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Quem é Antônia Paté, a cacica que enfrentou Jorginho Mello

O vídeo em que uma cacica rebate o governado catarinense Jorginho Mello correu o país. O que pouca gente sabe é que a mulher que o enfrentou nasceu, cresceu e se tornou liderança em uma das mais longas batalhas indígenas do Sul do Brasil.

Quem é Antônia Paté, a cacica que enfrentou Jorginho Mello
Antônia Paté ficou conhecida nacionalmente depois de rebater as ofensas de Jorginho Mello. Foto: Arquivo pessoal.

O vídeo em que uma cacica rebate o governado catarinense Jorginho Mello correu o país. O que pouca gente sabe é que a mulher que o enfrentou nasceu, cresceu e se tornou liderança em uma das mais longas batalhas indígenas do Sul do Brasil.

Durante uma passagem no dia 8 de julho pela Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ, no município de José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), proferiu xingamentos a lideranças indígenas. Na ocasião, ele concedia entrevista a uma emissora de televisão sobre a barragem de contenção de cheias, construída no interior da Reserva.

Ao saber da vinda do governador, as mulheres La Klãnõ Xokleng organizaram um protesto pacífico cobrando cumprimento de acordos sobre a barragem e seu impactos na Terra Indígena. Ao ser questionado sobre a sua declaração de que todos os encaminhamentos relativos às obras da Barragem Norte haviam sido tomados pelo governo do estado, Jorginho Mello reagiu de forma agressiva, proferindo ofensas verbais às lideranças.  

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Mas foi respondido à altura por uma das cacicas e perdeu novamente a compostura xingando a indígena e mostrando na prática porque é considerado inimigo dos povos indígenas de Santa Catarina.

Depois do episódio, a Defensoria Pública da União (DPU) ajuizou uma ação civil pública exigindo que o Estado de Santa Catarina pague R$ 1 milhão em indenização por danos morais coletivos pelas ofensas desferidas pelo governador catarinense.

Mas quem é, afinal, a cacica que se impôs e confrontou o governador de Santa Catarina?

Antônia Konheco Paté é uma importante liderança indígena do povo Laklãnõ-Xokleng, atuando como cacica da aldeia Koplag. Sua história se confunde com a própria história de resistência do povo Laklãnõ- Xokleng diante dos impactos provocados pela Barragem Norte. Aos 42 anos, prestes a completar 43, ela afirma que nasceu e cresceu dentro da luta pelos direitos indígenas. "Eu digo que nasci no movimento. Cresci no movimento e continuo no movimento por causa dessa barragem", resume.

Sua história começa ainda na década de 1980, quando uma das primeiras grandes enchentes provocadas pela Barragem obrigou sua família a deixar o local onde vivia. Os avós se mudaram para a Aldeia Bugio, região que hoje integra a área em disputa judicial relacionada ao marco temporal. Sua mãe tinha apenas 12 anos quando foi morar ali. Casou-se na comunidade e foi nesse período que Antônia nasceu.

Depois, a família retornou para a Aldeia Sede da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ. Em 2014, durante um novo ciclo de mobilizações, mudou-se novamente, desta vez para a área próxima à Barragem Norte, onde seria fundada a aldeia Koplag, território do qual hoje é cacica.

Ela lembra que tinha apenas cinco anos quando participou da primeira ocupação do canteiro de obras da barragem. "Foi a primeira vez que ouvi dizer que eu tinha nascido no movimento. Nós ocupamos o canteiro de obras e dali para frente nunca mais paramos. Cresci vendo a nossa comunidade pedir sempre a mesma coisa."

A principal reivindicação, explica, nunca foi a retirada da barragem, mas o reconhecimento dos danos provocados por sua construção. "Nós, Laklãnõ -Xokleng, não somos contra a barragem. Nós só queremos o nosso direito de viver”, esclarece Antônia.

Ela recorda que, quando a Barragem Norte foi construída, ainda não existia a obrigação legal de elaborar estudos de impacto socioambiental sobre obras desse porte. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, essa exigência passou a existir, e desde então as comunidades indígenas cobram que esse levantamento seja realizado e reconhecido oficialmente.

Segundo Antônia, um estudo já foi elaborado, analisado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e encaminhado ao governo de Santa Catarina. O documento, afirma, aguarda apenas o reconhecimento formal por parte do governador Jorginho Mello.

"O levantamento existe. Foi para Brasília, voltou e hoje está na mesa do governador. Nós pedimos apenas que ele reconheça esse estudo, porque é a partir dele que as negociações podem avançar."

Para ela, a barragem quase destruiu a identidade do povo Xokleng. "Essa barragem quase acabou com a nossa cultura. Quase apagou a nossa história. Hoje nós estamos fazendo o resgate da nossa cultura, mas ela quase foi apagada."

A liderança de Antônia também foi construída dentro da própria família. Ela conta que foi criada pelo avô, João Paté, uma das principais lideranças históricas da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ. Foi ele quem iniciou as ações judiciais relacionadas tanto ao marco temporal quanto aos impactos da barragem, com apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

"Eu sempre olhava para ele e pensava: quando eu crescer, também quero ser uma liderança. Quando ele parar, quero continuar a luta dele." Desde criança, acompanhava reuniões, mobilizações e negociações ao lado do avô. "Ele sempre ensinava a gente a ser liderança. Tudo o que eu faço hoje carrego do que aprendi com ele”, conta.

Em 2014, durante as mobilizações em torno da barragem, passou a atuar diretamente ao lado de João Paté. Três anos depois, participou da criação da aldeia Koplag onde em foi eleita cacica.

Em 2019, Antônia foi convidada para participar da primeira Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília. Representou as mulheres dos três povos que vivem na Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ — Kaingang, Guarani e Laklãnõ -Xokleng.

Antônia Paté é uma liderança indígena reconhecida nacionalmente. Foto: Arquivo pessoal.
Antônia Paté é uma liderança indígena reconhecida nacionalmente. Foto: Arquivo pessoal.

A participação na marcha marcou o início de uma nova etapa em sua atuação política. "Quando voltei de Brasília comecei a organizar as mulheres da nossa terra indígena."

Indicada pelas lideranças tradicionais, passou a representar as mulheres da comunidade na organização feminina indígena local e, posteriormente, também em articulações estaduais e nacionais, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ARPINSUL).

Segundo ela, atualmente mais de 500 mulheres participam da organização, que também reúne jovens indígenas. "Hoje, representamos as mulheres da nossa terra indígena na APIB, na ARPINSUL e em outras organizações. Também atuo como defensora dos direitos humanos, defendendo os direitos dos povos indígenas, tradicionais e quilombolas."

Além da atuação em Santa Catarina, ela participa da retomada indígena em Canoas, no Rio Grande do Sul, instalada em uma área pertencente ao Exército Brasileiro. Segundo a cacica, o processo conta com acompanhamento do Ministério Público Federal e está em fase final. "Vamos conquistar essa terra também. É um lugar por onde os Laklãnõ/Xokleng passavam e onde nossos antepassados também viveram”, diz.

Mulheres La Klãnõ-Xokleng na luta contra a tese do Marco Temporal. Foto: Arquivo pessoal.
Mulheres La Klãnõ-Xokleng na luta contra a tese do Marco Temporal. Foto: Arquivo pessoal.

As agressões do governador

Antônia Paté que durante a visita de Jorginho Mello à Barragem Norte era a única cacica presente na terra indígena, pois as demais lideranças estavam em viagem.

Ela havia sido designada pela cacica-presidente, Fabiana, para receber uma equipe do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que visitava a região para discutir obras previstas, como uma ponte, uma estrada e intervenções no canal extravasor da barragem.

Enquanto a equipe técnica realizava a visita, moradores da comunidade promoviam um ato com cartazes, cantos tradicionais e rituais para denunciar os impactos sofridos pelo povo Xokleng.

Foi nesse momento que o governador chegou ao local. Segundo Antônia, Jorginho Mello determinou que os indígenas interrompessem os cantos porque estariam atrapalhando a gravação de uma reportagem. "Nós continuamos cantando."

Ela afirma que o governador então passou a dirigir ofensas às mulheres indígenas. "As mulheres ficaram revoltadas. Eu fui conversar com ele com todo respeito. Estendi a mão e disse: 'Boa tarde, governador'. Perguntei se ele tinha vindo conversar com a comunidade ou com as lideranças”, conta Antônia.

Ao se apresentar como cacica, diz ter ouvido do governador a resposta: "E eu com isso?". Mesmo assim, continuou o diálogo e lembrou que ele estava dentro de um território indígena. "Eu disse: 'O senhor sabe que está dentro da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ?'."

Segundo Antônia, a resposta foi uma nova ofensa. "Ele mandou eu ir à merda."

Durante a entrevista que o governador concedia no local, ela rebateu uma declaração de que apenas cinco pessoas estariam promovendo o protesto por interesses eleitorais.

"Eu disse: 'Eu não sou candidata. Eu sou cacica, eleita pelo meu povo. Quem está fazendo política dentro da terra indígena é o senhor, não eu'." Ela relata ainda que, após nova troca de ofensas, foi contida pelos seguranças do governador. "Os seguranças me seguraram e começaram a me puxar. Quando a comunidade viu aquilo, foi para cima dele. Os seguranças me soltaram e retiraram o governador do local”, lembra.

Após o episódio, Antônia afirma que recebeu manifestações de solidariedade de parlamentares e partidos de esquerda, além de notas públicas de repúdio divulgadas nas redes sociais.

Ela afirma que também passou a reforçar sua segurança. Segundo a cacica, durante as eleições anteriores foi procurada por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro em razão de seu apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Todo cuidado é pouco. Eu me cuido muito. Acho que preciso até de proteção da Polícia Federal."

Apesar das ameaças e dos conflitos, Antônia diz que não pretende abandonar a luta iniciada ainda na infância. "Eu nunca vou parar. Vou continuar firme e forte batalhando pelo meu povo e pelos direitos dos povos indígenas."

 

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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