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No caminho de volta para a delegacia, o exultante sentimento de estar certo crepitava suas últimas fagulhas em Sylvio que, mais contido, já maquinava os próximos passos do inquérito:
“Que faremos, que faremos? Vejo dois caminhos possíveis a partir de agora. Parece certo que Raymundo Silva é agora nossa melhor aposta. Mas tudo o que temos contra ele é fraco. Para acusá-lo oficialmente, eu gostaria de ter um caso mais sólido. O primeiro passo é continuar a investigar os envolvidos com Haroldo de Alencar. Ainda não chamamos Gusmão Lobo até a delegacia. O delegado se opôs anteriormente, argumentou que é um passo arriscado, porque a família dele é muito influente. O que proponho, contudo, não é investigá-lo como suspeito. Apenas conversar com ele.”
“Foi para ele que a Clarisse ligou quando deu falta do filho...”
“Exato. E ele que estava com Haroldo de Alencar nos últimos momentos de sua vida, no Cine Odeon.”
“Está aí um próximo passo: interrogar Gusmão. Qual o outro caminho?”
“O outro caminho é excêntrico e particular, mas há de se confiar na intuição às vezes...”
“Espiritismo?”, arrisquei.
“Exatamente. Vários depoimentos indicam que Haroldo passou os últimos meses de sua vida bastante interessado no espiritismo. Talvez investigar essa conexão seja de algum proveito para a investigação do todo.”
Concordei e fizemos, naquele dia, como planejado. O médico Gusmão Lobo foi chamado na delegacia, apesar dos comentários do delegado. Pedro, querendo se isentar das consequências possíveis de mexer com as famílias endinheiradas do Rio, decidiu não participar do interrogatório. Gusmão foi recebido na sala apenas por Sylvio.
Reconheci a silhueta de Gusmão no momento em que o médico apareceu no vão do escritório de Sylvio. Era ele que eu tinha seguido no dia do enterro de Haroldo. Gusmão tinha aproveitado o enterro do amigo para prestar uma homenagem a Machado de Assis.
“Muito obrigado pela generosidade de vir até aqui, doutor”, começou o comissário. “Seu depoimento é certamente essencial para o curso da investigação.”
“Não há de quê, comissário. Aliás, se há uma coisa que me incomodou bastante foi essa demora. Eu fui o primeiro contatado pela Clarisse. Estive lá, junto com os irmãos, na porta da garçonnière, pouco antes de vocês da polícia subirem ao quarto. Sinceramente, não entendo porque a polícia demorou tanto para me chamar.” Depois, acrescentou com malícia: “ainda mais se convocou toda uma tropa de marinheiros já no dia seguinte ao assassinato.”
“Concordo absolutamente. A polícia seguiu caminhos que se revelaram infrutíferos. Devíamos ter colhido o seu depoimento mais cedo. De qualquer maneira, cá estamos. Vamos começar?”
“Agora mesmo! Seria muita indiscrição, contudo, que o senhor comissário não me apresentasse a moça sentada conosco aqui nessa sala.”
“Gusmão Lobo, essa é Amália, assistente de inquérito da Polícia do Rio de Janeiro e desenhista forense.”
O médico me cumprimentou com um sorriso. Por um momento, tive a sensação de que ele sabia que as palavras do comissário não eram exatamente verdadeiras.
“Pode começar dizendo onde o senhor estava na noite de Terça-Feira?”
“Perfeitamente, comissário. Fui com Haroldo de Alencar ao Cine Odeon, onde assistimos Dias Felizes. Estava conosco José Leite, que, segundo soube, já foi entrevistado pelo senhor.”
O comissário, concordando, prosseguiu com as perguntas:
“Haroldo estava diferente nesse dia?”
“Um pouco mais preocupado do que o habitual.”
“Você saberia dizer qual a razão?”
“Há certos tópicos que se costumam evitar na sociedade, mas não vejo razão para tal pudor. Haroldo, como vocês devem ter descoberto, era bastante licencioso quanto às companhias que subiam até seu quarto na garçonnière. Ele colecionava noites na memória com orgulho, como troféus. Mas, com alguma frequência, os frequentadores de sua cama queriam mais que noites, queriam se tornar habitués...”
“Você considera que essa era a razão da preocupação de Haroldo?”
“Estou certo que era. Foram três ocasiões parecidas na mesma semana, se bem me lembro. Uma tinha a ver com Antônio Alves, um marinheiro casado que extorquia Haroldo sob ameaça de violência.”
Sylvio fez que sim, incentivando Gusmão a continuar.
“Depois, o Raymundo Silva, um menino perdidamente apaixonado por Haroldo, que não dava ao meu amigo um segundo de paz.”
“E qual era a terceira?”, perguntou o comissário, com curiosidade evidente.
“Miguel Rodrigues, com certeza.”
“Me desculpe, Gusmão... quem?”
“Miguel Rodrigues.”
Sylvio olhou para mim, na esperança de que o nome me lembrasse algo. O médico, vendo nossa confusão, continuou:
“Li nos jornais que vocês têm consigo a caderneta de Haroldo. Tenho certeza de que o nome dele deve estar por aí...”
O comissário fez que não com a cabeça e disse que não se recordava. Depois, sacando o caderninho da gaveta, passou os olhos sem encontrar o nome.
“Nenhum Miguel aqui”, disse, virando as páginas. Gusmão franziu o cenho.
“Será que eu poderia... o senhor se importa?”, perguntou o médico, estendendo a mão para alcançar a caderneta.
“De modo algum.”
Virando as páginas rapidamente, Gusmão Lobo encontrou o que procurava. Devolveu com a página aberta, enquanto dizia:
“Está ali, no final da página.”
“Você está enganado, Gusmão. É Miguelita, nome de mulher. Não há nenhum Miguel aqui.”
Gusmão deu um sorriso generoso.
“É ele, comissário. Miguel é Miguelita, a depender da hora. E da companhia.”
Sylvio, se recompondo do engano, continuou o inquérito:
“Esse Miguel também estava apaixonado por Haroldo, é isto que o senhor me diz?”
“Não, de maneira alguma. Eles certamente tiveram suas noites há uns anos, mas Miguel incomodava Haroldo por uma razão um tanto diferente. Ele era, a bem dizer, um concorrente.”
“Concorrente?”
“Sim. Haroldo se ressentia muito disso. Miguelita surgiu como uma sensação entre os marinheiros. Haroldo, sempre orgulhoso de sua posição centralizadora dessa boemia de invertidos, se mordia de ciúmes. Foi difícil dividir essa prerrogativa com Miguel. Miguel é mais jovem e, dizem alguns, mais bonito. Ele trouxe para o seu círculo alguns dos mais queridos frequentadores da garçonnière de Haroldo.”
“Então essa situação incomodava seu amigo?”
“Imensamente. Ele via a ascensão do concorrente como indício de sua ruína. Comissário, eu, amigo de infância de Haroldo, não tive tantas ocasiões como se suporia para presenciar suas práticas noturnas. Mas se tem algo que eu conheço bem é a frivolidade... Haroldo acreditava que a idade é como um raio que cai na cabeça das pessoas. Que elas, depois de velhas, são condenadas a viver em um ostracismo saudoso, como se já tivessem passado do ponto de uma vez por todas. Haroldo via a própria decadência se aproximando.”
“Aos trinta e quatro?”
“Exatamente.”
“Depois do cinema, o que vocês fizeram?”
“José Leite debandou ali mesmo, indo pro Botafogo. Acompanhei Haroldo por umas quadras. Nos separamos na avenida central. Ele me disse que ia passar lá na garçonnière.”
“Ele parecia assustado?”
“Ansioso, preocupado. Acho que ele tinha combinado de encontrar Antônio Alves. Ele dava dinheiro para esse marinheiro na época em que os dois se viam com frequência. Depois do fim, o marinheiro continuou a pressioná-lo por dinheiro. Pelo que me disse, Haroldo estava a fim de cortar de uma vez por todas essa ligação. Talvez ele pensasse em fazer isso naquela mesma noite.”
“Você acha, doutor, que foi isso que aconteceu?”
“Não seria leviano a ponto de acusar um homem sem evidências mais sólidas, mas não acho que a polícia deva descartar essa hipótese. Antônio Alves, contrariado, amargurado, talvez fosse capaz de...”
“Na verdade, doutor, já descartamos. O horário da morte não permitiria que Antônio Alves tivesse assassinado Haroldo de Alencar. O álibi dele é bastante sólido.”
O médico recebeu essa notícia com naturalidade. Sylvio Terra continuou:
“Durante o curso da nossa investigação, descobrimos que Haroldo de Alencar estava interessado recentemente em certos fenômenos sobrenaturais, se assim posso dizer. O doutor sabe algo a respeito disso?”
“Sei o que Haroldo me contava, comissário. Ele realmente estava interessado no espiritismo, imaginava que havia um modo de contatar os espíritos. Queria descobrir através deles uma questão sobre sua família...”
“ Sabe, doutor Gusmão, qual é essa questão?”
“Há uns rumores antigos segundo os quais o pai do meu amigo não seria filho de José de Alencar, o escritor. Um boato muito antigo, provavelmente delirante, diz que Mário de Alencar seria, na verdade, filho de Machado de Assis.”
“O senhor, Gusmão, acredita que esses boatos eram legítimos?”
“Nem por um momento. São fofocas bobas, levianas. Mas Haroldo acreditou. Tomou para si a responsabilidade de descobrir a verdade sobre seu pai. E achava que faria isso através do espiritismo.”
“O senhor chegou a acompanhar alguma vez Haroldo de Alencar em uma sessão espírita?”
“Nunca, comissário.”
O comissário fez uma pausa, ligeiramente confuso.
“Me desculpe, não entendi. José Leite, se bem lembro, disse que o senhor que apresentou essas práticas a Haroldo.”
“Sim! Falei para ele sobre o que tinha visto, na Europa. Mas só falei. Nunca estive com Haroldo em uma séance.”
“Posso perguntar por quê?”
“Sempre tive muito medo. Desde pequeno isso. Meu pai, em algum momento da vida, se interessou por esses fenômenos da maneira como apareciam nas religiões africanas. Na época, tínhamos um senhor trabalhando em nossa casa que era ums espécie de ministro de cerimônias desse tipo. Foi uma experiência certamente traumatizante para mim, comissário. Haroldo de Alencar me convidou algumas vezes, mas sempre disse não.”
“Haroldo realizava essas experiências por conta própria?”
“No começo, sim. Mas depois passou a frequentar um lugar mais ao Sul, de um médium que ganhou certa notoriedade recentemente. ”
“Você saberia o nome desse médium?”
“Não me recordo agora. Havia alguma alcunha pela qual ele é conhecido. Atendia numa casa rosa próxima à orla de Ipanema.”
“Médium do Arpoador”, falei baixinho, para mim mesma.
O médico concordou, como se captasse uma lembrança que lhe fugia:
“Isso, exatamente!”
“Qual era a relação de Haroldo com esse médium?”
Gusmão pensou um pouco antes de responder:
“Haroldo admirava muito o médium. Ele pensava que o médium era a única pessoa capaz de fornecer a resposta que ele queria sobre sua ascendência. Mas, fora isso, não acho que se conhecessem de verdade. Haroldo era um cliente, como os outros”, explicou.
Sylvio Terra fez, enfim, sua pergunta derradeira:
“Algo mais? Há algo, doutor, que queira nos contar, que ainda não tenha feito?”
“Não... Acredito que não.”
“Assim sendo, eu e a minha assistente agradecemos sua vinda até a delegacia.”
Gusmão, levantado-se para cumprimentar com a mão Sylvio Terra, dizia:
“No que precisar, estou à sua disposição. Não hesite em me contatar. Espero que a investigação não demore a encontrar caminhos mais frutíferos.”
“Que assim seja! Não é fácil o trabalho do investigador. Como se diz: la vérité ne fera pas dʼaveux.”
“Não mesmo” concordou, Gusmão, despedindo-se com um gesto de chapéu.
Logo que o médico saiu da sala de interrogatório, disse para Sylvio, com surpresa estudada:
“Olha, ele esqueceu a carteira.”
Sylvio estranhou: “Mas ele nem usou a carteira...”
Nem tive tempo de responder porque já saía pela porta. Surpreendi Gusmão Lobo prestes a entrar no seu carro. O médico dirigia um Modelo T em um preto lustrado impecável.
“Com licença, doutor Gusmão. Posso te fazer uma última pergunta?”
“À vontade.”
“Sabe como foi que Haroldo encontrou o Médium do Arpoador?”
“Não sou a melhor pessoa para te dizer qualquer coisa sobre ele. Como disse, tenho um medo de longa data de qualquer coisa que não seja evidentemente material...” Gusmão parou um momento, ponderando. “Mas, se você quiser, posso te contar aquilo que Haroldo me contou. Tenho uma consulta particular agora, mas não me oporia em conversar mais tarde com a senhorita a respeito do que quiser perguntar.”
Gusmão sentou ao volante e, pela janela do passageiro, me entregou a folha cultural do Jornal do Comércio.
“Hoje mesmo no Cine Pathé vai passar A Eterna Mulher. Dizem que Ralph Graves nunca esteve tão galã, se é que esse tipo de prazer lhe agrada com agradava ao meu amigo. O que acha de me encontrar lá para que eu explique melhor o que Haroldo me contou sobre suas aventuras espíritas?”
Antes que eu pudesse articular uma resposta, seu Ford já ronronava para longe da delegacia. De dentro do veículo, escutei-o dizer:
“Até mais, Amália!”