Perpetradores: um mea culpa da educação sobre o Holocausto

Diante de um cenário internacional de eclosão de ciclos de intolerância e ascensões de governos de extrema-direita, nos questionamos sobre a eficácia de uma transmissão do Holocausto que é feita da mesma forma há mais de 30 anos, que relega o perpetrador a um papel secundário no processo educativo

Lá se vão trinta anos de quando o respeitado historiador Raul Hilberg estabeleceu as três categorias clássicas da personificação do Holocausto: perpetradores, vítimas e espectadores. Criadas a partir do que Max Weber determinou como “tipos ideais”, os três papeis foram descritos por Hilberg no livro “Perpetrators Victims Bystanders” e transformaram-se em pilares da filosofia educativa do museu Yad Vashem, em Jerusalém. Essa caracterização clássica das funções exercidas durante o genocídio foi incorporada pela instituição israelense num triângulo rígido em que as pontas representavam cada um dos três tipos humanos.

Durante essas décadas, apesar do discurso de que existe um eixo pedagógico para cada um desses tipos, a educação sobre o Holocausto tem privilegiado as trajetórias das vítimas – e não se discute aqui a capacidade de gerar empatia e construir alteridade a partir desse ponto de vista. Entretanto, assim como a memória, a educação também é fruto de um processo contínuo de construção e desconstrução. Diante de um cenário internacional de eclosão de ciclos de intolerância, autoritarismos e ascensões de governos de extrema-direita, nos questionamos sobre a eficácia de uma transmissão do Holocausto que é feita da mesma forma há mais de trinta anos, pautada quase exclusivamente na vítima (e nos salvadores, os Justos entre as Nações) e que relega o perpetrador a um papel secundário no processo educativo.

Num contexto sociopolítico caótico que inclui ainda a vulgarização e a deturpação da própria memória do Holocausto, chegou a hora de reavaliarmos se a ênfase nas tragédias individuais é suficiente para que essa educação cumpra o pressuposto do “nunca mais”. Não cabe às falhas da Pedagogia do Holocausto, evidentemente, a responsabilidade exclusiva pela epidemia de nazismo e neonazismo que vivemos nos últimos anos. Contudo, é urgente a necessidade de uma reflexão sobre até que ponto essa memória pode contribuir contra a legitimação de discursos de ódio e como ela pode ser moldada no século XXI.

Nessa discussão, surge como hipótese um incômodo corrente que precisa ser debatido por educadores e professores em todo o mundo: as razões pelas quais fizeram o perpetrador (nazistas e seus colaboradores) perder relevância nas iniciativas de transmissão do Holocausto e se não seria oportuno “resgatá-lo” como ferramenta educativa. Chegou a hora de um mea culpa da educação sobre o Holocausto e uma proposta de mudança que responde a novos desafios.

Vítima X pessoa vitimada

Resgatar os pormenores dos perpetradores significa, primeiramente, compreender que a vítima não é uma categoria inerente a um grupo. Vítimas são, a priori, vitimadas por outras pessoas e são levadas violentamente a essa posição. Se existe uma pessoa vitimada, existe necessariamente um(a) perpetrador(a). Um pressuposto tão importante quanto os testemunhos de resistência e de resiliência está na possibilidade de elucidar os fatores que levam uma sociedade a vitimar seus pares e a transformá-los em vítimas, por quaisquer motivos que sejam. Na prática, a educação sobre o Holocausto favorece o fim do decurso, e não seu início.

O status de vítima é concebido a partir de um processo de coerção que independe da vontade da pessoa vitimada e que é inteiramente de responsabilidade do perpetrador. Com o protagonismo da memória restrito às ações e reações das pessoas vitimadas (antes, durante e depois do genocídio), perde-se não apenas a percepção de que elas são alvo constante de violência, mas também a oportunidade de captar a essência de valores como a democracia e a responsabilidade. Olhar também para o perpetrador não denota qualquer desprezo ou indiferença pelo sofrimento das vítimas, pelo contrário. Propicia a chance de entendermos, de uma vez por todas, por que o ser humano hierarquiza seu semelhante e como podemos nos proteger em contextos análogos.

Papeis fluidos

O fato das vítimas serem, afinal de contas, pessoas vitimadas, leva a outras controvérsias – e uma delas inclui a crítica ao modelo engessado de personagens criado por Raul Hilberg. Vítimas, perpetradores e observadores são papeis humanos complexos e normalmente não tão claros como a literatura sugere. Eles não fornecem informações suficientes sobre o comportamento individual e não levam em conta a multiplicidade de ações em tempos de genocídio. Por isso, essas categorias não eram de forma alguma imutáveis e, como apontou a pesquisadora norte-americana Johanna Vollhardt, eram múltiplas por definição.

Membros da SS bebendo e festejando no campo de extermínio nazista de Sobibor, s.d. Imperial War Museums/USHMM.

O célebre professor israelense David Bankier destacou que essas pessoas podiam flutuar entre esses papeis: “há uma fluidez, uma passagem de um vértice a outro”, escreveu. Essa dinâmica de funções fazia com que perpetradores e espectadores pudessem se transformar em vítimas e vítimas pudessem ser vistas como perpetradores (casos das polícias judaicas dos guetos e dos kapos nos campos de concentração). Também um espectador poderia ser, ao mesmo tempo, uma vítima e um perpetrador, dependendo de suas ações e decisões individuais ou coletivas. Nada disso se opõe à natureza humana, pelo contrário. Afinal, pessoas que perpetram crimes abomináveis podem ser pais amorosos e até possuírem momentos de epifania. Nunca somos uma coisa só.

O mea culpa

Não apenas as últimas etapas do Holocausto (marginalização, deportação, extermínio e negação), mas a ascensão do nazismo deveria estar mais presente nas práticas educativas. Desta forma, percorremos um longo caminho para entender que a pessoa vitimada foi, afinal, vitimada por alguém, e que esse alguém influencia e é influenciado pelos processos políticos que ocorrem à sua volta. Mas ao contrário da pessoa vitimada, apesar de possíveis interpretações de “efeito Lúcifer” ou de banalização do mal, o perpetrador opta por ingressar nessa categoria – e isso faz toda a diferença. E mesmo fluido, o perpetrador é um personagem fundamental para a compreensão dessas histórias.

O nazismo e as experiências fascistas refletem comportamentos que podem ser estudados, esmiuçados e prevenidos. Impossível dizer que tê-los incorporado lá atrás de forma mais veemente à Pedagogia do Holocausto teria nos livrado do abismo grotesco em que despencamos – até porque toda educação é fruto do tempo em que vivemos. O mea culpa é relativo, mas agora sabemos que Holocausto e nazismo não podem ser compreendidos em separado. Se antes talvez não fosse primordial incorporar a figura do perpetrador nas práticas educativas sobre esse genocídio, estou convicto que hoje já é. E urgente.

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