Bio: lógica, bio: gráfica | Plural
3 set 2019 - 21h55

Bio: lógica, bio: gráfica

O que me levou a falar da vida foi a ponta dupla do novelo que trata de duas palavras: biológico e biográfico

É manhã de segunda-feira quando escrevo isso aqui. Esse fato talvez me defenda da sugestão de que escrevo com um algum nível de álcool na cabeça. O domingo já se foi, o vinho se acomodou e se distribuiu pelo corpo, liberou seu resveratrol, contribuiu com o coração mesmo aumentando um pouco a pressão, algo virou rejeito e foi eliminado, não sem antes ter se manifestado em palavras soltas, conexões diferentes entre ideias, até tudo se estabilizar na homeostase da rotina dos dias-feiras.

De modo que vou arriscar falar da vida completamente sóbrio – em que pese ser um tema muito reservado (se for gran reserva, tanto melhor) aos bebuns. A vergonha que porventura eu vá passar não pode ser imputada ao vinho, nem posso dizer que escrevi enquanto abraçava amigos e berrava que isso não impede queu repita, é bunita, é bunita e é bunita.

Eu fico aqui reinventando a roda, mas quando a reinvenção é feita por nós mesmos, o modo como ela se agarra à gente é diferente, não bastando apenas ler os outros, embora seja essencial. Meio como andar de bicicleta andando de bicicleta e não só vendo vídeo no youtube, como jogar futebol e não ficar só xingando os pernas de pau na tv, ah, que os cara ganham o que ganham pra dar chutão?

O que me chamou a atenção para falar da vida foi a ponta dupla do novelo que trata de duas palavras tão distintas quanto relacionadas: o biológico e o biográfico. Em ambas, a vida, a bio. Entre o lógico e o gráfico, pontes, claro, mas só há pontes porque sob elas há vãos, desvãos, abismos.

Depois de umas quarenta semanas de apneia, depois do nhé inaugural, quando os pulmões fazem sua estreia no mundo, basta encostar um mamilo suculento na boca do bebê e ele sabe o que fazer – ok, não é grande coisa, os outros animais já saem andando, só faltam falar. Só faltam falar. Mas o bebê não foi muito ensinado a agarrar o mamilo, a sugar, a extrair um alimento. Não existe um logos ali, mas existe uma lógica: fome ® seio. Sede ® seio. Carinho? ® seio? Desconforto? ® seio? Desamparo? ® seio? Angústia? ® seio? No seio, o signo que começa a separar biológico e biográfico.

Cabe falar em instinto humano da mesma forma como nos outros animais? Depois de vir ao mundo embebido de líquidos sanguíneos e placentários e ser lavado pelo líquido da banheira logo a seguir, assim como vestido com as roupas de tricô feitas pela vovó, o bebê imediatamente (sem mediações intrauterinas) começa a também receber seu banho de linguagem e a ser vestido por palavras. Se o sabonetinho e o xampuzinho neutros lavam superfícies côncavas e convexas, as palavras – nada neutras – também vão banhando e vestindo o serzinho em suas dobras. O que era vida nua nunca mais o será, a vida vai ser banhada e vestida até a morte. A palavra se escreve até se inscrever, e eis que estamos no terreno do gráfico, do biográfico. A fotografia é a sensibilização que a luz grava em uma superfície. E a biografia? Do que é feita a grafia da tua vida? Qual é, portanto, a tua biografia?

Sabemos, temos um corpo funcionando melhor em uns, pior em outros, mas com sinapses, batimentos cardíacos, pressão arterial, respiração, metabolismos. Somos até que mais ou menos comuns. Porém, o que foi escrito em nós determina muito o nosso papel, sua gramatura, textura, capacidade de absorver tintas e talhos, relevos e pontuações. O bebê já não procura mais o peito seio-signo só com a lógica reta e direta da alimentação. Ele deriva – e o que é mesmo ficar à deriva? –, ele erra – errante –, ele vagueia em busca de algo que não saberá nomear, mas cuja nomeação foi se inscrevendo nele: mesmo satisfeito na lógica da bio, o bebê continua buscando algo ali, satisfações de outra ordem, não sendo mais conduzido por um duto único (conduto), mas seduzido (desviado da conduta) por inscrições singulares de gestos acompanhados de palavras. Falando assim, até parece que a distinção é simples e clara, mas pensei, por exemplo, no peso do nosso corpo. O que há de biológico, o que de biográfico? Comer é ato biológico, já assaltar a geladeira na madrugada sombria é biográfico. Fazer xixi é biológico? Golden shower é biográfico. Reproduzir é biológico? O modo de despir e ver um corpo nu é biográfico, o desejo de ter um filho também. O curso do sangue nas veias é biológico – o estímulo de um susto ativa o sistema nervoso central, libera hormônios, bombeia mais rápido o coração –, mas o curso do discurso inscreve histórias que podem fazer o coração disparar por uma fobia inexplicável diante de um cãozinho inofensivo. Assim, coração acelerado por um susto é biológico? Taquicardia depois de olhar olhos oceânicos é biográfico. Sou alto? Biológico. Medo de altura? Biográfico. Olhos castanhos? Biológico. Teu olhar me desmonta? Biográfico. Pé 42? Biológico. Não sei para onde vou? Biográfico. Dois graus de miopia? Biológico. Algo me enche os olhos? Biográfico. Tenho audição boa? Biológico. Vontade de chorar ouvindo Jovanotti cantando “Chiaro di luna”? Biográfico.

Caetano Veloso: “a tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça” e escreve a minha biografia, o que está longe de dizer que sou só – mas sou também – colagem da presença dos outros. A palavra do Outro, que me divide, gera aquilo que vamos chamar de subjetividade: o discurso se inscreve, bate em nós, reverbera e afeta nossa rede de representações, tudo está no modo até como tempos depois lutamos para descolar identificações e retificar nossa subjetividade, para usar um jargão psicanalítico.

Eu não sei se no vinho está a verdade (in vino veritas), mas sei que é um bom momento para vermos o biológico e o biográfico conversando, agindo contra ou a favor de um eu que, como dizia Freud, não é senhor nem em sua própria morada, ou como diria anos depois Jacques Lacan, revirando Descartes: um sujeito que existe lá onde não pensa. As urdiduras inscritas dificilmente vêm à tona, temos nossas barreiras de inibições e recalques, que vão aparecendo somente como migalhas jogadas pelo caminho da fala – que os passarinhos ainda por cima podem comer –, nos atos-falhos que rapidamente corrigimos, nas brincadeirinhas que sempre afirmamos serem só brincadeirinhas, nos sonhos que depois julgamos sem pé nem cabeça, essas cartas que, de novo Freud, mandamos a nós mesmos todas as noites e quase nunca abrimos.

Nada do que digo é novo, há prováveis erros conceituais lógicos e gráficos, mas essa é a reinvenção de que sou capaz hoje. Como nada do que dizemos vem desacompanhado, termino com Cecília Meireles:

“Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada”.

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