A crônica não mata – Parte 5 | Jornal Plural
9 jun 2021 - 7h00

A crônica não mata – Parte 5

Um escritor que enxergasse no escuro seria, no Brasil de 2021, um autêntico farol

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Antes eu não ouvia nada. Hoje é o contrário. Escuto tudo. As tevês da vizinhança, ligadas até de manhã. As conversas furtivas ao celular, os encontros online. Os passos e as quedas, as portas que rangem. Um gemido de dor, um acesso de espirros. Às vezes ouço risadas, uma discussão, raramente uma briga séria. O choro de um bebê e, depois, o de uma mulher. À medida que minha insônia se adensa, as paredes do meu prédio vão se afinando. Ou sempre foram assim, paredes de papel, e o que mudou é que, agora, todo mundo está acordado.

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Ao menos tenho companhia na madrugada. Não falo de meus vizinhos insones, mas de minhas gatas pretas. As duas me recebem na sala com perplexidade e alegria. É como se ao me verem ali, desperto, de repente se dessem conta de uma verdade revigorante: “Ele é um de nós”. Me seguem para onde quer que eu me arraste. “Veja”, diz uma gata, “ele também se move pela casa quieta e vazia, entregue a seus trabalhos secretos. Ele também se deita no chão duro, também se posta interrogativamente à janela e vigia os pontos móveis de luz lá fora”. Excitada, a outra gata concorda, embora se pergunte: “Mas será que, assim como nós, também enxerga no escuro?”

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Um escritor que enxergasse no escuro seria, no Brasil de 2021, um autêntico farol. O cronista, no entanto, dispõe apenas de uma caixinha de fósforos umedecida. Dá para o gasto, mas é preciso economizar.

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Aproveito a madrugada para sair do país. Ponho os fones de ouvido. Decido ouvir uma ópera que nunca ouvi antes: Un Ballo in Maschera, de Verdi. É sobre um rei sueco, morto com um tiro nas costas, num baile mascarado. Para não desagradar Napoleão III, porém, Verdi preferiu transferir a ação dramática para Boston, rebaixando seu protagonista a governador. Leio o libreto enquanto escuto a gravação, vai que aprendo alguma coisa de italiano? Depois parto para uma leitura leve, dois ou três contos do Simenon. Talvez o laconismo do comissário Maigret possa fazer bem a um cronista ansioso. Funciona. Poucas páginas mais tarde, já me sinto melhor. Volto aos fones, coloco a peça 4’33”, de John Cage, e afundo no silêncio das minhas próprias ideias.

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Um dia John Cage visitou a câmara anecoica da Universidade de Harvard, planejando vivenciar uma experiência de silêncio absoluto. Não conseguiu. Lá dentro, mesmo isolado do mundo externo, continuava a perceber dois sons bastante distintos, um grave e outro agudo. O engenheiro que o acompanhava explicou: o som agudo vinha do seu sistema nervoso em atividade; o grave era o seu sangue circulando. Justamente o que ocorre comigo durante minhas crises de insônia. Meu coração pulsa forte em meu ouvido, num zumbido ritmado, exasperante. Mas só no ouvido direito. Ao menos fosse em estéreo…

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Imagino uma versão brasileira das sonatas para piano preparado, de John Cage. Em vez das porcas, dos parafusos e dos pregos cuidadosamente dispostos pelo compositor por entre as cordas do instrumento, seriam cartuchos e mais cartuchos de munição, despejados sem qualquer capricho no interior da caixa de ressonância, todos vibrando ao toque desinteressado de milhões de mãos sujas.

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A crônica não mata, mas não consegue esconder nossa paixão pelas grandes matanças. Leio no jornal que os rebanhos de bisões do Grand Canyon cresceram demais nos últimos anos. Eles já somam 600 cabeças, quando o ideal seria que não ultrapassassem as 200. Para evitar um desastre ambiental, portanto, o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos convocou um verdadeiro exército de voluntários profissionais, capazes de exterminar tal excedente da forma mais limpa e econômica possível. Em dois dias, 45 mil pessoas se inscreveram para o processo de seleção. Desse montante serão escolhidos doze caçadores de elite, sendo que cada um comandará uma equipe de outros tantos matadores premiados, o que nos permite afirmar com segurança que, em breve, 400 bisões estarão mortos e esfolados, ao passo que seu habitat, graças ao sempre eficiente empenho humano, estará novamente a salvo.

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A noite não acaba. Na internet, procuro imagens da Caverna de Lascaux. Encontro lindos rebanhos de centenas de bisões, concebidos por artistas anônimos de quase 20 mil anos atrás. Um desses animais ataca um homem que parece desmaiar. Cai de costas, amedrontado, ao mesmo tempo em que exibe à posteridade uma intrigante e despropositada ereção, que já dura 200 séculos. Num site do Ministério da Cultura francês, descubro que também é possível explorar a gruta virtualmente. Aciono a câmera e avanço pedra abaixo, com suavidade, por entre cavalos, cervos, auroques e mamutes subterrâneos, pintados em marrom e amarelo, vermelho e carvão. Meu prédio, enquanto isso, vai se aquietando. Todos dormem, resta só uma ou outra tevê falando sozinha. Aos poucos, estou mais relaxado. Penso que este é mesmo um excelente modo de enfrentar a madrugada: desbravando outra caverna, debaixo da terra, fora de mim.       

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Adormeço na poltrona. Sonho que estou de pé, num ônibus lotado, a caminho da casa de meus pais, no Capão Raso. Nunca chego. É um pesadelo recorrente. O ônibus nunca para, jamais consigo me aproximar da porta, não alcanço a campainha, a canaleta do expresso é infinita. Todos usam máscaras frouxas, de pano. Menos eu. Meu rosto está nu, e minha nudez é como uma sentença de morte.

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Acordo ao som de gritos, pancadas, engrenagens, correntes que se entrechocam. Ruge o motor de um caminhão. São os peões que vêm recolher na Faivre, às cinco da manhã, a caçamba de caliça do prédio vizinho, que está passando por intensas reformas. De onde vem a alegria e a disposição desses homens? Por que gritam? Se parecem com piratas de musical. A tripulação de um futuro navio fantasma. Cantam, com sotaque germânico: “Johohoe! Johohohoe!” Ou será que ainda estou sonhando, e o pesadelo já contamina a alvorada?

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As gatas percebem a chegada do sol antes de mim. Sobem nas prateleiras mais altas do apartamento e, por entre os livros, admiram a Serra do Mar e o céu rosado por trás daquelas montanhas. Uma curicaca — que não devia estar aqui, e sim em campo aberto — gargalha numa araucária próxima. Seu canto me faz lembrar da “risata” de Riccardo, o governador que protagoniza a ópera de Verdi ouvida horas antes. No primeiro ato, ao tomar conhecimento de uma profecia que prevê seu assassinato, Riccardo apenas ri e canta: “Isso é piada ou loucura”. No terceiro ato, no entanto, antes do fim do baile mascarado, o grande homem já estará morto.


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