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Copel privatizada triplica piso de dividendos ao acionista

Dois anos após a venda das ações pelo Governo do Paraná, a Copel elevou o piso de distribuição de lucro de 25% para 75% e afrouxou o limite de dívida

Copel privatizada triplica piso de dividendos ao acionista
Foto: Matthew Henry / Unsplash
Poder · Copel · — min de leitura

Quando ainda era uma estatal, a Copel distribuía dividendos com parcimônia: nos anos de maior endividamento, a companhia podia repassar aos acionistas apenas 25% do lucro líquido. Menos de dois anos depois de ser vendida na Bolsa e transformada em corporação sem controlador, essa lógica se inverteu. A empresa se comprometeu a distribuir, no mínimo, 75% do lucro líquido todos os anos, ao menos duas vezes por ano. O piso obrigatório, na prática, triplicou.

A mudança não é um detalhe contábil. Ela expõe a nova prioridade da companhia — remunerar o acionista — e ajuda a explicar por que o Governo do Paraná, que abriu mão do controle em agosto de 2023, já vê passar para as mãos de investidores privados um volume de proventos que, mantido o ritmo, superará em cerca de oito anos o que arrecadou com a própria venda.

A regra que mudou

Enquanto foi controlada pelo Estado, a Copel escalonava a distribuição de lucro conforme sua dívida: quanto mais endividada, menos pagava. Segundo a política então vigente, o percentual variava de 25% a 65% do lucro líquido, de acordo com a relação entre dívida líquida e Ebitda.

A nova política, aprovada em maio de 2025 — já sob a condição de corporação —, abandonou esse escalonamento e fixou um piso alto e permanente: no mínimo 75% do lucro, sempre. A régua da estrutura de capital foi definida a partir de um estudo que simulou dezenas de milhares de cenários, e a companhia passou a tratar explicitamente o “retorno aos acionistas” como um de seus objetivos centrais.

Piso de distribuição do lucro líquido
Na era estatal, o payout caía com a dívida; na corporação, virou um piso fixo de 75%
100% 75% 50% 25% 0 65% 50% 25% 75% <1,5x 1,5–2,7x >2,7x piso fixo ESTATAL · ATÉ 2023 CORPORAÇÃO · DESDE 2025
Régua de payout por faixa de dívida líquida/Ebitda (política anterior) e piso mínimo da política aprovada em maio de 2025. Fonte: comunicados da Copel. Percentuais da política antiga a confirmar na íntegra do documento.

Em 15 de julho de 2026, o Conselho de Administração deu mais um passo na mesma direção. Sem mexer no piso de 75%, ajustou os parâmetros de capital: elevou a alavancagem-alvo de 2,8 para 2,9 vezes o Ebitda, deslocou a faixa de tolerância — cujo teto subiu de 3,1x para 3,2x — e dobrou o prazo para retornar à meta, de 24 para 48 meses. Em linguagem financeira, a empresa se deu permissão para operar com um pouco mais de dívida e mais tempo de folga. É espaço para investir e, ao mesmo tempo, preservar o fluxo de dividendos.

Estrutura ótima de capital · “de / para”
Mais espaço para dívida: a faixa-alvo de alavancagem se deslocou para cima em 2026
De · 2025 — alvo 2,8x (faixa 2,5–3,1x) Para · 2026 — alvo 2,9x (faixa 2,6–3,2x) 2,5x 2,8x 2,9x 3,2x Dívida líquida / Ebitda — o alvo e o teto da faixa subiram; o prazo de convergência dobrou (24 → 48 meses).
Fonte: comunicado da Copel de 15 de julho de 2026 (atualização dos parâmetros de estrutura ótima de capital).

O que o Estado deixou de receber

O contraponto dessa generosidade tem endereço: o caixa do Governo do Paraná. Cálculo do engenheiro Leandro Grassmann, diretor do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), aponta que o Estado já deixou de arrecadar R$ 717,9 milhões em dividendos e Juros Sobre Capital Próprio desde a privatização — resultado de nove pagamentos feitos a partir de novembro de 2023, segundo levantamento publicado pelo Plural.

O valor equivale a 23% dos R$ 3,1 bilhões obtidos com a venda das ações e a 27% dos R$ 2,6 bilhões que efetivamente entraram no caixa estadual em agosto de 2023. Mantido o ritmo — e a companhia deve deixar de repassar ao Estado pelo menos R$ 400 milhões por ano —, em cerca de oito anos o total não arrecadado superará o que o Paraná recebeu para se desfazer da empresa. A partir daí, o Estado terá perdido o controle da companhia, aplicado o dinheiro da venda e passado a acumular prejuízo puro na comparação.

Dividendos e JSCP que o Estado deixa de arrecadar · acumulado
Em cerca de oito anos, o que o Paraná deixou de receber ultrapassa o que ganhou com a venda
R$ 3,1 bi — obtido com a venda R$ 2,6 bi — entraram no caixa R$ 718 mi 2026 2027 2028 2029 2030 2031 2032 realizado (9 pagamentos até 2026) projeção · R$ 400 mi/ano
Valores acumulados desde a privatização (ago/2023). 2026: cálculo de Leandro Grassmann (Senge-PR), via Plural. Anos seguintes: projeção a partir de R$ 400 mi/ano informados na reportagem. Fonte: Plural.
Leia também · Plural Governo do Paraná já perdeu R$ 717 milhões em dividendos e juros desde a venda da Copel

É precisamente a nova política de dividendos — pensada para agradar ao mercado — que torna tão volumoso o valor que o Estado vê escapar. O que virou retorno recorde para o investidor é o custo de oportunidade recorde para o Tesouro paranaense.

Sob a antiga regra estatal, com payout menor, a fatia vendida renderia bem menos. A ironia está no centro da conta: a régua criada para valorizar a ação privada é a mesma que dá dimensão ao que o antigo dono perdeu.

Uma prioridade, várias tensões

A reorientação da Copel para o acionista acontece enquanto consumidores questionam tarifas e qualidade do serviço, e enquanto a companhia persegue o que sua direção chama de “segunda onda” de transformação — foco em eficiência operacional e em extrair o máximo valor dos ativos, especialmente às vésperas da revisão tarifária. Para o investidor, é uma tese de renda. Para o cliente e para o ex-controlador, a mesma estratégia levanta uma pergunta incômoda: a serviço de quem trabalha, hoje, a antiga estatal paranaense?

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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