Quando ainda era uma estatal, a Copel distribuía dividendos com parcimônia: nos anos de maior endividamento, a companhia podia repassar aos acionistas apenas 25% do lucro líquido. Menos de dois anos depois de ser vendida na Bolsa e transformada em corporação sem controlador, essa lógica se inverteu. A empresa se comprometeu a distribuir, no mínimo, 75% do lucro líquido todos os anos, ao menos duas vezes por ano. O piso obrigatório, na prática, triplicou.
A mudança não é um detalhe contábil. Ela expõe a nova prioridade da companhia — remunerar o acionista — e ajuda a explicar por que o Governo do Paraná, que abriu mão do controle em agosto de 2023, já vê passar para as mãos de investidores privados um volume de proventos que, mantido o ritmo, superará em cerca de oito anos o que arrecadou com a própria venda.
A regra que mudou
Enquanto foi controlada pelo Estado, a Copel escalonava a distribuição de lucro conforme sua dívida: quanto mais endividada, menos pagava. Segundo a política então vigente, o percentual variava de 25% a 65% do lucro líquido, de acordo com a relação entre dívida líquida e Ebitda.
A nova política, aprovada em maio de 2025 — já sob a condição de corporação —, abandonou esse escalonamento e fixou um piso alto e permanente: no mínimo 75% do lucro, sempre. A régua da estrutura de capital foi definida a partir de um estudo que simulou dezenas de milhares de cenários, e a companhia passou a tratar explicitamente o “retorno aos acionistas” como um de seus objetivos centrais.
Em 15 de julho de 2026, o Conselho de Administração deu mais um passo na mesma direção. Sem mexer no piso de 75%, ajustou os parâmetros de capital: elevou a alavancagem-alvo de 2,8 para 2,9 vezes o Ebitda, deslocou a faixa de tolerância — cujo teto subiu de 3,1x para 3,2x — e dobrou o prazo para retornar à meta, de 24 para 48 meses. Em linguagem financeira, a empresa se deu permissão para operar com um pouco mais de dívida e mais tempo de folga. É espaço para investir e, ao mesmo tempo, preservar o fluxo de dividendos.
O que o Estado deixou de receber
O contraponto dessa generosidade tem endereço: o caixa do Governo do Paraná. Cálculo do engenheiro Leandro Grassmann, diretor do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), aponta que o Estado já deixou de arrecadar R$ 717,9 milhões em dividendos e Juros Sobre Capital Próprio desde a privatização — resultado de nove pagamentos feitos a partir de novembro de 2023, segundo levantamento publicado pelo Plural.
O valor equivale a 23% dos R$ 3,1 bilhões obtidos com a venda das ações e a 27% dos R$ 2,6 bilhões que efetivamente entraram no caixa estadual em agosto de 2023. Mantido o ritmo — e a companhia deve deixar de repassar ao Estado pelo menos R$ 400 milhões por ano —, em cerca de oito anos o total não arrecadado superará o que o Paraná recebeu para se desfazer da empresa. A partir daí, o Estado terá perdido o controle da companhia, aplicado o dinheiro da venda e passado a acumular prejuízo puro na comparação.
É precisamente a nova política de dividendos — pensada para agradar ao mercado — que torna tão volumoso o valor que o Estado vê escapar. O que virou retorno recorde para o investidor é o custo de oportunidade recorde para o Tesouro paranaense.
Sob a antiga regra estatal, com payout menor, a fatia vendida renderia bem menos. A ironia está no centro da conta: a régua criada para valorizar a ação privada é a mesma que dá dimensão ao que o antigo dono perdeu.
Uma prioridade, várias tensões
A reorientação da Copel para o acionista acontece enquanto consumidores questionam tarifas e qualidade do serviço, e enquanto a companhia persegue o que sua direção chama de “segunda onda” de transformação — foco em eficiência operacional e em extrair o máximo valor dos ativos, especialmente às vésperas da revisão tarifária. Para o investidor, é uma tese de renda. Para o cliente e para o ex-controlador, a mesma estratégia levanta uma pergunta incômoda: a serviço de quem trabalha, hoje, a antiga estatal paranaense?