4 mar 2022 - 17h51

Qual a melhor tradução de Crime e Castigo?

No caso específico de Dostoiévski, as primeiras edições do autor russo no Brasil foram feitas a partir de uma terceira língua, que servia de “ponte”, como espanhol, francês e o inglês

“A ação se passa no tempo atual. Um estudante, expulso da universidade, pequeno-burguês de origem (…) resolve matar uma velha que empresta dinheiro a juros.”

Dostoiévski, em carta, 1859.

O texto de hoje não será sobre um lançamento ou sobre um autor em particular e sim sobre alguns aspectos das traduções. Mas, para não perdermos de vista o assunto, eu escolhi Crime de Castigo, de Dostoiévski, que resolvi reler nas férias, depois de muitos anos da primeira leitura.

Para falar disso tudo, eu preciso fazer uma introdução, que talvez seja um pouco cansativa e por isso peço paciência ao leitor. A tradução é um “problema” desde a Antiguidade. Líderes sumérios e egípcios da Antiguidade mantinham sábios tradutores em seus palácios. Era um modo de ter contato com o amigo/inimigo. Isso ocorreu na China antiga, no período das “descobertas” europeias, na colonização, na Guerra Fria. A tradução é uma necessidade.

Mas quando falamos em tradução, em verdade falamos não apenas de um tipo de tradução, de uma língua original e de uma língua de recepção e vice-versa. No caso das traduções filosóficas, das religiosas e das literárias, a questão é bem mais complexa. Como traduzir, por exemplo, um livro sagrado médio-oriental para uma língua que em que não existe a concepção de “Deus” ou de “ressureição” ou mesmo de “dilúvio”?

No geral, a primeira situação que vem à cabeça dos leigos é a escrita, mas a escrita é um problema menor quando surgem os conceitos.  “Traduzir”— outro exemplo –  a escrita egípcia da décima oitava dinastia é um problema, mas com certeza traduzir o conceito de “maat” para qualquer idioma ocidental é um problema muito maior. Tal conceito não existe em nenhuma outra língua. Então, precisa ser explicado, “traduzido” num outro patamar, com outros recursos linguísticos.

Fiódor Dostoiévski. Foto: reprodução.

Digamos que, em termos de tradução, temos duas situações a serem enfrentadas, para além do sistema de escrita: um sistema, uma estrutura linguística, e uma rede de discursos. Não se deve deixar de lado, por óbvio, que ambas caminham juntas. A questão é complexa mesmo e aqui não teria espaço para dissertar sobre tudo isso. Até mesmo o exemplo de “maat” acima gera toda uma controvérsia no seio da Linguística eu não nasceu agora. Só devo lembrar que a tradução é algo tão emblemático da nossa construção histórica como sociedade(s) que desde a própria invenção da escrita ela acaba aparecendo como mito, como fantasma ou como metáfora, seja do entendimento, seja da falta dele.

No caso específico de Dostoiévski, as primeiras edições do autor russo no Brasil foram feitas a partir de uma terceira língua, que servia de “ponte”. E isso não ocorreu apenas com Dostoiévski, claro. As línguas-ponte mais comuns no Brasil foram o espanhol (pela proximidade linguística e pelo fato de os espanhóis investirem em traduções), o francês (durante décadas uma língua de difusão cultural, sendo até os anos 1970 ensinada mal e parcamente nas escolas brasileiras, antes do inglês) e o inglês (por motivos de domínio cultural mesmo). Famosos escritores brasileiros “traduziram” grandes escritores mundiais a partir de uma terceira língua. Por vezes, os tradutores faziam cotejo de diversas traduções para outros idiomas até chegarem a uma “tradução” para o português. Como o russo, o japonês, o chinês, o húngaro, por exemplo, não são línguas muito difundidas no Brasil (a despeito de termos uma grande comunidade de descendentes japoneses), então o jeito era traduzir de uma língua em que já houvesse tradução do escritor que queríamos publicar.

E até hoje, quando não encontramos um autor distante para ler em português, o jeito é lê-lo numa língua próxima. Já falei aqui que os argentinos são os primeiros a traduzir Murakami… e assim a coisa caminha.

Então Dostoiévski demorou um tantinho a chegar ao Brasil com traduções diretas do russo. Não bastava alguém que lesse em russo. Era necessário um tradutor, que conhecesse o russo, e não só isso. Que conseguisse trazer para a língua de recepção, no caso o português, os jogos verbais, as frases entrecortadas, as imensas construções sintáticas, a ironia, os nomes inventados, enfim, toda magnitude de Dostoiévski. O trabalho de cada tradutor não é fácil – e no caso de escritores como Dostoiévski é hercúleo. Valeria lembrar que não se trata de um escritor do século XX e que seria importante tanto o conhecimento “da época linguística” de Dostoiévski quanto a capacidade de “traduzir” o escritor para uma linguagem do século XXI.

As primeiras versões diretas do russo apareceram no final do século XX, mas agora temos edições revisadas, algumas vinte ou mais anos depois da primeira, e versões de tradutores que não apenas conhecem o russo profundamente como conhecem a teoria linguística que embasa um trabalho de tradução.

Para você que me segue, eu comparei diversas traduções de Crime e Castigo e escolhi as duas melhores disponíveis no mercado brasileiro: a tradução de Paulo Bezerra e a tradução de Rubens Figueiredo. E, agora, o mais complexo: dentre as duas melhores, escolher uma: eu escolheria a do Paulo Bezerra e explico o motivo. Bezerra traduz obras técnicas e os comentários nas notas de rodapé são interessantíssimos, de um grande estudioso

Caso você opte pela compra de um dos tradutores citados, a tradução de Paulo Bezerra é a da Editora 34. Já a tradução de Rubens Figueiredo (com uma capa para lá de discutível) é da Todavia.

Sobre Crime e Castigo, o que eu teria para falar depois dos comentários dos dois tradutores? Não muita coisa. Como leitor, eu prefiro Os irmãos Karamazov, mas isso é coisa de amante da leitura. Escolha você a sua! Mas não deixe de ler Dostoiévski.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

20 comentários sobre “Qual a melhor tradução de Crime e Castigo?

  1. Muito interessante seu comentário a respeito das traduções literárias caro Benedito Costa. Lendo, recordei de conversas que tive lá nos anos noventa com o Sr. José Eugênio Ghignone ( filho do fundador, o Sr. João Ghignone ) na tradicional e simpática Livraria Ghignone , na Rua XV de Novembro. O Sr. José era bem objetivo e deixava claro a importância de se conhecer melhor de onde era traduzido e quem era o tradutor da obra que a gente escolhia . Lembro que me mostrou vários bons e maus exemplos de traduções aqui feitas no Brasil , na nossa pobre produção literária até os anos setenta. Como um leitor fã do japonês Haruki Murakami o seu texto me deixou curioso a respeito de sua afirmação de que os Argentinos foram quem melhores ( ou mais rapidamente) trouxeram suas obras para a América Latina. Conheci o hoje badalado autor na esplêndida Livreiros Bertrand , do Chiado , em Lisboa ( fundada lá no século XVII- ou antes – se não me falha a memória) , em julho/ 2011 logo após o lançamento por lá do 1ºtomo de 1Q84, que comprei , li e fiquei encantado com o estilo de leitura. No ano seguinte, 2012, quando estive em Bs.As. vi exposto nas vitrines da Livraria Atheneu na Calle Florida, uma serie de diferentes obras do japonês – acho que bem uns dez livros diferentes seus. E aqui, até a i, nada dele! Curioso. #pramercer

  2. Não vejo razão de excluir o Oleg Almeida dessa comparação. Já que ele, Paulo Bezerra e Rubens Figueiredo são os únicos grandes nomes da tradução direta do russo atualmente. O Oleg é muito competente em seu trabalho, merece mais reconhecimento.

  3. Já li este livro traduzido por Paulo bezerra. Este tradutor, paraibano, estudou língua e literatura russa em moscou. Fugiu durante a ditadura militar, volta ao Brasil com outro nome.

  4. Dr. Benedito Costa, na sua apresentação li que o senhor é um apaixonado por livros e está a caça de novos autores, por esse motivo me atrevi a contatá-lo. Acabo de escrever meu primeiro livro e ficaria extremamente honrado se o senhor pudesse examiná-la e dar um parecer. Se houver essa possibilidade eu agradeço muitíssimo. Eis a obra Título: Humanidade Universal autor Josué Nascimento ISBN 978-65-87190-15-0

  5. Também prefiro Os irmão Karamazov. Quando li a primeira vez, terminei e comecei a reler em seguida. É um universo aquilo.
    Fora q eu ia pra todo lado com os tijolões a tiracolo, um de cada vez. Agradeço muito às filas de banco de então, onde ia resolver coisas para o meu pai.
    Fui uma das precursoras desse hábito atual de andar pelas calçadas sem olhar o caminho pq se está concentrada em algo nas suas mãos. No meu caso, só não era portátil como os celulares..
    A primeira vez li todo ele a partir dessas traduções via francês, foi uma nova experiência qdo apareceram as traduções diretas.

  6. só um breve reparo: a afirmação “As primeiras versões diretas do russo apareceram no final do século XX” não procede. desde 1930, pelo menos, temos traduções diretas do russo, embora não muito conhecidas, e boris schnaiderman (que não se pode dizer desconhecido) iniciou sua carreira tradutória ´já nos anos 40.

  7. Já li “Crime e Castigo” na tradução de Oleg Almeida e achei sensacional. Igualmente, também li várias obras russas traduzidas por Rubens Figueiredo que são excelentes. Quanto ao senhor Paulo Bezerra, tenho lá minhas ressalvas, pois já identifiquei pontos tendenciosos de caráter ideológico em suas traduções/comentários, principalmente, em “Os Irmãos Karamazov” e “Os Demônios”. Creio que o leitor deve procurar traduções que mais se aproximam daquilo que o autor realmente queria passar, sem intervenção panfletária de certos tradutores.

  8. Foi a tradução direta – e por um tradutor capaz de, SIM, perceber as “intenções do autor” em virtude de seu conhecimento do contexto e biografia do autor – que me fez adquirir a coleção completa pela Editora 34.

  9. Ahn….li, praticamente,todo o Dostoiévski-“exceto” Os Possessos”-naquela edição 4 vols da Aguilar,trad. Otávio Mendes Cajado e(?) Natália Nunes, acho.Que mundo se me abriu. Idem Tolstoi, aqueles três livros.Custava nada o distinto texticulista ter comentado,por pouco que fosse.

  10. Desde as primeiras traduções da editora 34. Eu só li livros dos Russos desta editora, antes teve uma coleção de edição de colecionador, editora abril, Fiodor dostoievski, vol. 1. saiu no jornal Folha de SP, e na época em outra tradução li Crime e Castigo, preciso rele-lo pela editora 34. Os demais clássicos amo_os❤ todos “Irmãos Karamazov”; O Idiota; Os Demônios; só preciso voltar a ler o Tolstoi e clássico Guerra e Paz.

  11. Muito bom. Faz outra matéria dessa com memórias do subsolo, infelizmente tenho comigo um exemplar com tradução que mistura português de Portugal que deixa muita coisa sem sentido, deixando o leitor perdido, bem diferente de uma boa tradução.

  12. Acredito que o foco do artigo eram traduções diretas. Essa da Aguilar é indireta. Mas hoje existem outros tradutores de russo. E que tem profundo conhecimento da língua e cultura russa, além de formação específica em tradução. Irine Franco Perpétuo, Lucas Simone, Robson Ortlibas, Fatima Bianchi, Priscila Marques, Aurora Firnoni Bernardini e tantos outros. Temos hoje uma quantidade excelente de tradutores nas mais diversas línguas. Só o Ulisses de Joyce temos três traduções completas.

  13. Engraçado falarem aqui que Paulo Bezerra percebeu as “intenções do autor”. Não foi isso que ele deixou transparecer nos comentários que ele fez em “Os Demônios” (Ed. 34).

  14. Tenho a tradução de Érika Patrícia Moreira e João Pedro Nodari, pela editora Pé de Letra, 2021, e também de uma coleção Obras Primas da Nova Cultural, 2002, e esta me pareceu boa, mas não consta o nome do tradutor. Gostaria de saber.

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