“Meu pai me criou como uma criança normal. Isso me impactou de forma gigantesca. Nunca me permiti entrar no lugar de vítima porque sempre me vi como uma pessoa normal, apesar das minhas limitações.” O surfista capixaba Derek Rabelo, 33 anos, tem certeza de que a coragem para enfrentar ondas de até 15 metros está diretamente ligada à forma como foi educado.
“Meu pai me criou para o mundo”, disse ele ao Plural durante sua participação como palestrante no Festival Internacional de Inovação de Londrina (FIIL), na última quinta-feira (27). Nascido com glaucoma, ele é o único surfista cego que já encarou ondas de Pipeline (Havaí), Teahupoo (Taiti) e Nazaré (Portugal).
“O medo mostra que talvez eu não esteja preparado. Então, quando sinto medo, treino mais, foco mais no que quero conquistar. Aprendi a usar o medo como meu aliado”, afirma.

Morando atualmente em Florianópolis, o surfista já viajou para mais de 25 países em busca de ondas grandes. Estrela o documentário Muito Além do Que se Vê, disponível na Globoplay, ele se dedica também à carreira de palestrante corporativo.
O que leva alguém a enfrentar o perigo repetidas vezes? Prazer? Adrenalina? Desejo de superação? Derek não hesita diante dessas perguntas: “É prazer, é estar em contato com a natureza, é inclusão. O esporte nos faz pertencer a um segmento. Isso vale para qualquer pessoa.”
Acostumado ao mar de Guarapari desde criança, o jovem aprendeu a “ler” as ondas pela audição e sensibilidade corporal. “Tenho que estar sempre atento a todos os meus sentidos. Ouço o barulho da onda quebrando para saber quando preciso furá-la e passar por baixo. Uma onda grande pode machucar ou até ser fatal”, explica.
Apesar do risco, ele nunca sofreu acidentes graves no mar. “Eu gosto de arriscar, mas com noção do perigo e preparado. Isso vale para a vida pessoal, para o esporte, para os negócios. Minha fé e minha equipe me sustentam.”
Além do surfe, Derek também se aventura no downhill skate — modalidade em ladeiras íngremes e curvas fechadas, na qual a velocidade pode ultrapassar 130 km/h. “Me identifiquei muito. Hoje pratico mais como hobby, mas já competi. No skate, me machuquei mais do que no surfe”, conta, rindo.
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi conhecer e surfar ao lado de Derek Ho. “Foi especial para nós dois. Tornei-me amigo dele e da família. Ele já faleceu, mas teve um impacto enorme na minha história e na vida do meu pai”, lembra. Também surfista, Ernesto Rabelo deu o nome ao filho em homenagem ao ídolo, que foi o primeiro havaiano a ganhar um campeonato mundial, em 1993.
Pioneiro no surfe adaptado, o capixaba observa avanços importantes no Brasil, embora ainda lentos. “Quando comecei, não havia outras pessoas. Hoje já vemos mais atletas com diferentes deficiências. É muito bacana. Espero que cresça cada vez mais.”
Mesmo sem se preocupar em ganhar, ele segue enfrentando ondas gigantes com a mesma intensidade. Paralelamente, tornou-se referência no mundo corporativo, levando sua história a eventos como o FIIL. “Amo palestrar no Brasil e fora dele. Tenho visto resultados muito transformadores.”