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UFPR traduz o mundo para o Brasil

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Não é exagero dizer que Curitiba virou um dos polos da tradução literária brasileira. A afirmação é respaldada inclusive pelas principais premiações da área: somados, os professores da UFPR levaram 10 títulos nos últimos anos no Jabuti, na APCA (Associação Paulista de Críticos da Arte) e na Biblioteca Nacional.

Os prêmios servem como reconhecimento para um grupo que fundou uma linha do bacharelado de Letras especialmente voltada para Estudos da Tradução.

Guilherme Gontijo Flores e Caetano Galindo puxam a lista com quatro prêmios cada; Regina Przybycien, do Departamento de Línguas Estrangeiras Modernas, conquistou o prêmio da APCA em 2016 pela tradução de Wisława Szymborska; e Maurício Mendonça Cardozo foi vencedor em 2018 do Prêmio Literário Paulo Rónai, da Biblioteca Nacional, com a tradução da autobiografia de Goethe, De minha vida: poesia e verdade”.

Guilherme é uma das principais referências em tradução literária no Brasil atualmente. Ganhou em 2014 o Jabuti e a APCA pela tradução de A Anatomia da Melancolia, de Robert Burton. Em 2015 foi premiado pela Biblioteca Nacional pela tradução de Elegias de Sexto Propércio, publicação que contém a obra do poeta clássico de Roma.

Em 2017, o tradutor foi reconhecido novamente pela APCA pelo livro Fragmentos Completos, compilação de toda a produção conhecida de Safo, poetisa grega considerada uma das maiores da Antiguidade.

Não fosse por mais nada (a dificuldade intrínseca de cada livro), chama ainda a atenção a variedade de idiomas (inglês, latim e grego). Atualmente, Guilherme traduz Rabelais, do original francês.

Galindo, colunista do Plural, onde publica semanalmente capítulos do romance Lia, recebeu três prêmios nacionais (APCA em 2012, Jabuti em 2013, e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras em 2013) pela tradução do romance Ulysses, do irlandês James Joyce. Voltou a ser premiado pela APCA em 2014, pela tradução de Graça Infinita, um celebrado romance do escritor americano David Foster Wallace.

Caldo de cultura

Os resultados não vieram por acaso: ao longo dos últimos anos, o desenvolvimento de uma cultura de tradução acabou trazendo profissionais e pesquisadores para o mesmo ambiente, como conta Caetano. “Há uma conversa, e existem pessoas que colaboram, lendo trabalhos uns dos outros, pensando no assunto. Isso até gera um tipo de competitividade saudável, e também gera um fermento, um ambiente propício”, diz.

James Joyce, objeto do estudo de Caetano Galindo: tradução do Ulysses foi elogiadíssima.

“Pessoas vieram pra cá pra falar de tradução, tradutores importantes passaram por aqui, e os alunos se envolveram e assistiram estes trabalhos. Como professores tivemos que nos envolver de um jeito diferente, porque dar aula demanda um tipo de reflexão diferente”, completa.

Como legado, o grupo já tem preparado um futuro promissor para a instituição. “Para além das aulas e do convívio, acho que o que obtivemos foi um grupo forte que também está em formação na UFPR. Estamos produzindo novos professores e pesquisadores para a próxima geração”, diz Guilherme.

O surgimento do grupo

Embora não haja formalmente um núcleo de tradução – os professores, em geral, estão dentro do guarda-chuva do curso de Letras, mas não necessariamente participam dos mesmos grupos de pesquisa -, professores e pesquisadores compartilhando o espaço da UFPR criaram uma cultura de apreço e contato com a prática da tradução.

“Hoje o estudante que entra em Letras, além de estudar a língua em questão e ter contato com a cultura do país para refletir sobre a língua, pode optar por fazer a ênfase em tradução, e começa a se aprofundar e exercitar a prática de tradução, como também pensar sobre a tradução como uma questão teórica, filosófica, linguística, artística, cultural etc.”, explica Maurício Cardozo, um dos responsáveis por estimular o ambiente de tradução na UFPR.

Maurício Cardozo: um dos fundadores do Núcleo de Tradução.

A história do que já foi chamado de ‘Núcleo de Tradução da UFPR’ surgiu no final dos anos 90, de um grupo de professores do curso de Letras que buscou implementar um núcleo com frentes de atuação diversas. Entre as ações estava uma ‘miniagência’ de tradução. “Fizemos o trabalho de juntar no espaço da universidade professores, pesquisadores e também tradutores profissionais, para que os estudantes tivessem contato com o meio. Durante um bom tempo funcionamos como uma pequena agência de prestação de serviços”, explicou Maurício.

Conforme a agência avançava, a operação foi ficando mais complicada. “Fomos deixando de lado pelo pouco retorno do ponto de vista da estrutura burocrática daquela época, que era pesada. Tínhamos problema para fazer e receber pagamentos.” Mas ao mesmo tempo a atuação prática criou o espaço institucionalizado de tradução na UFPR, que era o principal objetivo. O núcleo acabou deixando de existir nos anos 2000 com a reforma curricular.

Reorganizando o curso

Na virada do século Maurício palpitou na reestruturação dos cursos, com a ideia de dar uma ‘cara’ ao bacharelado. A opção foi por dividir o curso em três ênfases principais: estudos literários, estudos linguísticos e estudos da tradução. “A ênfase definia as habilitações de uma forma diferente, justamente porque, no caso da tradução, ao mesmo tempo em que é preciso ter a formação específica em determinada língua, também é imprescindível o trânsito entre as formações de línguas e literaturas diferentes, para aprender a lidar com a relação entre língua, cultura e sistemas literários”, afirma.

Safo: traduzida na íntegra para português.

Desde então a tradução virou uma espécie de ‘catalisador’ de interesses. “Meu mestrado é na área de linguística histórica, e gradativamente fui voltando ao que me fez ingressar em Letras, que é a literatura, aproximando linguística e literatura de maneiras diferentes. E encontrei um modo de fazer isso pela tradução, graças às atividades de tradução que aconteciam na UFPR”, conta Galindo.

E o diálogo entre as áreas dos professores também colabora para a base sólida da tradução. “Todo este repertório é importante para o tradutor prático. Penso que a reflexão teórica ajuda muito a parte prática, e forma bons pesquisadores, que é o que queremos fazer”, diz.

A poesia polonesa

Há um outro exemplo da tradução na UFPR que se destaca. Em 2018, o governo da Polônia reconheceu e premiou o trabalho dos professores Piotr Kilanowski e Marcelo Paiva de Souza pela tradução de obras em polonês para o português. Piotr relata que embora o idioma polonês não seja tão comum, o interesse pela poesia do país tem crescido, tanto na academia como no mercado das editoras.

No ano passado a editora Âyiné, especializada na publicação de literatura ensaística, publicou um volume da poesia de Wisława Szymborska, uma importante poetisa polonesa, vencedora do Nobel. O livro foi traduzido com colaboração do professor e de Eneida Favre, aluna do curso de Letras-Polonês da UFPR, e a procura pelo material foi grande.

“A editora está querendo publicar mais coisas de poesia da Szymborska e de poesia polonesa. Estamos discutindo outras possibilidades, não necessariamente poéticas. Então dizer que não é exatamente lucrativo, que não está vendendo, talvez não seja 100% correto. Acho que tudo é questão de procura do mercado, da maneira de mostrar para o mercado essas possibilidades diferentes”, comentou. A editora já publicou “A leitura das cinzas”, de Jerzy Ficowski, e está planejando a edição da obra poética completa de Zbigniew Herbert – ambos resultado do trabalho de Piotr.

Szymborska: poeta polonesa vencedora do Nobel.

Piotr também trabalhou na tradução de Eu construía a barricada, livro de poesia de Anna Świrszczyńska, que relata de forma poética a experiência da guerra durante o Levante de Varsóvia, em 1944, e o professor entende a tradução como uma conexão cultural entre dois povos. “Surgiu oportunidade de editar a poesia do Paulo Leminski em polonês, com apoio importante da Universidade de Silésia (uma das maiores públicas da Polônia).

O primeiro livro foi editado em 2013, e claramente configura um interesse específico por ser de origem polonesa e por ser um poeta diferente”, comenta. “Desde então, a gente está tentando publicar o conteúdo no circuito maior, no circuito comercial da Polônia. Como você vê, de alguma maneira o tradutor serve como uma ponte entre as culturas, entre os países”, conclui.

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Sobre o autor

Felipe Martins Gonçalves

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