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Reforma tributária: Curitiba pode ganhar, não perder R$ 1 bi

Prefeitura teme perder R$ 1 bi com o fim do ISS, mas o imposto das compras públicas e a alta do ICMS podem anular a perda — parte só vale até 2033

Reforma tributária: Curitiba pode ganhar, não perder R$ 1 bi
Eduardo Pimentel (PSD). Foto: Levy Ferreira/SECOM

“Eu rezo todos os dias para que eu esteja muito errado (…), mas a nossa previsão é perder R$ 1 bilhão no orçamento [com a reforma tributária].” A frase, do então secretário de Planejamento, Orçamento e Finanças de Curitiba, Cristiano Hotz, em maio de 2024, virou o resumo do medo da Prefeitura diante da maior mudança tributária em quatro décadas.

Mas, como o Plural já mostrou, não é bem assim. O problema começa no próprio número. “O R$ 1 bilhão costuma ser calculado como receita bruta de ISS perdida, sem descontar os ganhos estruturais da própria reforma — é uma conta de ‘receita que sai’, não de ‘impacto fiscal líquido’”, resume o contador Rodrigo Leite. Ou seja: provavelmente está superestimado.

Um levantamento do Plural sobre a execução orçamentária de 2025 dimensiona o outro lado da balança. Só o imposto embutido nas próprias compras da Prefeitura pode devolver cerca de R$ 1 bilhão por ano ao caixa — número da mesma ordem de grandeza da perda temida.

Duas contas de ordem parecida

Perda estimada com o fim do ISS (valor citado pela Prefeitura) × retorno do imposto sobre as compras públicas (cálculo do Plural). Valores por ano, em R$ bilhões.

perda temida ganho (compras)

* valor de regime pleno (a partir de 2033); na transição, entra gradualmente. Fonte: execução orçamentária de Curitiba. Análise: Plural.

O maior ganho: o imposto das próprias compras volta ao caixa

Pela reforma (artigo 473 da Lei Complementar 214/2025), quando o poder público compra bens e serviços, o novo imposto (IBS/CBS) embutido no preço retorna ao ente que comprou — deixa de ser custo perdido e vira receita.

Em 2025, Curitiba empenhou R$ 6,47 bilhões em bens e serviços tributáveis: obras, serviços de terceiros, locação de mão de obra, tecnologia e materiais (o cálculo exclui salários, aposentadorias, dívida e repasses, que não geram esse retorno). Aplicando as alíquotas da nova lei a cada tipo de despesa — 26,5% na maioria, mas 10,6% em saúde e educação e 18,55% em serviços profissionais —, o imposto embutido chega a cerca de R$ 1 bilhão por ano.

De onde vem o R$ 1 bilhão

Base de compras tributáveis do município por tipo de despesa, empenho de 2025, em R$ bilhões.

Fonte: execução orçamentária (dados abertos de Curitiba), deduplicada por empenho. Análise: Plural.

É um número conservador: usa as alíquotas reduzidas onde a lei prevê e deixa de fora os R$ 918 milhões em contratos de gestão da saúde, cujas compras também carregam o imposto. Mas tem uma condição de prazo. “Falta aplicar o cronograma do redutor dos artigos 370 e 372; a alíquota cheia só vale a partir de 2033”, observa Leite. Durante a transição (2027 a 2032), o retorno entra aos poucos. E não é automático: “Depende de organização — cadastro no Comitê Gestor, parametrização do split payment e classificação correta na nota. Há risco de vazamento: um erro de código ou de CNPJ joga a operação na regra geral, e o município não recebe o excedente.”

O segundo ganho a própria Prefeitura admitiu — mas ele tem prazo

O outro ganho já está acontecendo, e foi a própria secretaria de Finanças quem contou, na audiência da LDO de 2025. Ao explicar por que o orçamento saltou 10% e chegou a R$ 14,2 bilhões, a superintendente executiva de Finanças, Daniele Regina dos Santos, ligou o crescimento de ICMS e Fundeb à reforma: “como o ICMS será repassado aos estados com base na média dos últimos quatro anos, nós temos os estados priorizando ampliar a arrecadação de ICMS para ficar com uma média alta. Então isso tem trazido um repasse maior”.

O que a Prefeitura não disse é que esse ganho tem prazo de validade. “Real, mas temporário por desenho”, avalia Leite. “Quando o ICMS for extinto e o rateio passar a seguir 100% o critério de destino, esse repasse extra some.” O risco, diz, é a cidade “tratar como estrutural algo que é só janela de otimização — e gastar hoje um ganho que desaparece em 2033”. É a inversão que ele considera o maior erro dos gestores: “o ganho de curto prazo é transitório; a perda estrutural é a de ISS”.

A conta que ainda não fecha

Somar os ganhos com a perda exige cuidado. Leite alerta para não contar o mesmo dinheiro duas vezes — o Plural verificou que o R$ 1 bilhão das compras e a alta de ICMS/Fundeb vêm de lados opostos do orçamento (um é imposto sobre a despesa do município; o outro é receita de transferência) e não se sobrepõem. Não há dupla contagem — há, sim, naturezas diferentes: um ganho é estrutural, o outro é de janela.

Falta ainda um número que só a Prefeitura tem: quanto do ISS vem de serviços que passarão a ser tributados no destino — ensino a distância, tecnologia, serviços administrativos. “É o maior buraco de dado nessa conta”, diz Leite. Esse recorte não está nas bases abertas. O Plural pediu o dado e um eventual estudo oficial de impacto; até a publicação, não houve resposta.

O ponto mais sensível: a licitação do transporte

O transporte urbano ficou isento de IBS/CBS — mas, por ser isento, a concessionária não se credita do imposto pago no diesel. Para o tributarista Gustavo Portugal Heinze, especialista em Direito Tributário e sócio-fundador do GMP G&C Advogados Associados, é um paradoxo: “A concessionária vira ‘consumidor final’ da própria cadeia: paga o imposto embutido no diesel e não recupera nada. Benefício no papel, ônus na conta.”

Como o contrato terminava em 2025 e há nova licitação — risco fiscal estimado em R$ 303 milhões na própria LDO —, o edital precisa incorporar o novo cenário “desde a origem”, diz Heinze, sob pena de “nascer frágil, passível de impugnação, representação ao TCE-PR ou atuação do Ministério Público”. Há uma saída: se a Prefeitura comprar a frota diretamente (inclusive a elétrica), cai no mesmo regime de compras públicas do artigo 473 e recupera o tributo que a concessionária isenta não aproveita.

O que a cidade deveria fazer

Para os especialistas, o ganho existe, mas não cai do céu. Leite lista três medidas: “blindar a captura do artigo 473 pela parametrização dos sistemas e pelo cadastro no Comitê Gestor; mapear e reter a base de serviços exportáveis; e reformular a engenharia tarifária do transporte antes de travar o próximo contrato”. Heinze resume o fio que costura tudo: capturar o crédito das compras, o da frota e a fiscalização pelo novo valor de referência dos imóveis dependem da mesma capacidade administrativa. “Se a Prefeitura trata isso em três áreas separadas, está tratando como três problemas o que é, na prática, um único risco de compliance.”

Como apuramos — A base de compras tributáveis vem da execução orçamentária de 2025 (dados abertos de Curitiba), deduplicada por número de empenho e classificada pelas alíquotas da LC 214; o valor de R$ 1,05 bilhão é o de regime pleno (a partir de 2033) e entra de forma gradual na transição. Os dados de orçamento e as falas de autoridades e vereadores foram extraídos da prestação de contas e da ata da audiência da LDO 2025 na Câmara. A alíquota de 26,5% é a trava de referência da lei, usada para ilustrar ordens de grandeza; a efetiva dependerá de resolução do Senado.
Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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