Um Estado policial, uma sociedade brutalizada

O resultado da eleição presidencial obrigou a extrema direita a intensificar sua atuação, que não se limita à turba que milita nas redes sociais

São 16 os mortos durante a operação policial na Vila Zilda, periferia de Guarujá, no litoral paulista. Sugestivamente chamada “Escudo”, a ação da ROTA teve, como pretexto, o assassinato de um de seus soldados, Patrick Reis, por um traficante na quinta-feira da semana passada (28).

Como de hábito, a PM fala em “confronto”. A narrativa de quem vive na comunidade é outra: casas foram invadidas, moradoras e moradores torturadas e ameaçadas. A brutalidade policial, denunciam, não distinguiu gênero ou idade. Tampouco culpados ou inocentes. Na contabilidade da chacina, todos são matáveis quando se trata de retaliar a morte de um dos seus.

Não há julgamento, porque não se trata de justiça, mas de simples vendetta.

A operação no Guarujá foi justificada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e aplaudida, no Paraná, por outro militante bolsonarista, o deputado e pastor evangélico Ricardo Arruda (PL). Com seu costumeiro e teatral histrionismo, ensaiado sob medida para animar o rebanho, Arruda subiu à tribuna na primeira sessão da ALEP após o recesso parlamentar para elogiar a chacina.

“O marginal que se dane”, “é marginal, entrou em confronto e tem de cair” e a “ROTA foi agir e em confronto derrubou oito marginais” foram algumas das frases proferidas pelo parlamentar e inspiradas pelo seu coração cristão. De acordo com Arruda, não se pode “nivelar no mesmo nível. Quem manda é a lei e a polícia”.

Mas a verdade é que, no Guarujá como em tantas outras mortes perpetradas pelas corporações militares nas periferias brasileiras, não há lei, somente polícia. O deputado liberal e bolsonarista, tenho certeza, sabe e já sabia disso, inclusive, quando, na mesma tribuna, mentiu ao defender a ação da ultra militarizada Guarda Municipal de Curitiba que resultou no assassinato do adolescente Caio Ferreira.

O histrionismo raivoso do deputado paranaense lembra, em seus trejeitos, no tom de voz, no vocabulário, no olhar cheio de ódio e na capacidade nada invejável de enfileirar mentiras, o de seus correligionários em Brasília. Notadamente a atuação dos bolsonaristas nas duas CPIs que protagonizam, nas últimas semanas, o noticiário político: a mista, dos atentados terroristas de 8 de janeiro, e a do MST, na Câmara dos Deputados.

Não é coincidência, porque se trata mesmo de uma ação coordenada: não há diferença entre Ricardo Arruda ou o Delegado Tito Barichello, no Paraná, ou seus companheiros de militância na extrema direita em Brasília, sejam eles Ricardo Salles, Nikolas Ferreira, o coronel Zuco ou Abílio Brunini. Alçados à oposição, eles seguem fazendo exatamente o que faziam quando estavam no governo: espalham o medo e o pânico, disseminam o ódio, estimulam e justificam a violência, elogiam a ditadura e seus torturadores. E mentem, mentem muito.

Manter ativo o espólio bolsonarista

Se os campos de extermínio foram a realização máxima do nazismo alemão, os atentados terroristas de 8 de janeiro e a bomba plantada no Aeroporto de Brasília são, junto com os quase 800 mil mortos da covid-19, o principal legado do bolsonarismo.

O que está em curso é a tentativa de manter ativo esse espólio nefasto.

A derrota eleitoral de Bolsonaro, sabemos, não colocou um fim ao bolsonarismo, e pode mesmo servir como um terreno fértil para o seu recrudescimento. E peço atenção à escolha da palavra. Recrudescer não significa, necessariamente, o aumento quantitativo de algo como uma doença, por exemplo.

Um cancro recrudesce, também, quando se torna mais intenso e mais forte, quando seus sintomas são exacerbados e se tornam, por isso, mais alarmantes. No caso do bolsonarismo, o resultado da eleição presidencial obrigou a extrema direita a intensificar sua atuação, que não se limita, e se ilude quem acredita nisso, à turba que milita nas redes sociais – como, aliás, os terroristas do 8 de janeiro deixaram muitíssimo claro.

Nesse processo, animar e manter coesa a militância, agora que o cercadinho se foi, é apenas parte da estratégia. Sem projeto, nem interesse em ter e oferecer um; intelectualmente incapaz de dialogar; pouco afeita à democracia, mesmo a seus princípios mais elementares; e com seu poder político e de barganha reduzido, sobrou a truculência em seu estado mais bruto.

O machismo e a gordofobia de Salles e Zuco na CPI contra o MST, ou a transfobia de Nikolas Ferreira, são expressão dessa truculência. A tentativa de criminalizar os movimentos sociais e associar os atos terroristas e a tentativa de golpe em janeiro ao governo Lula, idem. As promessas de derrubar o Decreto 11.366, que restringe o acesso e o uso de armas de fogo, também.

Mas igualmente significativo nesse esforço de manter vivo o projeto de poder da extrema direita, é não deixar esmorecer a aliança com as forças de segurança, especialmente as polícias militares, uma simbiose autoritária imprescindível à escalada fascista do bolsonarismo.

Afirmei, acima, que o bolsonarismo não tem um projeto para o país. Mas, admito, isso não é inteiramente correto, porque existe, sim, um projeto: o de um Estado reduzido à sua função de polícia e de uma sociedade brutalizada e acossada pelo medo. Em uma palavra, a barbárie.

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