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Três anos e dezenas de ataques depois, violência contra avá-guaranis levou a apenas um processo na Justiça

Enquanto tiros, emboscadas, incêndios e torturas marcaram quase dois anos de conflito nas retomadas indígenas do Oeste do Paraná, a responsabilização dos autores praticamente não saiu do papel

Três anos e dezenas de ataques depois, violência contra avá-guaranis levou a apenas um processo na Justiça
Indígenas do Oeste do Paraná ainda aguardam punição para os responsáveis por dezenas de ataques contra as aldeias entre 2023 e 2025. Foto: José Pires

Série: Dois pesos da Justiça

Guaíra é uma das 50 cidades da região Oeste do Paraná, a 640 quilômetros de Curitiba. Localizada às margens do Rio Paraná, tem do outro lado o estado do Mato Grosso do Sul e, no extremo Oeste, a cidade paraguaia de Salto del Guairá. Essa porção de fronteira com um histórico de violência associada ao contrabando e ao narcotráfico agora está sendo manchada com sangue indígena.

Nos últimos anos, não são apenas as drogas e os cigarros vindos do país vizinho que têm ditado a dinâmica da violência em Guaíra. O sangue que se mistura à terra avermelhada da região é fruto de uma intensa disputa que tem no cultivo da soja e do milho seu principal fator de tensão.

Guaíra divide com Altônia e Terra Roxa um território indígena, a Tekoha Guasu Guavirá onde vivem aproximadamente 2.500 indígenas. No Oeste, existe ainda a Tekoha Guasu Okoy Jakutinga. Nela, cerca de 2.500 avá-guarani se dividem nas cidades de Santa Helena, Diamante D’ Oeste, Itaipulândia, São Miguel do Iguaçu e Foz do Iguaçu.

A Tekoha Guasu Guavirá está sobreposta por 165 fazendas. Ela ainda vive sob um processo de demarcação; porém, há uma liminar na Justiça Federal que impede seu andamento. Nos últimos anos, no entanto, as comunidades avá-guarani foram retomando espaços dentro da terra identificada e delimitada, ampliando as unidades locais ou retomando novas terras.  E esse movimento deflagrou uma guerra. 

Ataques a tiros, uso de tratores, caminhões, carros e motos em tentativas de atropelamentos e até o emprego de pesticidas fizeram parte de um arsenal utilizado contra as novas aldeias. Indígenas foram sequestrados, torturados e baleados. Um conflito que durou quase dois anos e deixou um saldo de dezenas de feridos e um morto. 

E essa violência é acentuada pela leniência da justiça em  punir os responsáveis por estes crimes. Depois da guerra que vitimou dezenas de indígenas, apenas um ataque se transformou em processo na justiça. E nem todas as investidas organizadas por fazendeiros da região resultaram na abertura de inquéritos policiais. 

No entanto, se por um lado polícia e justiça agem com lentidão, por outro fazem valer o peso da lei contra indígenas acusados de crimes cometidos na região no mesmo período. 

Uma investigação do jornal Plural, realizada ao longo de meses, levantou dados por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e retrata o relacionamento da Polícia e da Justiça com os indígenas do Oeste paranaense. 

E é essa a realidade retratada por uma série de reportagens publicadas aqui no Plural com o apoio da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec-PR), do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (Senge-PR). 

Tiros numa noite de verão 

Era a terceira noite do ano de 2025 quando Elizio Galeano saiu de casa para ir ao mercado. Na volta, caminhava sozinho por uma estrada de terra que margeia a Aldeia Yvy Okaju na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, a cerca de 5 km do Centro de Guaíra, quando percebeu a aproximação de dois homens. 

Não deu importância. Mas a dupla, que vinha na direção contrária, atravessou a rua, se aproximou e, sem dizer uma palavra, lhe deu um tiro à queima-roupa. Elizio caiu. Ficou no chão, de bruços, e os criminosos, julgando que estava morto, simplesmente o deixaram lá. “Eu não estava pensando em nada. Só estava vindo, carregando as sacolas com as coisas que tinha comprado no mercado. De repente, vi os dois homens se aproximando e escutei o barulho do tiro. Não lembro como eles eram e nem como era a arma, foi muito rápido”, relata o indígena. 

Quando se levantou, percebeu que tinha sido atingido no lado direito do rosto. O queixo estava esfacelado. Sangrava muito e mesmo assim caminhou. Andou sem saber ao certo o que estava acontecendo. Sangue espesso caia em bicas sobre seu pescoço e peito. Gritar era impossível, já que tinha um sulco na mandíbula com nervos, vasos sanguíneos e ossos estilhaçados. Cambaleou por mais de um quilômetro até chegar na casa de um  tio, onde pediu ajuda. 

Elízio Galeno foi atingido no rosto em um crime que ainda não foi solucionado. Foto: Comunidade avá-guarani.
Elízio Galeano foi atingido no rosto em um crime que ainda não foi solucionado. Foto: Comunidade avá-guarani

Passava das 21h quando chegou à aldeia. Lá, havia pânico generalizado. Os indígenas corriam e gritavam de um lado para o outro. Outras três pessoas tinham sido baleadas, entre elas um menino de quatro anos de idade. Quem socorreu os feridos foi o cacique Gabriel Martinez, que é também o motorista responsável pelo veículo da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que fica à disposição da aldeia para atendimentos de saúde. 

“Foi um caos. Eu estava em casa quando escutei os tiros e os gritos, muitos gritos. Saí correndo e já vi eles trazendo uma criança baleada. Além do menino, tinha mais dois feridos”, lembra o cacique.

Três pessoas que conversavam no quintal de casa, na Aldeia Yvy Okaju, foram surpreendidas por disparos efetuados por dois homens. Depois dos tiros, a dupla seguiu a pé pela mesma estrada onde minutos mais tarde encontraria Elizio. O ataque feriu três pessoas, incluindo a criança de quatro anos que levou um tiro na perna e um indígena atingido na coluna, ficando paraplégico. 

Gabriel levou primeiro a criança para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Guaíra. Voltou e buscou os outros dois baleados. Quando chegou ao hospital, recebeu uma ligação da aldeia dizendo que havia um terceiro ferido. Era Elizio.

“Quando voltei à aldeia para buscar ele, não acreditei no que vi. Pensei em como ele tinha conseguido caminhar com o rosto naquelas condições. O queixo estava destruído, tinha um pedaço assim, tipo pendurado, sabe? Isso não sai da minha cabeça. Se eu pudesse desenhar o que vi, você ia entender. O sangue escorrendo pelo peito, nem sei como consegui dirigir naquela noite”, recorda.

Elizio deu entrada no pronto socorro por volta das 21h30. Tinha sido baleado havia pelo menos uma hora. O hospital já estava cheio de policiais. O jovem avá-guarani ficou internado por 17 dias. Três cirurgias foram necessárias para reconstruir parte do seu rosto. 

Elizio Caetano não pesa mais de 50 quilos. Aos 29 anos de idade, é tão franzino quanto um menino na adolescência. Mal fala português. Olha para baixo o tempo todo e evita o contato visual. Mora com a mãe em uma das últimas casas da aldeia, um barraco de madeira com um quintal repleto de galinhas e cachorros.

Frágil e tímido, Elízio não representava uma ameaça quando foi atacado em janeiro de 2025. Foto: José Pires.
Frágil e tímido, Elízio não representava uma ameaça quando foi atacado em janeiro de 2025. Foto: José Pires.

O jovem avá-guarani não representa perigo, assim como não representava a criança baleada na perna e os demais indígenas que conversavam no quintal naquela noite quente de janeiro de 2025. Ou seja, todos os indígenas eram alvo, não apenas os que participavam das retomadas das suas terras.

Depois dos ataques em janeiro de 2025, a Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito que mais tarde se transformou em processo. Ele tramita sob sigilo na Seção Judiciária do Paraná do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Segundo informações do TRF4, conseguidas por meio da Lei de Acesso à Informação, vários réus são investigados nesta ação.

Em março de 2025 a Polícia Federal deflagrou a operação “Mbarete”, por meio da qual cumpriu 11 mandados de busca e apreensão contra suspeitos do ataque de janeiro. Segundo a PF, celulares foram apreendidos na busca de indícios da autoria dos crimes. O delegado à frente da operação afirmou que o ataque teria sido feito por uma organização criminosa. Não há informações sobre prisões de suspeitos.

Hoje, esse episódio é o único processo em tramitação no TRF4 envolvendo a violência contra os avá-guarani. Dezenas de ataques que começaram em dezembro de 2023 não chegaram à Justiça. Muitos deles, inclusive, sequer foram ou estão sendo investigados pela Polícia Federal ou Ministério Público Federal (MPF). 

Uma cronologia de sangue 

A Tekoha Guasu-Guavirá teve seus limites identificados e delimitados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em 2018. No mesmo ano, a prefeitura de Guaíra ingressou na Justiça Federal do Paraná uma contestação aos estudos que fundamentaram a delimitação da área. A ação teve êxito em primeira instância. O juiz anulou os estudos e determinou que a Funai suspendesse o processo de demarcação. A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) também acionou a Justiça com a intenção de barrar as demarcações.

Em 2020, já durante a pandemia, a Justiça voltou a decidir favoravelmente à prefeitura. Na época, a Funai era presidida por Marcelo Xavier, indicado pelo governo Bolsonaro, e acatou a decisão judicial. Com isso, foi publicada a Portaria nº 418/2020, que anulou oficialmente os estudos da terra indígena.

Dois anos depois, em 2022, o Ministério Público Federal recomendou que a Funai restabelecesse a validade dos estudos. Marcelo Xavier, porém, ignorou. A situação só mudou após a troca de governo. Com a posse de Joenia Wapichana na presidência da Funai, a recomendação do MPF foi acolhida.

A partir daí, o processo voltou a avançar. Em dezembro de 2023, foi confirmada a validade dos estudos de identificação e delimitação, consolidando o entendimento de que a Terra Indígena Guasu-Guavirá terá pouco mais de 24 mil hectares.

Naquele mesmo ano, os avá-guarani decidiram reaver parte de seu território que está sobreposto por fazendas e plantações de soja. Cerca de 165 propriedades da região ocupam áreas da terra indígena e nos últimos anos as comunidades Guaranis foram retomando espaços dentro da terra identificada, ampliando as unidades locais ou retomando novas terras.

Em 24 e 25 de dezembro de 2023, duas ocupações surgiram e foram imediatamente atacadas por fazendeiros e pistoleiros, com a destruição de barracos, queima de motocicletas e morte de animais. Os primeiros ataques deram início a uma sequência de ações violentas que mergulhou a região em um cenário de permanente terror. A quantidade, porém, é inexata. Ela pode ser bem maior, já que os ataques e ameaças se incorporaram à rotina dos avá-guarani e alguns deles sequer são lembrados.

Cacique Gabriel Martinez e Ilson Soares. Aldeia ainda aguarda desfecho do inquérito sobre os ataques que feriram quatro indígenas. Foto: José Pires.
Cacique Gabriel Martinez e Ilson Soares. Aldeia ainda aguarda desfecho do inquérito sobre os ataques que feriram quatro indígenas. Foto: José Pires.

2023 - Em dezembro, a Aldeia Yvy Okaju, que também teve uma ampliação de seu território, sofreu intensos ataques durante dois dias. Dezenas de homens armados cercaram a área retomada pelos indígenas com caminhonetes, carros, tratores e motos. Atiravam de maneira ininterrupta contra casas e pessoas e só paravam quando viaturas da Polícia Federal se aproximavam. Depois que os agentes deixavam o local, os ataques continuavam.

Nos dois dias, a comunidade sofreu diversos ataques.

2024 - Nos dois primeiros dias do ano, a Aldeia Yvy Okaju voltou a ser atacada. Homens armados disparam à noite durante horas. A presença da Polícia Federal e da Polícia Militar amenizou a situação momentaneamente, mas com a saída das forças de segurança os ataques reinciavam.

Em 10 de janeiro de 2024, durante uma reunião religiosa na ampliação da aldeia, uma indígena foi atingida por tiros enquanto se agachava para pegar um objeto ritualístico. Ela foi ferida na perna e na barriga. Outros três indígenas também foram baleados.

O autor dos disparos foi visto correndo em direção a uma casa abandonada e foi capturado pela comunidade e entregue à polícia. Quem atendeu a ocorrência foi o Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFRON), que chegou com armas apontadas para os indígenas. As vítimas foram levadas ao pronto atendimento, onde enfrentaram hostilidade e pressão psicológica.

A indígena baleada foi levada ao hospital com ferimentos graves. Após o atendimento inicial, ela desenvolveu pancreatite por causa dos antibióticos que precisou tomar e teve de ser internada novamente. Ficou em uma cadeira de rodas por muito tempo e ainda está em recuperação, com cicatrizes físicas e psicológicas.

Em 14 de janeiro, um xamoi (liderança espiritual) de 51 anos foi sequestrado e torturado por dois homens armados. A vítima sofreu agressões físicas, ameaças e foi abandonado horas depois em uma estrada de terra, mas não registrou boletim de ocorrência por medo de represálias e por suspeitar do envolvimento de policiais.

Em março de 2024, indígenas e apoiadores das retomadas foram interceptados por um fazendeiro da região. Ele impediu a passagem do grupo, fez ameaças e chamou outros fazendeiros e a polícia. As polícias Civil e Militar e o BPFROM chegaram ao local, revistaram o grupo e os conduziram à delegacia, onde ficaram detidos até à noite. Os fazendeiros, porém, não foram revistados ou detidos.

Na delegacia, eles foram mantidos no pátio sob a guarda de um cachorro solto. A delegada que atendeu a ocorrência se recusou a registrar as denúncias de cárcere privado, condução ilegal e ameaças feitas pelo fazendeiro, alegando que estavam errados e que as denúncias seriam tratadas como um mal-entendido.

Após o registro do boletim de ocorrência, foi marcada uma audiência. A audiência não teve a presença do denunciante, do promotor ou do juiz, resultando no arquivamento do caso solicitado pelo Ministério Público Estadual (MP-PR).

Em julho de 2024, os indígenas realizaram uma nova retomada. Surgia a Tekoha Arapoty no dia 05 daquele mês. A comunidade estava se estabelecendo na nova área quando começaram a enfrentar ataques.

No dia 7 de julho, dois indígenas estavam indo buscar alimentos na Tekoha YvyPorã. Para isso, precisavam passar por uma estrada que atravessa uma fazenda. Por volta das 19h, foram atacados e uma indígena foi atingida por um tiro na perna e outro no pé.

No dia 08 de julho, a retomada iniciada em Terra Roxa sofreu o primeiro ataque. Os indígenas foram cercados por fazendeiros fortemente armados, tiros foram disparados. Barracos e alimentos foram queimados.

No dia 13 de julho, outro ataque. No sábado de frio e chuva, os guaranis da retomada Tata Rendy foram novamente cercados. Neste ataque, uma senhora indígena acabou se perdendo com seu filho na mata e demorou pelo menos uma noite e um dia para ser encontrada.

Em 14 de julho, houve uma ampliação da Tekoa Taturi em Guaíra e mais uma vez os indígenas foram atacados. Dois deles foram atropelados e só receberam atendimento horas mais tarde. “A comunidade da Taturi foi cercada por fazendeiros e pela polícia. E a PM que apareceu lá não estava garantindo a segurança deles, mas pressionando para que os indígenas recuassem e abandonassem os acampamentos”, conta Ilson Soares, também conhecido como Okaju, liderança da Aldeia Yvy Okaju.

“Lonas e barracos foram queimados, a comida que não foi queimada foi saqueada. Os indígenas feridos não puderam ser atendidos porque os fazendeiros não deixaram o SAMU acessar o local. A PM também disse que ninguém entraria, nem atendimento à saúde, nem SESAI, nem FUNAI”, complementa Ilson Soares.

No dia 16 de julho, finalmente representantes do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Funai compareceram à região. Esperava-se também a presença de representantes da Itaipu, mas eles não compareceram.

Também no dia 16, aconteceu a ampliação de mais uma aldeia. Desta vez, um grupo de 30 indígenas montou acampamento na região do antigo Mirante da Eletrosul, em Guaíra. Na manhã do dia 17, houve um cerco de homens armados. Na ocasião, o Batalhão de Fronteira da Polícia Militar ameaçava entrar no acampamento em companhia da Polícia de Choque. A muito custo, os guaranis se comunicaram com o Ministério dos Povos Indígenas, que se deslocou para a retomada. No dia 17, a Força Nacional de Segurança chegou à região, onde permaneceu até junho de 2026.

Ainda em meados de julho de 2024, um padre do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e uma professora foram perseguidos por fazendeiros armados enquanto levavam alimentos para as retomadas. Os fazendeiros bloquearam a estrada com uma retroescavadeira e tentaram impedir a passagem. O sacerdote e a professora conseguiram escapar, mas os alimentos foram queimados.

O Cacique Bernardo foi um dos feridos durantes os diversos ataques contra sua aldeia, a retomada Yvyju Avary. Foto: Comunidade avá-guarani.
O Cacique Bernardo foi um dos feridos durantes os diversos ataques contra sua aldeia, a retomada Yvyju Avary. Foto: Comunidade avá-guarani.

Em 29 de agosto, uma série de investidas feitas por fazendeiros e seus capangas deixou seis pessoas feridas e quatro precisaram ser internadas, duas em estado grave. Uma mulher ficou com muitos estilhaços de munição pelo corpo. Os tiros foram disparados com espingarda de chumbo.

Em 13 de outubro, a Tekoha Y’Hovy, em Guaíra, sofreu mais um ataque a tiros . Os disparos ocorreram contra jovens e crianças indígenas que jogavam bola em um campo de futebol. 

Na manhã de 17 de outubro, dois indígenas foram feridos depois de mais um ataque de fazendeiros na tekoha Yvyju Avary . Um avá-guarani foi agredido com um pedaço de madeira e outro atropelado. Funcionários de uma fazenda da região também ficaram feridos no conflito.

Em 29 de dezembro, a Aldeia Yvy Okaju foi atacada com bombas caseiras e tiros. Uma casa foi incendiada.

Em 31 de dezembro, a Aldeia Yvy Okaju ficou novamente sob ataques enquanto os indígenas buscavam se proteger em meio à vegetação, que foi incendiada junto com um dos barracos. Um guarani foi baleado no braço.

2025 - O ano de 2025, além de registrar um ataque que baleou quatro indígenas no início de janeiro, também foi marcado pelo crime mais cruel desde o início das novas retomadas. 

Na madrugada de 12 de julho, Everton Lopes Rodrigues, um indígena de 21 anos, foi assassinado e decapitado. Sua cabeça foi separada do corpo e junto dela foi deixada uma carta com ameaças à comunidade indígena, incluindo as crianças das aldeias. Everton vivia com a família na Tekoha Yvyju Avary, retomada que fica há cerca de 18 quilômetros do Centro de Guaíra.

Everton, ao lado de outros 12 baleados, retrata o saldo dos intensos ataques promovidos dezenas de vezes pelo agronegócio de Guaíra e Terra Roxa ao longo de um ano e meio. 

Centenas de homens armados participaram das investidas contras as aldeias. Esses criminosos têm nome, sobrenome e endereço. São conhecidos da comunidade indígena e também da população de Guaíra e Terra Roxa. Entretanto, apenas um deles foi preso e processado na Justiça.

Inquéritos e processos

Cabe à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal apurar violência contra indígenas, motivada por raça, cultura ou relação com os territórios. As investigações tramitam nestes dois órgãos com o MPF supervisionando as atividades da PF. Isso ocorre porque, na esfera federal, os inquéritos seguem um sistema de tramitação direta entre os dois órgãos, sem a necessidade de intervenção judicial em todas as etapas, o que, na teoria, torna a investigação mais ágil.

Nos primeiros momentos após o crime, também é comum que Polícia Civil e Polícia Federal iniciem apurações paralelas até que a motivação seja esclarecida. A definição da competência depende justamente desse fator. Se houver indícios de que a violência foi motivada por ódio à etnia, disputa territorial ou violação de direitos coletivos dos povos indígenas, o caso passa à alçada da Justiça Federal. Já crimes comuns, sem relação com a condição indígena da vítima, permanecem sob responsabilidade da Justiça Estadual, conforme a Súmula 140 do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O Plural solicitou à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal no Paraná, via Lei de Acesso à Informação (LAI), a quantidade de inquéritos abertos entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025 envolvendo violência contra indígenas em Guaíra, Terra Roxa e Altônia.

Em resposta, a Polícia Federal informou que instaurou 63 procedimentos envolvendo ocorrências registradas em Guaíra e Terra Roxa entre 23 de dezembro de 2023 e 23 de dezembro de 2025. Segundo a corporação, aproximadamente 17 desses procedimentos dizem respeito a casos de violência praticada contra indígenas Avá-Guarani. A resposta, entretanto, não esclarece se os 63 procedimentos se referem exclusivamente a casos relacionados aos conflitos envolvendo indígenas ou ao conjunto de procedimentos instaurados pela unidade policial no período.

O pedido de LAI protocolado pelo Plural solicitava a quantidade de inquéritos envolvendo violência contra indígenas. Mas a resposta da PF se limitou aos procedimentos abertos entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025. Nem todos os procedimentos são inquéritos. Existem também o Termo Circunstanciado (TCO), registros simplificados para crimes leves, e a Verificação de Procedência das Informações (VPI), uma investigação preliminar informal. Ou seja, a PF não informou quantos destes procedimentos se transformaram em inquéritos.

A Polícia Federal também não revelou em quantos procedimentos os indígenas figuravam como vítimas e em quantos estão como réus, já que conflitos internos, ou seja, violência praticada de indígena contra indígena (violência intraétnica), também podem ser investigadas pelo órgão.

Assim, se os 17 procedimentos abertos pela PF neste período de tempo forem inquéritos e em todos eles os indígenas forem apenas vítimas, muitos dos ataques registrados ao longo de um ano e meio não se transformaram em investigação. E a maioria dos inquéritos ainda não teve um desfecho quase três anos depois do início dos ataques.

O Plural também solicitou ao MPF, via LAI, a quantidade de inquéritos envolvendo violência contra indígenas no mesmo período de tempo em Guaíra, Terra Roxa e Altônia. O MPF respondeu que sete procedimentos extrajudiciais foram autuados entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025.

Mas nem todos os procedimentos extrajudiciais do MPF são inquéritos.  Antes de recorrer à Justiça, o MPF pode adotar medidas administrativas para investigar possíveis irregularidades, como inquéritos civis, recomendações, audiências públicas e termos de ajustamento de conduta (TAC). Confirmadas as irregularidades, pode propor um TAC e, se houver indícios de crime, encaminhar o caso à área criminal.

Segundo informações do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), os ataques contra os avá-guarani deram origem a apenas dois processos na Justiça Federal até o momento, sendo que um deles já foi arquivado. De acordo com o tribunal, o caso arquivado teve origem em um pedido do MPF para apuração do relato de lideranças da aldeia Ivy Okaju sobre uma denúncia de sequestro de uma criança indígena, além de incêndio criminoso e disparos de arma de fogo. O outro processo, ainda em tramitação, investiga o ataque que vitimou Elizio Galeano e mais três indígenas, em janeiro de 2025.

Gráfico revela a disparidade entre os ataques sofridos pelos avá-guarani e a atuação da PF e do TRF-4. Arte: José Pires
Gráfico revela a disparidade entre os ataques sofridos pelos avá-guarani e a atuação da PF e do TRF-4. Arte: José Pires

A sensação de impunidade é outro martírio dos guaranis. Cacique Gabriel lembra que até hoje ninguém foi preso pela noite de terror de janeiro de 2025. “É revoltante, né? Se a gente pelo menos soubesse quem foi, ficaríamos um pouquinho mais aliviados.  Então a gente fica com essa mágoa. Queria saber se um dia alguém vai ser punido por aquele atentado”, questiona.

Para a Comissão Guarani Yvyrupa, organização indígena que articula comunidades do povo Guarani nos estados das regiões Sul e Sudeste do Brasil, a polícia e a Justiça trabalham com excessiva lentidão para investigar e punir agressores de indígenas.

Segundo a CGY, a explicação dessa morosidade se deve a fatores internos e externos aos órgãos da persecução criminal (polícia e Ministério Público). “O fator externo, que escapa ao controle dos investigadores, é a dificuldade que a própria população local não indígena cria para a investigação; mesmo os que não se opõem aos guaranis, tendem a proteger os não indígenas que entram em conflito com os guaranis, que são vistos como invasores, ‘paraguaios’, estrangeiros. O fator interno, que o Estado deveria combater, é o preconceito ideológico de alguns policiais, promotores e procuradores, que acabam capturados por aquele preconceito que predomina na população local”, diz a Comissão.

A CGY ainda acrescenta que o que parece funcionar é trazer atores de fora, sempre que possível, para reprimir e investigar a violência contra os indígenas. Nesse sentido, a força nacional auxiliou muito, assim como a designação de um delegado da Polícia Federal de Brasília para conduzir parte das investigações dos ataques cometidos contra os indígenas na passagem de 2024 para 2025. As investigações têm demorado, mas pelo menos foram feitas.

Agora, a comissão cobra que as autoridades concluam as investigações e responsabilizem os envolvidos.

O Plural entrou em contato com a Polícia Federal solicitando informações sobre os procedimentos abertos pela corporação entre 2023 e 2025 para apurar os ataques contra os indígenas do oeste. Também solicitou informações sobre a atuação da PF durante a onda de violência que atingiu as comunidades guarani. Mas até a publicação desta reportagem a Polícia Federal não tinha respondido.

O MPF também foi procurado pela reportagem e informou que o procurador responsável pelo caso está em férias e que o órgão deve responder assim que ele retornar ao trabalho. Portanto, essa reportagem será atualizada com a resposta do Ministério Público Federal quando ela for enviada.

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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