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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 16

Leia o novo capítulo do romance policial de Nicolas Wolaniuk que o Plural publica em folhetim

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", capítulo 16

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Duas correspondências me esperavam quando cheguei. Uma era a carta de meu, que relutava em começar a ler. Meu coração disparou quando vi a segunda: uma nova remessa do Médium do Arpoador.

Com as duas cartas na mão (a de Ipanema e a do meu pai) afundei no sofá. Decidi que a carta do meu pai, uma vez que já tinha esperando alguns dias, bem que podia esperar mais. Abri primeiro a outra. Reconheci a caligrafia exígua e pequeninha que já tinha visto na carta anterior se estender por toda extensão de uma página velha e manchada. Era papel de livro, uma folha ressecada em que se via, como linhas de um mapa, a geografia lenta do envelhecimento. Com cuidado, como se tivesse nas mãos algo vivo, como um bebê ou um passarinho, acolhi a página na minha mão.

Queria tanto lê-la, com tanta urgência e esperança, que não consegui passar da primeira linha. Repensei e comecei a lendo a outra, a do meu pai, que me interessava menos. 

Filha querida,

Como está a vida aí no Rio? Meus dias na fazenda têm sido muito longos e solitários. Adoraria que você me escrevesse vez ou outra. Outro dia sonhei que uma jovem tinha morrido em uma pensão do centro. No sonho, eu lia o jornal sem entender, porque já tinha esquecido o francês que aprendi na escola, e só fui descobrir que a morta era sua mãe por causa da foto. Era a mesma foto que eu tenho emoldurada aqui na sala, com aquele vestido encomendado de Paris que ela só vestiu nas tardes de fotografia. O sorriso era o mesmo, mas dava para ver a diferença nos olhos, que estavam sem vida no jornal. Acordei assustado, mas rapidamente me acalmei, aliviado, e fiquei bobo de feliz por lembrar que ela ainda estava viva. Depois lembrei que não estava e foi pior do que no sonho.

Mas não quero te aborrecer com essas lembranças tristes. Afinal, você sabe como é a vida aqui. Há dias em que nada acontece. Há dias que os escravos de meu pai aparecem ao pé da jabuticaba. Então, sei que estou sonhando, já não há escravos há bastante tempo e também o pé de jabuticaba morreu. Volto para casa, pensando que talvez sua mãe esteja viva. Tropeço no prego da escada e sinto uma dor tão aguda que descubro que estou acordado. Ela não está na cama, meu pé está machucado e os escravos de meu pai continuam lutando capoeira sob a sombra do pé de jabuticaba. Quando acordo é terça-feira.

Há dias que penso que tenho as criadas que despedi. Saí ontem procurando por Deodora, mas foi Ignácia que respondeu, dizendo que eu tinha despedido a Dodô havia um tempão atrás. Perguntei quem é que fazia minha comida. Ela só deu risada. Acho que ninguém faz minha comida. De fato, não lembro da última vez que almocei. Mas depois percebo que continuo gordo e cogito que talvez Augusto, o jardineiro, que cozinhe para mim. Perguntei para ele. Ele também riu. Disse que já faz dez anos que não trabalha para mim.

Hoje mesmo, mais cedo, subi a escada vacilante, desviando das goteiras, evitando as tábuas podres. Virei à esquerda, queria entrar no meu quarto, mas acabei no banheiro. Procurei o banheiro querendo encontrar meu quarto, mas encontrei um salão grande e amplo. Tinha um piano que não sei de onde veio. Eu nunca tive um piano. Tudo nessa sala me parecia novo. A sala inclusive me parecia nova. Estudei suas dimensões e tive certeza de era uma sala desconhecida na casa onde moro desde que nasci. Foi pelo armário que reconheci onde estava. Era antigo, de mogno, e sempre ficou no meu quarto do lado esquerdo da cama. Aquela sala onde nunca estive devia ser o quarto onde dormia todos os dias. Abri portas e vi um empilhado de lembrancinhas que sua mãe comprou em suas viagens. Depois, vasculhando gavetas, encontrei cartas antigas das minhas amantes, presentes para sua mãe que já esqueci ter dado e as fotos que nunca quisemos pendurar nas paredes. Entre elas, estavam aqueles daguerreótipos em que sua mãe aparece duplicada, como se conversasse consigo mesma, tirados na época em que, com passos suficientemente rápidos, podia-se enganar os olhos do obturador.

Fiquei olhando essa foto por horas, me lembrando do sorriso brincalhão da sua mãe. Depois, apareceu Dodô e me perguntou o que havia, por que que eu estava mexendo naquelas coisas, por que estava chorando. Fiquei surpreso e a abracei. Sempre gostei muito de Deodora e tinha sido uma péssima ideia demiti-la. Disse isso a ela, “que bom que você voltou”, e ela ficou sem entender. “Escreva para Amália”, ela me disse, “vai te ajudar a pensar melhor.” Então obedeci, sentei e escrevi essas linhas.

Não sei muito bem o que te contar, filha. Aqui todos os dias são sempre iguais. Hoje, por exemplo, foi o dia mais triste de todos, porque escutei no rádio que uma jovem morreu em uma pensão no centro e tive medo de ser você. Só quando vi a foto no jornal que percebi que era a sua mãe. Não pretendo, contudo, continuar te aborrecendo com essas notícias. Só quero saber, minha filha, por que é que você não me escreve mais... Por acaso algum dia eu te magoei?

Me peça o que for que te darei. Menos dinheiro, que não tenho mais.

Do teu pai, que sente muito tua falta.

Li com indiferença essas senilidades do meu pai. Depois, aliviada pelo sentimento de dever cumprido, passei à leitura do texto a respeito do qual estava curiosa de verdade.

Mesmo hoje, distante da materialidade já dissolvida do meu corpo, julgo sentir o aroma poeirento e mistérico daquela página arrancada toda vez que convoco sua textura quebradiça à lembrança da mão.

 

Querida Amália,

Perdoe as condições pouco adequadas dessa carta. Sei que a importância de seu conteúdo merecia um suporte melhor. Como você vai entender ao longo da leitura, não tive tempo nem ocasião de escrever com mais cuidado. Há urgência em minhas palavras.

Estive na presença de sua mãe há poucos instantes. Estava sozinho, em casa, quando ouvi um ruído incomum. Era o suave roçar de um tecido sobre as tábuas da madeira. Ao mesmo tempo, senti uma presença estranhamente agradável, como um calor que me percorria de dentro para fora. A imagem de uma silhueta comprida se afigurou no fundo do corredor, translúcida como folhas de seda. Escutei sua voz rouca me cumprimentar. Seu vestido tinha rendas trabalhadas à mão. Poucas vezes vi o fantasma de alguém na minha frente com tanta clareza e definição.

Recebi-a com tato e delicadeza, como orientam os mestres da doutrina. Disse que era bem-vinda em minha casa e que levaria qualquer mensagem que ela quisesse para os seus na Terra.

O que ela disse me causou um pouco de confusão, mas espero que faça algum sentido para você, a quem a mensagem foi destinada. Sua mãe apenas me pediu: “diga para minha filha que eu nunca a esqueci, sequer por um momento, nesses últimos dez anos”. Assim a escutei, com extraordinária nitidez. Depois a vi, tão claramente quanto surgiu em minha frente, desaparecer em um rastro fantasmagórico, como se nunca tivesse estado a flutuar na minha sala.

Queria reter o máximo possível desse momento memorável. Sei que essas impressões do além-mundo se esvaem tão logo deixamos de sustentá-las conscientemente, como um sonho se perde depressa ao acordar. Por isso saquei o primeiro livro que tinha ao redor e, sem pensar duas vezes, rasguei dele essa página na qual lhe escrevo, com todos os detalhes que pude recordar, essa carta.

É bastante possível, mesmo provável, que sua mãe queira falar com você com mais atenção e demora. Não hesite em passar por aqui se tiver oportunidade. Receberei a senhorita com muito prazer.

Atenciosamente,

Médium do Arpoador

 

Respirei fundo sentindo um incômodo crescer em mim como uma náusea. À contragosto, começava a acreditar nas palavras do Médium. Já punha a página de lado, quando me detive sobre sua superfície quebradiça. Tenho certeza que era uma folha arrancada de um livro, às pressas. Observei a margem irregular da página, a topografia de um rasgo. A página era velha e tinha uma mancha circular que irradiava desde o centro, como uma pedrinha que cai em um rio.

Foi então que vi que havia ainda uma outra correspondência me esperando sobre a bancada. Não era uma carta.

Embalada, em papel cartão, estava uma garrafa. Era uma garrafa de conhaque. Li um pequeno bilhete amarrado ao redor do gargalo:

Bem vinda ao nosso mundo. Acho que, daqui em diante, você vai precisar disso.

Atenciosamente,

Mário Filho

Guardei o bilhete na minha pasta e enfiei a garrafa no fundo do armário.

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Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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