Os britânicos têmSherlock Holmes, o investigador mais famoso do mundo. Os americanos, PhilipMarlowe. E nós, brasileiros, temos o delegado Espinosa.
“A última mulher”,lançado há pouco pela Companhia das Letras, é o 12º livro de ficção de LuizAlfredo Garcia-Roza e o 11º com Espinosa. Neste, o delegado não é oprotagonista – na verdade, só aparece no segundo terço da história e segue comoum coadjuvante discreto. Em primeiro plano, estão Rita e Ratto, uma prostitutae seu cafetão, assombrados por um policial militar corrupto.
São temposmelancólicos, esses em que vivemos. E “A última mulher” parece refletir esseestado de coisas.
A trama policial érelativamente simples: uma quantidade de dinheiro desaparece e não sabemos quemé o responsável. O dinheiro era de Ratto e os suspeitos de surrupiá-lo sãoJapa, advogado do cafetão, e Wallace, um policial militar corrupto.
O livro é pequeno,tem pouco mais de cem páginas. A narrativa é pontuada por desaparecimentos e assassinatos,e o desfecho é algo rápido, sem firulas, trivial. É um pouco como ler umanotícia de página policial.
Nos romances deGarcia-Roza, a geografia do Rio de Janeiro é tão importante para o enredo que acidade acaba virando uma espécie de personagem. A certa altura, Rita procurapor Ratto: “Partindo da Cinelândia, podia chegar à Lapa pela rua Evaristo daVeiga, andando até os arcos. Atravessando o aqueduto pela Mem de Sá, chegariadepois de uma quadra à rua do Lavradio. Poderia, no entanto, não atravessar oaqueduto e pegar o caminho oposto, partindo da Cinelândia e tomando a rua doPasseio até o largo, chegaria à região a Lapa profunda dos botequins e casas decômodos, mais ao gosto de Ratto”.
A elegância daprosa de Garcia-Roza é um dos prazeres possíveis para quem lê seus livros.Ex-professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Instituto dePsicologia, Garcia-Roza escreveu, ao longo da carreira, obras sobre psicanálisee filosofia. E só foi estrear na ficção aos 60 anos, quando publicou seuprimeiro Espinosa, “O silêncio da chuva”, vencedor do prêmio Jabuti de melhorromance do ano em 1997.
Doze anos e dezlivros depois, o texto de Garcia-Roza continua elegante, porém, ele nãoconsegue evitar um tom de decepção, de desencanto. Na realidade atual, Espinosanão tem vez. Uma frase, no meio do parágrafo derradeiro, diz: “E não existiamais espaço para o bem comum”. Essa é uma descrição terrivelmente acurada doBrasil em 2019.
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Garcia-Roza tem 83anos e, de acordo com o jornal “O Globo”, está internado no HospitalSamaritano, em Botafogo, há sete meses. Ele finalizou o processo de edição de“A última mulher” de dentro do hospital. A também escritora Lívia Garcia-Roza,esposa do autor, tem publicado pequenos textos no Facebook, lindos e tristíssimos,falando sobre o estado de saúde do marido. “Hoje, no hospital, eu perguntei:Luiz Alfredo, você abre os olhos pra mim? Ele abriu, com esforço, mas abriu, umpouquinho, e foi tanto, tanto…”, escreveu ela na última quinta-feira (4).
Serviço
“A última mulher”, de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Companhia das Letras, 120 páginas, R$ 39,90.