Este é um romance policial. Os capítulos são publicados semanalmente pelo Plural. Para ver todos os capítulos, clique aqui.
Quando voltei, encontrei Sylvio Terra debruçado em sua mesa com uma lupa apontada para uma pequena folha de papel.
“Venha, Amália, sente aqui, você vai gostar de ver isso. Estive ontem de madrugada lá na garçonnière novamente. Levei comigo o Raymundo Silva e uns policiais. Fizemos umas simulações: movemos a cama de lugar, como ela deve ter sido movida pelo assassino, saímos do apartamento, viramos na Visconde. Não descobrimos absolutamente nada. Nada que já não soubéssemos. Teria que ser uma pessoa razoavelmente forte para que conseguisse arrastar a cama turca, principalmente se Haroldo ainda estivesse em cima. Mas fora isso nada demais. Contudo...”
E, dizendo isso, se levantou e passou a caminhar pela sala.
“Encontramos, em um livro que não estava lá anteriormente, esse pequeno bilhete aí. Era um tomo de Enciclopédia, colocado deitado sobre a estante. A folha escapava entre duas páginas do livro.”
Sobre a escrivaninha de Sylvio Terra, estava uma folha sulfite com diversas colagens. Era uma mensagem escrita com letras avulsas recortadas de jornais impressos. Reconheci, por exemplo, o simpático C cursivo que encabeçava todos os exemplares da Crítica.
CAROS DETETIVES, EVITAI PARECER PATOS PERDIDOS SEM RUMO NA LAGOA E IDE, ÀS OITE HORAS, HOJE, DIA 20, ATÉ A RUA JOAQUIM MURTINHO ONDE ENCONTRARÃO COISAS SENÃO AGRADÁVEIS PELO MENOS ÚTEIS PARA VOSSA INVESTIGAÇÃO. ASSINA UM MÍSTICO DE ARTIMANHAS.
Sylvio sorria de orelha a orelha, fascinado com o sabor dramático do bilhete.
“Quem mais sabia que vocês fariam uma reconstituição ontem à noite?”
“A princípio, só as pessoas da polícia. O delegado Pedro, os investigadores Abílio e Malta...”
Continuei intrigada.
“Você acha que algum de vocês vazou a informação para o assassino?” Sylvio coçou o queixo.
“Pode ser. Mas não acho que precisamos supor que alguém vazou algo necessariamente. Afinal, quem quer que tenha deixado o bilhete lá poderia ter apenas imaginado que a polícia, algum dia, voltaria para a garçoniere.”
Assenti. Sylvio, lembrando um momento depois, acrescentou:
“É claro que Raymundo também sabia que iríamos. Mas duvido que ele próprio teria a coragem e a audácia de plantar o bilhete. Seria o primeiro suspeito.”
Sylvio voltou a sentar, relendo continuamente o texto em letras recortadas.
“Você não está pensando em ir lá, está?”, perguntei.
“Talvez, ainda não sei.”
“Pode ter sido o próprio assassino que escreveu esse bilhete, não pode?”
“É claro que pode. Mas nem por isso ele deixa de ser valioso. Vamos pensar. Primeiro partamos da hipótese de que o bilhete seja real. Não seria inverossímil que algum frequentador da garçonnière quisesse colaborar com a investigação se mantendo no anonimato. Vamos concordar”, agora Sylvio falava baixinho, para que o Delegado Pedro, na sala ao lado, não escutasse, “que o ambiente aqui na delegacia realmente não é convidativo a colaborações genuínas.”
“Mas...”
“Pode ser que o bilhete seja forjado. O próprio assassino pode ter colocado lá para nos confundir e despistar. Mesmo se esse for o caso, contudo, não acredito que seria totalmente inútil ir até o endereço citado. Se descobrirmos que esse bilhete foi forjado, saberemos em que direção o assassino quer que olhemos. E então podemos ir na direção oposta para encontrá-lo.”
Concordei com o plano, ainda que não estivesse totalmente convencida de que ir até lá era realmente uma boa ideia.
“Nos encontramos às oito nesse endereço, então?”
“Vá discretamente, com cautela. Não se esqueça que pode ser uma armadilha”
Pensei no convite de Gusmão Lobo e calculei poderia fazer as duas coisas no mesmo dia. Foi nesse momento que ouvimos uma batida meio tímida na porta. Sylvio Terra disse o costumeiro entre e, de luto dos pés à cabeça, entrou Helena de Alencar, mãe de Haroldo.
“Muito obrigado por comparecer ao inquérito, senhora Helena”, cumprimentou Sylvio Terra, depois de fazer as apresentações.
As perguntas costumeiras a respeito da terça-feira fatídica quando Haroldo de Alencar foi assassinado pouco revelaram de interessante. Segundo seu depoimento, a terça-feira em que seu filho morreu teria sido doméstica, pacata e esquecível. Depois dessa perguntas protocolares, Sylvio começou a inquirir sobre o que realmente lhe interessava.
“Qual era, dona Helena, a relação de Haroldo com seu pai, Mário?”
“Haroldo sempre foi, de certa forma, o mais distante dos irmãos. Ruy era muito apegado ao pai e Léo também era. Mas Haroldo, não. Talvez justamente por isso, ele foi o filho que mais sofreu com a morte do pai. Chorou todos os dias por meses, segundo me contou Clarisse. Algumas vezes o vi. Foi Haroldo que cuidou de boa parte dos pertences do pai. Decidiu o que ficaria com a família, o que doaria para a Academia. Como dizem, santo de casa não faz milagre. Embora todos os filhos fossem razoavelmente interessados em literatura, nenhum deu muita bola para a produção de Mário em vida. Mas, depois de morto, Haroldo ficou realmente fascinado com os livros do pai. Leu todos algumas vezes. Também começou a caçar manuscritos. Queria descobrir se, por acaso, o pai não tinha deixado algum livro inédito em seus cadernos.”
Desta vez fui eu que tomei as rédeas e perguntei para Helena:
“Ele alguma vez perguntou algo sobre o pai? Depois que ele morreu?”
“Não sei se entendi bem...”
“Haroldo algum dia perguntou para a senhora algo sobre a ascendência de Mário de Alencar?”, precisei.
“Havia um boato antigo. De algum jeito, o Haroldo ficou sabendo e veio me perguntar, sim.”
Me fiz de desentendida:
“Um boato antigo?”
“Sim, achei que vocês conhecessem. Diziam que Machado tinha um caso com a mulher de José de Alencar. Que talvez Mário fosse filho de Machado de Assis...”
“O que você achava desse boato?”, perguntou o comissário.
“Se querem a minha opinião, acho que a minha sogra sempre me pareceu muito fiel. Acho que era apenas um boato.”
“A senhora tem alguma ideia do que pode ter motivado essa história?”
“Mário ficou muito próximo de Machado com o tempo. Meu marido se ocupou muito com a saúde de Machado em seus últimos dias de vida. Mas foi por carinho, porque Machado não tinha filhos e porque Mário gostava muito dele. Mas essa proximidade bastou para que se começasse a falar...”
Helena fez uma pausa e depois, lembrando-se, completou:
“E há o detalhe da epilepsia também. Machado era epilético, Mário também. Mas várias pessoas têm esses ataques. Pode ser só coincidência.”
“E foi isso que a senhora disse ao seu filho?”, perguntei.
“Foi exatamente isso. Disse que conhecia o boato, mas que achava que não tinha fundamento. De qualquer maneira, eu disse ao Haroldo, no fim das contas, que não valia a pena se preocupar com isso porque não é possível saber coisa alguma. São coisas do passado...”
O comissário tomou a palavra novamente:
“A senhora sabia que ele estava tentando descobrir essa resposta através do espiritismo?”
“Através do quê?”, perguntou Helena.
“O que o comissário quer dizer”, expliquei, “é que Haroldo de Alencar estava tentando contatar os espíritos para descobrir a verdade sobre a identidade de seu avô.”
Helena nos olhou desconfiada.
“Não me parece correto isso. Nós criamos Haroldo em uma doutrina muito estrita. Meu filho não acreditava nessas coisas, policiais.”
“Nós entendemos, é claro.” O comissário pensou por um momento e depois continuou: “Nos deixe perguntar uma coisa mais. Como a senhora lidou com o fato de seu filho gostar de homens?”
A pergunta pegou Helena de surpresa. Ultrajada, a mãe de Haroldo de Alencar gaguejava:
“Como, como assim? Gostar de homens?” Sorri para Helena:
“Não há razão para cerimônias, senhora. Se houve um dia um segredo, hoje já não há. Por obra dos jornais, as preferências de Haroldo de Alencar estão expostas ou, no melhor dos casos, sugeridas. Queremos saber como a senhora lidou com isso.”
Helena se recompôs para responder:
“É preciso amar os filhos, mesmo quando são indecentes. Nunca deixei de amá-lo. Pedi que saísse de casa, isso pedi. Mandei que fosse para a casa da tia, que nunca mais pisasse na minha sala. Mas nunca deixei de amá-lo, nem por um dia.”
“E Mário”, perguntei, “como Mário de Alencar via o comportamento do filho?”
Helena desabou no choro.
“Mário foi mais brando que eu. Na verdade, nunca entendi bem o que ele pensava. Às vezes, Deus me perdoe, parece que ele até mesmo se orgulhava dessas tendências do Haroldo, como se fosse uma coisa boa... Ele nunca disse isso em voz alta, não teria coragem, mas eu conhecia meu marido.”
“Mário não viu problema em Haroldo morar com Clarisse?”
“Ele não se opôs. Acho que sabia que seria melhor para todos.”
“Por que Clarisse?”, perguntei.
“Não é evidente?”, perguntou Helena, com um sorriso ácido.
“Não para nós, Helena”, respondeu o comissário.
“Porque ela é como ele. Invertida.”
O comissário se intrometeu:
“Mas ela não é casada?”
Helena enxugou as lágrimas e sorriu cinicamente:
“O senhor vê algum problema, comissário? Ela não.”
O comissário, depois de um silêncio desconfortável, agradeceu Helena e a dispensou. Sozinhos novamente na sala do detetive, traçamos com cuidado os próximos passos.
Combinamos que, no rastro do bilhete, nos encontraríamos no endereço citado às onze horas. Sylvio também já tinha planos para o dia seguinte.
“Não pense que é excentricidade, pois julgo que nada é mais urgente do que isso. Temos que visitar o Médium do Arpoador. É uma linha de investigação que não podemos descartar. Se Haroldo frequentava com tanta frequência essa casa, é bem possível que alguém de lá de dentro possa ser o assassino. Precisamos investigar.”
“Você pretende trazer o Médium para delegacia?”
“De jeito nenhum. Não chegaremos lá como policiais. Vamos visitar o centro como curiosos, como pessoas que buscam conversar com os entes queridos.”
Concordei com o planejamento. Me despedi do comissário um tanto apressada pensando no compromisso que tinha, sem querer, marcado com Gusmão Lobo.