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“Great Freedom” avança sem pressa, mas com grande intensidade

Filme em cartaz na MUBI tem o ator alemão Franz Rogowski, um dos melhores do cinema europeu atual

“Great Freedom” avança sem pressa, mas com grande intensidade
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O filme austríaco “Great Freedom”, em cartaz na MUBI, tem um protagonista admirável. Seu nome é Hans Hoffmann, um homem encarcerado na Alemanha do pós-guerra por ser gay.

Na verdade, o Estado alemão o prendeu quatro vezes ao longo de três décadas, em razão de sua condição sexual. As respostas emocionais de Hans a cada uma dessas prisões são diferentes, e sabemos que esses estados existenciais estão relacionados ao seu amadurecimento pelos anos, mas, também, por uma crescente dureza de espírito, adquirida pela absoluta rejeição da sociedade. Essa dureza avança para o cansaço e para a apatia.

Hans é preso logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas o personagem já vinha de outro cárcere: o campo de concentração. Havia sido capturado pelos nazistas, pelo mesmo motivo e, após o fim do terrível regime, foi mandado diretamente para a prisão da Alemanha livre, em razão de seu “crime”. Ele chega ao novo cárcere destruído pela experiência no campo de concentração.

Contra o mundo

Após pouco mais de uma década, ele é novamente preso. Desta vez, com seu amante. O casal foi descoberto pelas autoridades. Nessa etapa de sua existência, Hans é um homem otimista e cheio de energia. Mesmo preso, faz planos para um futuro feliz. Mas o seu companheiro tem a triste convicção de que o mundo não lhes permitirá ficarem juntos, nem lhes autorizará a viverem como desejam. Diante do vazio que os aguarda, o amante de Hans suicida-se.

O terceiro cárcere acontece nos anos 1960. Hans está amadurecido, cansado e apático. Flagrado mantendo relações sexuais em um banheiro público, o personagem é novamente preso. As justificativas para a pena são: “práticas sexuais pervertidas”; “tocar o pênis de outro homem”; masturbação mútua”; “felação ativa”; “felação passiva”; e “coitus analis”.

Todas essas frases são ditas, seriamente e de forma muito digna, por respeitáveis senhores de toga. O espectador do filme, claro, acha a cena patética. E Hans, naquela altura de sua vida, já não expressa emoções, mesmo que suas imagens no banheiro estejam sendo mostradas ao público, no tribunal. A pena deverá durar dois anos.

Franz Rogowski

O personagem é muito convincente. Somos capturados pela sua expressão facial. Chega a ser hipnótica. Hans é interpretado por Franz Rogowski, ator alemão que surge como um dos melhores do cinema europeu atual. Ele possui uma cicatriz resultante de uma cirurgia plástica para corrigir o lábio leporino. É uma fenda que dá a sua face um peso dramático. O ator oferece essa marca para o personagem e torna a presença e a personalidade de Hans mais potentes. 

“Great Freedom” é dirigido por Sebastian Meise, austríaco que realiza seu terceiro longa. Conduz o filme sem pressa, mas com grande intensidade. Mostra o Estado conservador e opressor como uma ameaça da qual não se pode fugir. E o cárcere é de uma dureza intolerável: fumar um cigarro acompanhado é o único momento de alívio nesse presídio de horror.

O diretor também desperta a atenção com o uso do tempo no filme. Os três momentos de cárcere não são apresentados em ordem. A ação passa de um período a outro, diversas vezes, e sem ordem definida. É muito bem feito e dá dinamismo e força ao filme, além de mostrar que Hans, na verdade, sempre esteve nas mãos do Estado.

Onde assistir

“Great Freedom” está em cartaz na MUBI.

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