Sob Bolsonaro, o clima para mulheres e meninas é de insegurança

Bolsonaro não corou ao contar do “clima” com meninas porque ele não vê problema em assediá-las e constrangê-las. Na mentalidade mediana que ele representa, não é pedofilia, mas afirmação da própria masculinidade.

A família tradicional brasileira nunca esteve tão bem representada em uma eleição. Na semana passada Bolsonaro, candidato à reeleição, confidenciou em uma entrevista que em um de seus passeios de moto em uma comunidade na periferia de Brasília, “rolou um clima” com um grupo de adolescentes. Segue a fala:

“Eu estava em Brasília, na comunidade de São Sebastião, se não me engano, em um sábado de moto (…) parei a moto em uma esquina, tirei o capacete, e olhei umas menininhas. Três, quatro, bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas, num sábado, em uma comunidade, e vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei. ‘Posso entrar na sua casa?’. Entrei. Tinha umas 15, 20 meninas, sábado de manhã, se arrumando, todas venezuelanas. E eu pergunto: meninas bonitinhas de 14, 15 anos, se arrumando no sábado para quê? Ganhar a vida”.

A começar pela insinuação de que meninas “bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas, num sábado”, inevitavelmente se prostituem, especialmente se venezuelanas, todo o diálogo é um amontoado de erros. Aliás, a associação, inconsciente ou não, de meninas bonitas e arrumadinhas à prostituição lembra outra, a famosa “não lhe estupro porque você não merece, e não merece porque é feia”.

A fala provocou o equivalente a um pequeno abalo sísmico na campanha do presidente. Nas redes sociais, a defesa dos cúmplices de Bolsonaro se concentrou em principalmente duas versões. Uma delas, a de que a fala foi “tirada do contexto”, em uma tentativa bizarra de ligar a entrevista de 14/10 à live que o presidente transmitiu de dentro da casa das “meninas arrumadinhas” em 2020, como se fossem um mesmo e único evento.

A segunda não é melhor. Bolsonaro, disseram e repetiram, usa correntemente “figuras de linguagem”, especialmente “pintou um clima”. Como evidência, uma outra passagem, na mesma entrevista, em que ele fala que “não pintou um clima” com o Congresso.

De acordo com essa versão, Bolsonaro empregou a expressão exatamente com o mesmo sentido se referindo às “meninas bonitas de 14, 15 anos, arrumadinhas”, e aos marmanjos do Centrão de quem compra o apoio ao custo de bilhões de reais retirados da saúde e da educação públicas. Uma canalhice sem fim.

Além disso, de acordo com Felipe Frazão, colunista do Estadão, em 128 lives – aquele espetáculo grotesco transmitido todas às quintas nas redes sociais do presidente – Bolsonaro não usou a expressão “pintou um clima” uma única vez.

Evidentemente, uma eleição não se decide em uma fala, por abjeta que seja. Mas chama a atenção o fato de que seu potencial para tirar eventuais votos de Bolsonaro seja maior, por exemplo, que as milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas, não fosse a irresponsabilidade criminosa do governo na condução da pandemia.

Mas Bolsonaro parecia muito confortável na entrevista, e sua postura só mudou depois da enorme repercussão negativa, especialmente nas redes sociais, ao ponto de a coordenação da campanha obrigá-lo a entrar em uma live em plena madrugada.

A naturalidade, que contrasta com as falas e as posturas corporais ensaiadas dos últimos dias, é sintomática. Se estava à vontade, se não viu problema em contar que “pintou um clima” com meninas de 14, 15 anos, é porque ele sabia que não apenas naturalizamos, como banal, mas costumamos elogiar e invejar homens que se gabam de suas façanhas sexuais, reais ou inventadas, com mulheres mais jovens, adolescentes inclusive.

No Brasil, a “novinha” é uma instituição, um objeto de desejo principalmente de “tiozões” que não apenas flertam, mas as constrangem impertinente e despudoradamente, muitas vezes se aproveitando de sua idade, experiência e, não raro, posição social. E que chamam isso de “rolar um clima” quando, na verdade, é só assédio mesmo.

Sem proteção, sem segurança

Talvez não seja uma regra – parafraseando o nada saudoso Geisel – ampla, geral e irrestrita. Mas arrisco dizer que os homens tarados por “novinhas” são, geralmente, aqueles que arrotam virtude e defendem a “tradicional família brasileira”, enquanto na vida privada contradizem o moralismo que gostam de ostentar em público.

Bolsonaro não corou ao contar do “clima” que supôs ter rolado com meninas “bonitas e arrumadinhas de 14, 15 anos”, porque ele não vê absolutamente nenhum problema em assediá-las e constrangê-las. Na cultura machista que ele tão bem representa, não é pedofilia, mas afirmação da própria masculinidade.

Como qualquer “tiozão”, seu comportamento privado, às escondidas, enquanto passeia pela periferia do Distrito Federal em sua moto – e seria preciso mais um artigo para falarmos do fetiche que homens mais velhos têm por motocicletas –, é o exato oposto do que afirma defender quando fala para o público.

O problema é maior, no entanto, porque a mentalidade obtusa desse tiozão em particular compromete a segurança, a liberdade, o bem-estar – físico e mental – e a vida de milhões de mulheres, e não apenas menores.

Só no auge da pandemia entre março de 2020 e dezembro de 2021, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram 2.451 feminicídios e mais de 100 mil casos de estupro. Não é diferente quando o assunto é pedofilia. Em 2021, cerca de 73 mil menores foram vítimas de abuso sexual, quase sempre dentro de casa ou em lugares conhecidos.

A esmagadora maioria das vítimas, 85%, são do sexo feminino – provavelmente “meninas bonitas e arrumadinhas de 14, 15 anos”, ou menos. Na maioria dos casos, o responsável é alguém conhecido ou mesmo íntimo – pai, padrasto, marido, noivo, namorado, vizinho.

Apesar dos números, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, chefiado por Damares Alves, cortou em 33% o orçamento desse ano para políticas de proteção à mulher.

Se em público, Bolsonaro ataca a “ideologia de gênero” e, indiretamente, escolas e professores, de acordo com ele, responsáveis por macular e desvirtuar a inocência de seus alunos, e Damares promete “prender todos os pedófilos”, na segurança dos gabinetes ambos desidrataram, nos últimos quatro anos, as funções do Conselho de Proteção à Infância e Adolescência.

Em 2015, último do governo Dilma, a verba destinada para os serviços de proteção social especial – ou seja, as ações que envolvem o amparo à infância e adolescência –, foi de R$ 1,1 bilhão. No orçamento de 2023, já enviado pelo Executivo ao Congresso, estão previstos módicos e vergonhosos R$ 15 milhões para a proteção de crianças e adolescentes.

O presidente e seus asseclas atacam espantalhos como a “ideologia de gênero”, acusam e fomentam a perseguição e o ódio contra escolas e docentes, porque não fizeram, nem farão, nada de efetivo para combater as muitas formas de violência contra os mais vulneráveis.

Na mesma entrevista do domingo, em mais uma mais uma fala insensível e negacionista, Bolsonaro voltou a afirmar que não há crianças mortas pela pandemia, ignorando, como o bom sociopata que é, a dor de mais de duas mil famílias que perderam suas filhas e filhos menores.

Há um caminho para garantirmos a segurança, presente e futura, de nossas mulheres, de nossas meninas – e também de nossos meninos. E ele começa por derrotar Bolsonaro.

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