Pular para o conteúdo

Festival de Dança de Londrina 2026 abre com discurso e espetáculo políticos

"A vida é um dia", do Ballet de Londrina, questiona a historiografia oficial para recontar a origem do município. Curadores do festival reforçam necessidade da arte como contestação e resistência

Ballet de Londrina encena "A vida é um dia". Foto: Fábio Alcover
Ballet de Londrina encena "A vida é um dia". Foto: Fábio Alcover
Publicado em:

“Não sei se posso usar a palavra chocado. A narrativa começou de uma maneira e terminou de outra, muito reveladora. No final do estáculo a gente começa a repensar as narrativas que têm na nossa história, aquele engessamento com o qual estamos acostumados, as repetições das histórias contadas... Poder ver e ouvir, e ter essa visão da dança no palco – essas duas linguagens juntas – foi muito forte”.

Assim o fotógrafo Rei Santos saiu do Teatro Ouro Verde na noite de ontem, 23 de outubro, quando aconteceu a abertura do Festival de Dança de Londrina 2026. Na plateia, estavam mais de 600 pessoas. Após uma breve cerimônia, com falas de autoridades, o Ballet de Londrina abriu o festival com o espetáculo “A vida é um dia”, montagem baseada na obra homônima de Renato Forin Jr., que também assina a direção artística, e coreografia de Alex Soares. Uma das estreias mais reverenciadas da trajetória da companhia em seus mais de trinta anos de atividade.

“A vida é um dia” convida o público a revisitar a historiografia oficial de Londrina a partir da trajetória de uma senhora, quase centenária, num leito de UTI em meio à pandemia da covid-19. Entre recordações e alucinações, ela caminha regressivamente para outras épocas de sua vida, como o momento áureo da vanguarda artística, a geada de 1975 até chegar ao processo da colonização.

Público lotou o Teatro Ouro Verde. Foto: Fábio Alcover
Público lotou o Teatro Ouro Verde. Foto: Fábio Alcover

A ex-vereadora e ex-deputada londrinense Elza Correia saiu do teatro comovida e impressionada. “Impressionada com a qualidade técnica e, especialmente, com a forma como foi colocada essa história. É preciso a gente conhecer profundamente para não sair por aí comemorando e homenageando de forma equivocada. Acho que essa é a Londrina que todo mundo precisa conhecer”, pontua.

Para a vereadora Lenir de Assis, o espetáculo dialoga com o momento político atual. “É isso que a arte proiduz, por isso ela é criminalizada. O que vimos aqui hoje nesse estáculo extradordinário motra a história da cidade que vive no apagamento. E aqueles corpos que forma abatidos na peça que nós vimos hoje – seja corpos de árvores, seja de indígenas, de mulheres – continuam hoje sendo, pela opressão, pela homofobia, pelo racismo, pelo fascismo. E isso é política”, avalia.

Resgate histórico

No palco, um vestido branco passeia pelos corpos das bailarinas. Representa mais que um pedaço de pano, ele guia o público pela história da protagonista, muito mais que uma única mulher, mas mulheres, múltiplas, Londrinas. Na narração, o criador Renato Forin Jr. conduz a narrativa.

Renato (ao centro), Alex Soares e o maestro da Orquestra Bravi junto com o corpo de bailarinos. Foto: Fábio Alcover
Renato (ao centro), Alex Soares e o maestro da Orquestra Bravi junto com o corpo de bailarinos. Foto: Fábio Alcover

“A vida é um dia” revisita a historiografia oficial do município para lembrar que esse lugar não era um vazio demográfico. Lembrar que a história contada pelo opressor tenta apagar a história que já se desenrolava nessas terras, uma verdadeira babel, expressa na cena do casamento montada no palco.

O músico Breno Castelo Branco precisou assistir uma segunda vez a montagem para absorver. Ele esteve presente na estreia, em agosto, e retornou ontem, na abertura do festival. “É sempre um impacto, sempre inovador. Porque foi assim e a gente precisa, diariamente, cotidianamente, lembrar que foi assim. E a partir desse lugar construir o nosso hoje e o nosso amanhã. Mais do que dialogar com o momento político atual, o espetáculo dialoga com a nossa vida pessoal, cotidiana. Acho que esse é o ponto mais importante”, acredita.

Os amigos Rei Santos e Breno Castelo Branco. Foto: Fábio Alcover
Os amigos Rei Santos e Breno Castelo Branco. Foto: Fábio Alcover

Cerimônia de abertura

O cerimonial de abertura do festival foi conduzido pela coordenadora geral do festival, Danieli Pereira, e contou com falas do secretário municipal de cultura, Marcos Antonio Castri, conhecido como Marcão Kareca, do vice-reitor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), administradora do teatro, Miguel Belinati Piccirillo, e do coordenador de comunicação e curador do festival, Renato Forin Jr.. Em sua fala, o secretário destacou a importância do financiamento público para a área cultural.

“Nós [administração municipal] retornamos com a maioria dos festivais. Fizemos questão de sermos patrocinadores também desse festival, por entendermos a importância da arte e da cultura. A dança salva, a dança aproxima, a dança é política pública e estrutural”, declarou. O vice-reitor lembrou que apoiar a cultura e a arte estão no cerne do trabalho da instituição de ensino.

“Para nós, da UEL, é um orgulho poder sediar um festival dessa magnitude, que tem repercussao não só local, mas nacional e internacional. Promover e apoiar eventos culturais está na origem, na finalidade primária da nossa universidade. Muitos jovens têm um primeiro contato com a arte e a cultura aqui nos nossos festivais, especialmente no nosso Ouro Verde, e que isso possa continuar por muitos anos”.

Danieli Pereira, coordenadora geral do festival. Foto: Fábio Alcover
Danieli Pereira, coordenadora geral do festival. Foto: Fábio Alcover

Forin Jr. leu o manifesto do Festival de Dança de Londrina 2026, intitulado “Dançar, agir, pensar a golpes de martelo”, que reforça a importância de tomarmos decisões acertadas e que não comprometam o futuro de gerações. Alertou que as frases “Nunca o agora foi tão urgente. Porque a reconstrução dos destroços de uma decisão impensada pode levar décadas das nossas vidas, séculos das nossas gerações.”, que abrem o manifesto, serão repetidas ao longo de todo o festival, na vinheta, dada sua importância.

“Dancemos, pois, como quem usa o martelo para rasgar frestas de luz nos blocos de hegemonia. Dancemos para descobrir atalhos de beleza na transversal das velhas estradas. Dancemos para fazer rir ou irritar os ressentidos. Dancemos para tilintar sutilmente corpos inócuos, barulhentos. Dancemos para revolucionar o movimento utilitário que nos ensinaram desde o nascimento. Dancemos para reaprender a viver. Outras formas de vida – todas possíveis, quando não há censura, totalitarismo, intolerância.”, acrescentou.

O Festival de Dança de Londrina tem coordenação geral de Danieli Pereira e curadoria dividida com Renato Forin Jr., também coordenador de comunicação. O Festival é uma produção da APD – Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná, com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura – Prefeitura Municipal de Londrina. Também é fruto de projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura – Governo do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Ministério da Cultura – Governo Federal, e realização da HotMilk e PUC-PR. O apoio é da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina.

Newsletter

O que fazer em Curitiba neste fim de semana

Escolhido por gente que mora aqui. Toda quinta, no seu e-mail.

Sem spam. Você pode cancelar quando quiser.

Falta um passo

Enviamos um link para o seu e-mail. Clique nele para confirmar o cadastro.

Não conseguimos concluir agora. Tente de novo em instantes.

Cecília França

Cecília França

Jornalista há 20 anos, é especialista em Direitos Humanos.

Todas as reportagens

Mais em cultura

Ver todos

Mais de Cecília França

Ver todos