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UFPR não devia receber eventos como o do vereador do Novo

Barrar "debates" como o que acabou em confusão não tem nada a ver com a Direita ou a Esquerda. Mas com meritocracia

UFPR não devia receber eventos como o do vereador do Novo
Vereador Guilherme Kilter durante confusão no Prédio Histórico da UFPR. Foto: Tami Taketani/Plural
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Na última terça, dia 9 de setembro, um suposto "debate" sobre o Supremo Tribunal Federal que incluía a participação do vereador Guilherme Kilter (Novo) terminou com uma confusão que incluiu uma lamentável invasão do prédio histórico pela Polícia Militar. O episódio gerou discussões intensas e até mesmo uma agressão física contra a diretora do Setor de Ciência Jurídicas da universidade, Melina Girardi Fachin.

O que fica claro após a confusão causada por Kilter e seus companheiros é que a UFPR não deveria jamais receber eventos como o que deveria ter ocorrido na terça. E não, não é porque Kilter é de "direita". A razão é muito mais simples: a UFPR é uma instituição acadêmica. E Kilter simplesmente não tem mérito acadêmico, profissional ou científico que justifique gasto de tempo da universidade com suas opiniões.

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O curso de Direito da UFPR é um dos melhores do país. O que se valoriza nesse ambiente é a capacidade dos estudantes de ler e estudar os textos base da área e de avaliar teorias jurídicas. Eventos acadêmicos servem como oportunidades para os estudantes ouvirem diferentes visões das ciências jurídicas e debater seus méritos. Abrir espaço em eventos acadêmicos para vozes desqualificadas é um desserviço à formação de nossos futuros advogados.

A única relação de Kilter com as ciências jurídicas é a proximidade com o ex-procurador e ex-deputado federal Deltan Dallagnol. Exatamente qual seria sua contribuição para um debate qualificado sobre o STF? Nenhuma.

"Ah, mas não deixar ele falar é censura". Não é. Primeiro que quem tem a obrigação de abrir as portas para todos e ouvir todos é a Câmara Municipal, não a UFPR. A obrigação da UFPR é formar profissionais com qualidade e produzir ciência de qualidade. Essa formação inclui ajudar os estudantes a reconhecer no que eles devem investir tempo e esforço.

Na realidade, as ações do STF não deixaram de ser discutidas no ambiente acadêmico e profissional do Direito. A própria OAB Paraná promoveu há pouco evento sobre o assunto. Mas ao contrário do showzinho promovido pelo vereador do Novo na UFPR, os debates reais sobre o assunto reuniram gente que estudou e pesquisou e que o setor reconhece como detentores de mérito profissional e acadêmico suficiente para serem ouvidos.

Colocar Kilter para falar do STF na UFPR é o equivalente a chamar um motorista de Uber para falar de vacina no Hospital de Clínicas. Não se trata de não reconhecer o direito do motorista de Uber a uma opinião, nem de desprezar sua posição social como trabalhador do setor de serviço. Mas sim reconhecer que o Hospital de Clínicas é uma instituição médica e de pesquisa de elite e que para ser ouvido pelos profissionais que lá conduzem um trabalho no setor de saúde relevante é preciso ter qualificação técnica, intelectual e científica relevante também.

Por outro lado, se o debate é sobre mobilidade urbana, o conhecimento do motorista de Uber tem muito mais relevância que o do mais qualificado médico do Hospital de Clínicas. É assim que funciona uma instituição acadêmica. É isso que permitiu à universidade ser parte fundamental do que faz de Curitiba, Curitiba.

Foi a UFPR que formou inúmeros líderes de Curitiba e do Paraná, que fez parte importante do planejamento urbano da cidade, bem como da criação e desenvolvimento do sistema de mobilidade curitibano. Ela salvou milhares de vidas com tratamentos inovadores para câncer e outros doenças graves, transplantes de órgãos, desenvolvimento de remédios.

A qualidade do ensino público e privado de Curitiba passou diretamente pelas salas de aula da Reitoria. A Federal mantém o maior e mais importante hospital do estado. Além de formar parte importante dos médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde de Curitiba e região.

A UFPR fez parte da fundação da base de pesquisa brasileira na Antártida, trabalhou no desenvolvimento de vacinas, criou técnicas de cultivo e combate a pragas que melhoraram a produção da agricultura nacional.

Ao contrário da Federal, a Câmara não tem muito do que se orgulhar. Na realidade, o legislativo municipal há bastante tempo se entregou à completa inutilidade. Os parlamentares se limitam a promover debates sobre assuntos que estão fora de sua jurisdição, como o STF e a aprovar qualquer coisa que a Prefeitura mande eles aprovarem.

Quer um exemplo da inutilidade da Câmara Municipal? Nós estamos prestes a estabelecer um novo contrato do transporte coletivo em Curitiba, algo que afeta o dia a dia de quase três milhões de pessoas em Curitiba e região. Em 15 anos do atual contrato o sistema de transporte perdeu mais da metade dos passageiros e ganhou um déficit que chegará a R$ 200 milhões em 2025.

No entanto os vereadores aprovaram, quase sem discussão, um empréstimo de R$ 1 bilhão para compra de ônibus elétricos para o sistema e seguem praticamente alheios ao tema "contrato do transporte".

Ao invés de se ocupar com isso, parlamentares como Kilter preferem legislar sobre a quantidade de vezes que as escolas municipais precisam cantar o hino nacional, um assunto que - a despeito da irrelevância - ganha novas contribuições todos os anos.

A Câmara de Curitiba se recusa a olhar para seus próprios problemas. Ok. Não é porque temos uma coleção de parlamentares cada vez mais irrelevantes que vamos abrir mão do direito de termos uma Casa para o povo de Curitiba. Mas podemos sim dizer: basta! Se a Câmara quer desperdiçar tempo, que desperdice o dela e pare de atrapalhar outras instituições que estão cumprindo seu papel.

Impedir que essa tolice de dar voz a quem grita mais alto atrapalhe o relevante trabalho acadêmico de nossas universidades não é censura. É respeito.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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