especificidade. Deixe-me tentar: é um crânio de gênio, denotado pela forma alongada da cavidade da massa cinzenta?”
“Ora, Sylvio! Deixe disso”, respondeu o médico, visivelmente encabulado. Olhou para o crânio em questão, como que medindo suas dimensões. “Não vou mais aborrecê-los com minha lenga-lenga criminalista. Os calhamaços me cansam bastante. Basta que o comissário saiba apenas isso: hoje em dia a ciência médica lidera os estudos criminais e não são ingênuas as esperanças daqueles que acreditam que seja possível em pouco tempo que a medicina sozinha traga a paz social às nossas cidades. Ainda haverá o tempo em que em toda delegacia haja ao menos um detetive formado em medicina! Anotem o que digo.”
Levando-nos de volta à sala das gavetas, o médico terminou:
“Espero que nossa consultoria tenha sido de grande utilidade no caso Haroldo, comissário. Por ora, tenho de voltar à nossa santa Aristolina.”
Saímos. Nos despedimos do legista com apertos de mão cordiais. Sylvio, depois de dar um último aceno ao médico, fechou a porta e caminhou como se fosse refazer o caminho de onde tínhamos vindo. Então me olhou com o olhar de cúmplice.
“Espie pelo buraco da fechadura.”
“Não é educado, comissário Terra.”
“O que você acha que ele estará fazendo?”
“Retornando às autópsias.”
“Eu não apostaria nisso.”
Me rendi. Do buraco da fechadura, vi que o Dr. Átila media, com uma pressa assustada, a própria circunferência craniana, enquanto anotava o resultado de suas pesquisas em um caderno. Sylvio, encostado na parede, já adivinhava, sorrindo de canto, o que acontecia.
A diversão de Sylvio durou pouco. No caminho de volta, nos lembramos das possibilidades do caso. Com Antônio Alves descartado, o cerco agora se fechava em torno de Raymundo Silva...