14 jun 2021 - 7h00

Dolorosas recordações

Será a voz escrava saindo de dentro de um livro de história ou o capataz torturando-a? É a voz de um “índio” gritando socorro, um socorro tão longe, longo e profundo que não consigo ouvir e/ou compreender? Serão as vozes dos assassinados da favela do Jacarezinho?

Nada escrevo sem “inspiração”. Ou será estado de espírito?

Para escrever preciso de silêncio dentro de casa, já dentro de mim preciso de alguma agitação.

No silêncio e em silêncio – ouvindo minhas agitações – sento-me frente ao computador para começar a passá-las no papel. No papel?

Computador ligado, alongo os braços, exercito os dedos e assim que me “debruço” sobre o teclado começo a ouvir vozes.

De onde vem?

Olho ao redor e não vejo ninguém. Estou só na biblioteca.

O texto que havia na minha cabeça, diria a inspiração, começou a ficar submerso às vozes e num passe de mágica desapareceu.

Interrompida a “inspiração”, desaparecida a ideia original da crônica, veio o vazio e a pergunta: o que fazer?

Certo que muita gente já perguntou “o que fazer”, inclusive Lênin e antes dele Nicolai Tchernychevskii, e para responder, cada qual escreveu um livro.

Minha necessidade é só uma crônica.

Sentado, na frente do computador, olho para os livros na prateleira em frente a procura do dono da voz.

Será que é um personagem de algum romance ou um poeta cuja alma e/ou espírito inspirados procura um lápis ou uma caneta e papel para escrever um verso, um soneto ou um poema?

“Assustado”, continuo me interrogando: será a voz escrava saindo de dentro de um livro de história ou o capataz torturando-a? É a voz de um “índio” gritando socorro, um socorro tão longe, longo e profundo que não consigo ouvir e compreender?

Serão as vozes dos assassinados da favela do Jacarezinho?

Numa rara alegria imagino que pode ser a voz que vai me ditar a crônica ou um artigo ou um poema. A alegria durou o tempo do segundo pensamento.

Procuro, com os olhos, entre as lombadas dos livros de onde vem a voz. São tantas as lombadas e a voz – tenho a impressão – muda de lugar, foge dos meus olhos, engana meus ouvidos e logo – por não entender o que diz – penso ser um francês: Sartre?

Que alegria!

Sartre tentando se comunicar comigo. É só imaginação. Delírio?

Não sou kardecista.

Presto atenção. Não, não é francês. A voz vem de duas prateleiras abaixo.

É japonês?

Será o Musashi?

Vai me ensinar o que é ser um samurai?

Será que é Gabriel García Márquez, que dentro dos seus Cem Anos de Solidão busca algum conforto?

Procuro entre alguns livros – comprados em sebos – usados qual deles pode estar falando comigo.

Pode ser uma alma “penada” pelo uso indevido do livro. Imagino que pode ser a voz do antigo dono ou de algum personagem que se sentiu traído, abandonado e reclama do ambiente em que se encontra.

Sei que o ambiente aqui de casa não é o adequado. Sei que não dou tudo de mim – enquanto eles estão ali ao meu inteiro dispor – aos livros e aos seus personagens.

Prometo-me a dar mais atenção aos livros, porém no momento dou mais atenção à voz.

Opa! São duas vozes. Agora surgiu uma voz feminina. Paro de digitar e no silêncio das teclas observo ser um diálogo. Diálogo em voz baixa que não compreendo. Não entendo.

Nas prateleiras, os livros – organização pessoal, sem conhecimento de como se organiza uma biblioteca – estão perfilados por temas e para separá-los coloco algumas bonecas/moças ou moços/bonecos de cerâmica. Será que na solidão do dia-noite ganharam voz e estão em algum – por não notarem a minha presença – diálogo amoroso?

Fico com pena. Se for isso, será namoro infrutífero, sem encontro, a menos que eu comovido pelo clamor deste diálogo – caso entenda-o – coloque-os lado a lado.

Imagino-os lado a lado na solidão das noites o que podem fazer.

Depende da idade e do período em que vivem. Alguns terão relações de amor à moda antiga: recatadamente sentados e mantendo distância vigiada. Outros casais serão mais ousados: abraços, beijos e quiçá, longe dos meus olhos alguma relação sexual.

Enquanto escrevia imaginei o romance da moça/boneca da saia rendada e rodada com o músico do violoncelo. Ela mais moderna e ele mais antiquado: que relação seria?

As vozes persistem e eu persisto em descobrir quem fala. Deve ser a voz de alguma dedicatória protestando por ter ido parar num sebo e numa situação constrangedora de liquidação porque o sebo vai fechar.

Abandonado da casa materna/paterna foi parar num respeitável sebo, que em dificuldades financeiras colocou-o numa promoção.

Comprei-o e até agora ela, [a dedicatória] não se conforma por ter passado por um sebo e por eu não dar a devida atenção.

Na procura de onde vinham as vozes: encontrei uma dedicatória – num livro usado – que me pediu para não fazer qualquer referência a ela.

Disse-me que foi parar num sebo contra sua vontade. Dito isso, com a voz triste acrescentou: “são dolorosas recordações”.

Pela tristeza na voz imaginei uma lágrima escorrendo pela página do livro.


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