A campanha de Sandro Alex (PSD) ao governo do Paraná denunciou ao Tribunal de Contas da União (TCU) uma suposta manobra da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) para beneficiar a candidatura de Sergio Moro (PL). O vice na chapa de Moro, Edson Vasconcelos, está licenciado da presidência da Fiep e poderá voltar à diretoria em função de uma mudança no estatuto da entidade feita em agosto. Moro ainda teria participado de eventos da Federação para fazer campanha no ano passado, com um custo total de R$ 11,2 milhões.
Vasconcelos foi eleito presidente da Fiep para o mandato 2023-2027, mas deixou o cargo em março deste ano para se filiar ao PL (o presidente hoje é Virgílio Moreira Filho). Segundo a denúncia, pelo estatuto da entidade ele deveria ficar cinco anos impedido de ocupar cargos, mas em 26 de agosto uma Assembleia Geral Extraordinária aprovou a retirada da quarentena para casos relacionados a incompatibilidade com função política – a situação de Vasconcelos.
Para a campanha de Sandro Alex, a alteração foi feita para beneficiar o vice de Moro – Vasconcelos se licenciou, se filiou ao PL, virou vice na chapa de Moro e poderá voltar à diretoria da entidade após as eleições, contrariando o que dizia o estatuto. O artigo 36 do documento determinava perda de mandato do Presidente, do 1º Diretor Secretário e do 1º Diretor Financeiro que acumularem suas funções com as de agente político.
De acordo com a denúncia, a quarentena de cinco anos não foi eliminada – só foi excluída no caso de Vasconcelos. "A reforma não suprimiu a quarentena de cinco anos como regra geral. Suprimiu-a, apenas e exatamente para as duas hipóteses em que se enquadra a situação fática de Edson José de Vasconcelos: a renúncia ao cargo para concorrer a mandato eletivo e a incompatibilidade decorrente da assunção de função de agente político", diz o documento.
A alteração foi aprovada em assembleia realizada durante o evento Expo+Indústria, no mesmo local, o Expotrade Convention Center, em Pinhais. Para a campanha de Sandro Alex, o objetivo foi reunir o maior número de delegados e atingir o quórum qualificado de dois terços exigido para a reforma do estatuto.
Possível uso da estrutura da Fiep
A denúncia de Sandro Alex afirma ainda que a Fiep foi usada, durante a gestão de Vasconcelos, para beneficiar a campanha de Sergio Moro. O então pré-candidato do PL ao governo participou de Fóruns Regionais da Indústria promovidos no ano passado pela entidade, como convidado de honra de Vasconcelos. A Fiep realizou fóruns em Guarapuava (28 de março), Pato Branco (11 de abril), Cambé, (25 de abril), Cascavel (6 de junho), Maringá (13 de junho), Ponta Grossa (27 de junho), Irati (4 de julho) e Curitiba (7 de julho).
"O hoje candidato ao Governo do Estado do Paraná Sergio Moro – que, à época dos eventos, já se anunciava como pré-candidato para as Eleições Gerais de 2026 – compareceu, como convidado de honra, a praticamente todos esses eventos, neles proferindo discursos que extrapolaram a pauta industrial regional para assumir contornos nitidamente eleitorais", diz a denúncia ao TCU.
No Fórum realizado em Pato Branco, Moro focou seu discurso em críticas ao PT (seu assunto preferido) e insinuou que seus adversários na campanha teriam ligação com partido. "Não dá para deixar o Paraná cair nas mãos de um candidato do PT ou apoiado pelo PT. Tenho autoridade para dizer que eu sou o principal opositor do Lula aqui no estado do Paraná", afirmou Sergio Moro.

Gasto de R$ 11,2 milhões com os fóruns
A denúncia questiona ainda cinco contratos do Sistema Fiep, Sesi, Senai e IEL para a divulgação e montagem de estrutura dos fóruns com participação de Sergio Moro. Segundo a campanha de Sando Alex, foram gastos cerca de R$ 11,27 milhões, o que inclui R$ 600 mil para mídia e divulgação do “Momento Indústria”; R$ 496,1 mil para propagandas de rádio; R$ 2,27 milhões para locação de tendas e estruturas; R$ 1,9 milhão para organização de eventos e alimentação; e contratos de R$ 6 milhões para serviços de live marketing.
"Os Fóruns Regionais da Indústria de 2025, a Expo+Indústria de 2026 e a Assembleia Geral Extraordinária nela realizada foram custeados pela estrutura do Sistema Fiep, que mantém, segundo já reconhecido pelo Tribunal de Contas da União, caixa único sem segregação contábil entre as receitas de origem parafiscal e as receitas privadas", afirma a denúncia.
Principais pedidos da campanha de Sandro Alex pede ao TCU:
- Que a Fiep informe os gastos para a realização dos Fóruns Regionais da Indústria de 2024 e 2025, com fonte de custeio;
- Que a Fiep informe os valores gastos com o evento Expo+Indústria de 2026 e com a Assembleia Geral Extraordinária de 26 de agosto de 2026, incluída eventual verba de deslocamento, hospedagem ou alimentação de delegados, convidados e dirigentes;
- Que a Fiep apresente contratos, termos aditivos, notas de empenho e comprovantes de pagamento relativos aos ajustes celebrados com RIC Notícias Radiodifusão, Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná, ABZ Eventos Eireli e Air Marketing e Entretenimento para divulgação;
- Que a Fiep apresente demonstrativo contábil que permita identificar a fonte de custeio, própria ou parafiscal, de cada uma das despesas relacionadas;
- Instauração de processo apartado de tomada de contas especial para apuração de eventual dano decorrente da aplicação de recursos de natureza parafiscal, oriundos dos repasses do Sesi.
Por meio de sua assessoria, a campanha de Sergio Moro informou que não vai se manifestar sobre o assunto.
O que diz a Fiep
Em nota, a Fiep informou que não foi formalmente citada para apresentar manifestação. A entidade garantiu que dispõe de "amplo, detalhado e organizado acervo documental, atas, editais de convocação, contratos, notas de empenho e registros contábeis, referentes a todas as atividades mencionadas na denúncia que, em momento oportuno, poderá ser apresentada de forma transparente e integral ao Tribunal de Contas da União".
A Federação disse lamentar que o teor da denúncia "tenha sido antecipado à imprensa antes mesmo de a entidade ser cientificada pelos canais próprios, circunstância que reforça a leitura de que se trata de mais uma tentativa, do mesmo proponente, de utilizar órgãos de controle e a exposição midiática como instrumento de desgaste reputacional em pleno período eleitoral".

Seguem os cinco pontos citados pela Fiep em sua nota:
1. A jurisprudência consolidada junto ao Tribunal de Contas da União reconhece que o controle externo exercido em relação as entidades sindicais não se destina a substituir a autonomia sindical e deliberativa constitucionalmente assegurada.
2. A realização de reuniões estatutárias durante períodos de grande concentração de representantes, em razão de eventos institucionais já programados, é prática recorrente e racional entre entidades de representação em todo o país, voltada à otimização de recursos e à viabilização do quórum qualificado exigido por norma estatutária, circunstância que a própria Ata da Assembleia registra com transparência, e não em caráter de ocultação.
3. As deliberações estatutárias de agosto de 2026 observaram rigorosamente o rito regimental da Federação, com ampla discussão entre os delegados representantes de todo o Estado, e foram aprovadas pelo colegiado estatutariamente competente para tanto.
4. Os Fóruns Regionais da Indústria e a Expo+Indústria são iniciativas institucionais de escuta ao setor produtivo paranaense, que tradicionalmente recebem autoridades públicas e lideranças políticas de diferentes correntes, em tratamento isonômico e sem qualquer finalidade eleitoral.
5. A gestão de contratos institucionais de comunicação e estrutura segue os trâmites regulares de contratação da Federação, com documentação própria que permite identificar objeto, execução e finalidade de cada ajuste.
