Super Trump | Plural
13 fev 2020 - 21h00

Super Trump

Um ícone da cultura popular americana busca sua reeleição

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, poucos americanos foram tão famosos  quanto Donald Trump e Michael Jackson. Sem exageros, eles foram os reis da extravagante cultura pop americana. A imagem de Trump desde aqueles anos é vista e consumida até hoje em revistas, jornais, desenhos animados, comics, documentários, reality shows, brinquedos, entrevistas, filmes, stand-ups, camisetas, bonés, outdoors, livros, na calçada da fama, na música e agora em todas as paredes dos prédios públicos em todo os Estados Unidos.

Um exemplo de sua forte influência na cultura americana foi demostrado na pesquisa feita pelo Chicago Tribune no ano passado: 266 músicas desde o início da história do hip hop citavam o nome do atual presidente dos Estados Unidos. Donald John Trump está em todos os lugares da América.

Hoje, para ódio de Nancy Pelosi, sua inimiga pública número 1, Trump é a personalidade mais popular da política americana desde John Kennedy. Vale lembrar que Kennedy tinha estilo, Cuba, berço e Marilyn Monroe. Trump tem deselegância, Irã, fortuna e Stormy Daniels, uma também estrela de cinema…pornô.  

Como os grandes pops stars do século 20, casou-se várias vezes e sempre com modelos: Ivana Zelnicková, Marla Maples e Melania Knauss. Gosta tanto de modelos que detém os direitos de organização e vendas dos concursos Miss América e Miss Universo. Ao mesmo tempo é um produtor de frases infelizes para com as “mulheres comuns”. Um machista de décima potência.

O homem é um tubarão branco da autopromoção na maior fabricante de cultura de massa mundial. Ele conhece os códigos e caminhos para chegar aonde deseja, e desde muito jovem sabe que uma comunicação eficaz precisa ser performática. Ele é quase uma mídia em si, sendo o produtor de suas próprias notícias.

Desde seu cabelo “arquitetônico”, passando pela cor de pele alaranjada e finalizando com expressões faciais “riquíssimas”, tudo em Trump chama a atenção. Um debochado que é exímio no palco do poder.

Como qualquer líder populista, gosta de relações diretas, sem filtros com o povo. É possível catalogá-lo como um animal social agressivo que desempenha muito bem seus papéis (empresário, pop star, marido, pai e presidente), tendo como seu único objetivo ter prazer “pela caçada” por mais plateias. Obcecado, aprimora em cada década sua performance artística. Ele tem gozos narcísicos diários.

Há três anos no topo da exposição global, ele continua “inquieto”. As quebras de decoro são constantes: frases infelizes, grosserias com adversários políticos, desdém pelas regras diplomáticas, quebra de contratos. Um verdadeiro revisionista das prioridades do sistema político americano. Possui um pensamento dicotômico, pondo força na polarização da sociedade, para reinar com mais conforto: “se não é amigo da América, então é seu inimigo”, ou “se não for patriota, não serve para a América”.

Devido sua escassez de polidez e empatia, Trump não é afeito à “conversas bilaterais” com a ala intelectual e artística americana, tendo o receio de ouvir “dissabores” e ser exposto perante os mais preparados no que tange o pensamento e a inteligência emocional. Em hipótese alguma pode ser contrariado, sob risco de agressões verbais ecoarem pelo ambiente. Também não gosta de coletiva de impressa. Perguntas em público nem pensar, preferindo receber jornalista individualmente, assim consegue controlar a comunicação.

É notória sua impaciência durante uma longa conversa que não envolva necessariamente uma negociação como objetivo. Aparentemente não se abala com nada, nem mesmo o processo de impeachment aberto pela Câmara dos Deputados o fez diminuir a suprema autoconfiança.

Graças à sua forma “direta e franca” de comunicação durante a campanha de 2016, tocou pesado na frustração do trabalhador americano, que naquela altura de sua vida, não aguentava mais retóricas sofisticadas e impraticáveis: queria emprego, consumo e conforto. O american way of life. Sua política econômica fez de Trump o “defensor” dos cidadãos negligenciados pelo governo Obama. Os interesses da América estarão sempre em primeiro lugar.

Segundo a BBC, o PIB americano em 2019 tinha superando marcas históricas das décadas de 1950 e 1960, quando a economia americana crescia mais do que soma do PIB de todos os países do Ocidente juntos. Em seu discurso nas Nações Unidas, Trump destacou que o desemprego nos Estados Unidos se encontra no menor patamar em meio século e que, nos últimos três anos da sua administração, 6 milhões de americanos conseguiram voltar para o mercado de trabalho até o presente momento.

Para vencer uma eleição presidencial na América é necessário ter uma presença de palco no mínimo confiante. Quem não consegue ser um entertainer cai rapidinho. O simpático Barack Obama, cantou, dançou, fez piadas e tudo mais. Ele foi o político escolhido quase por unanimidade pelo establishment cultural americano, e isso tem um peso gigantesco na cabeça do americano médio. Já o antipático Trump desdenhou adversários, foi grosso com crianças e adultos em seus discursos, fez muitas caretas e, claro, disse piadas impublicáveis. Agora, o seu pulo do gato foi dizer durante a campanha que “a América não pode mais aceitar políticos que falam demais e fazem pouco. O período da fala vazia acabou”.

Um exemplo recente de que a “fala vazia acabou” foi a sua ordem de pulverizar o general terrorista iraniano Qassim Suleimani. Ele fez o “trabalho sujo” que outros países poderosos não tiveram coragem de fazer.  A política externa americana é de uma arrogância histórica, e com o atual presidente afirmando sem pudor nem constrangimento seu poder de “dissuasão”.

Na mesma medida em que atiça seus críticos, sua postura lhe rende elogios entre seus apoiadores, para quem Trump apenas “diz as coisas como elas são”. Segundo eles, ao se posicionar sobre os mais variados assuntos, o presidente não se curva às sensibilidades e patrulhas linguísticas (ou melhor, ao politicamente correto). Garantir sua reeleição é o objetivo.

A revista Time em 2016 o elegeu como a personalidade do ano. Na mesma edição, a publicação fez uma pergunta: “Trump fez o mundo ficar melhor ou pior?” Se ele tem ou não a capacidade de compreender os protocolos da política interna de seu país e do jogo geopolítico mundial, pouco importa nesse momento para o seu eleitorado e indecisos. A melhora continua do poder aquisitivo de bens e consumo é o que interessa para eles.

É bem possível que seu reinado continue até 2024.

Até a semana que vem!

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