Pular para o conteúdo

Cabra marcado para morrer

Premiado no Festival de Cannes, “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, suga os espectadores para dentro de uma jornada tensa e sedutora no Brasil de 1977

Cabra marcado para morrer
Wagner Moura (centro), em cena do filme “O agente secreto”. (Foto: Divulgação)
Publicado:

Em um momento de “O agente secreto”, o personagem de Wagner Moura, chamado Marcelo, tem um pesadelo. Não, o diretor Kleber Mendonça Filho não vai enganar o espectador e revelar que aquela situação dramática era apenas um pesadelo. Desde o início da sequência, sabemos que é um sonho ruim, porque o terrível elemento já tinha sido mostrado no filme. É um cadáver com a cabeça perfurada, certamente atingida por alguma arma de fogo. Mas, no pesadelo de Marcelo, os miolos se movem e saem do crânio, como em um filme de terror. É o pesadelo de um homem que está sendo perseguido e que acabou de saber que há matadores contratados para assassiná-lo. O personagem acorda subitamente, parecendo ter sido arrancado das profundezas de um abismo. Ele tem um presságio, sente o pavor indescritível de quem está prestes a morrer.

Estamos em Recife, em 1977. Marcelo, um acadêmico da área de tecnologia, chega à cidade vindo de Brasília, a bordo de seu fusca amarelo. A cidade respira os anos 70. As imagens lembram um cartão postal amarelado, de papel. E estão lá os carros coloridos com tinta sólida; os orelhões da época; os homens usando camisa aberta até quase o umbigo; a típica decoração das pesadas repartições públicas com suas máquinas de escrever; os grandes cinemas de rua que exibem filmes como “Tubarão”, “A profecia” e “King Kong”; e, principalmente, está lá a música. Não apenas o frevo – o personagem chega em Recife durante o Carnaval –, mas o samba, a MPB e as trilhas dos filmes daquela década. 

Mas a década foi marcada, igualmente, pelo regime militar, e essa atmosfera desagradável também dá as caras, com policiais palhaços que estão surfando debochadamente acima da sociedade civil. 

Nesse clima, Marcelo chega à cidade. Dona Sebastiana, uma senhora septuagenária, já o espera. Ela acolhe em sua casa pessoas que estão sendo perseguidas, especialmente pelo governo. Mas ela não deixa o clima pesar por muito tempo. Interpretada por Tânia Maria (uma artesã potiguar que iniciou a carreira de atriz após os 70 anos), Dona Sebastiana é dotada de um humor espirituoso que afugenta qualquer mal-estar. 

Marcelo se refugia nesse ambiente, mas se arrisca para visitar seu filho de oito anos, que mora com o avô (Carlos Francisco), sogro do protagonista – a esposa de Marcelo foi há pouco tempo assassinada (pelo mesmo grupo que persegue Marcelo?). O personagem também se arrisca a trabalhar em uma repartição pública, um centro de identificação, com o objetivo de procurar informações sobre sua mãe, com quem não conviveu – ela era a empregada de uma família abastada que engravidou do patrão. O bebê ficou com a família. Marcelo quer informações sobre a mãe para conhecer mais sobre suas origens, sua identidade, seu sangue.

Paralelamente a esses fatos, os matadores contratados chegam do Rio de Janeiro: Bobi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Villela), este um ex-militar que nem o exército quis. Eles foram contratados por um empresário corrupto ligado a uma empresa do governo militar. E a razão da encomenda do assassinato é uma mistura de racismo, misoginia, rancor, inveja e, principalmente, maldade. Ele é um homem maligno. Quer um tiro na boca do Marcelo. 

Começa o plano para matar Marcelo, que contará com a participação de um outro matador, um terceirizado para fazer o serviço sujo, um sujeito ainda mais frio para a violência. 

O original

“O agente secreto” é quinto longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Autor de obras como “O som ao redor” e “Bacurau”, o diretor apresenta no novo filme uma estrutura original. Entre o prólogo misterioso e cômico e o epílogo melancólico, há uma narrativa – de duas horas e meia – que expõe com muita calma a história e os personagens, em longas cenas cheias de diálogos e muito silêncio. Também integra a narrativa elementos fantásticos, como a “perna cabeluda”, que ataca e mata pessoas. Essa perna, uma lenda urbana do Recife da época, era uma maneira irreverente de os jornais se referirem à violência policial da ditadura. Quando ocorria uma violência praticada por esses caras, os jornalistas diziam que era a tal perna cabeluda que havia espancado ou executado alguém, No filme, a perna ganha vida e ataca pessoas em um parque de “pegação” hétero e gay. Com certeza, era um passatempo muito prazeroso para o dono dessa perna.

Os espectadores são sugados para dentro dessa jornada tensa, mas sedutora, temática e sensorial [este parágrafo revela, discretamente, detalhes da trama]. Tudo é magistralmente orquestrado. E o clímax, com sua violência crua, é digno dos jornais e revistas mais populares e sanguinolentos da época. O diretor, entretanto, poupa o espectador de testemunhar a violência contra Marcelo. Mas uma foto de jornal dessa violência pode também esmigalhar o coração, talvez até mais. 

O melhor

“O agente secreto” é o melhor filme de Kleber Mendonça Filho. Ele está no cume de sua carreira, no auge de suas habilidades como diretor. Tudo funciona e é extremamente envolvente, íntimo, emocionante. Espero que ele continue nessa posição por toda a sua carreira. O mesmo vale para Wagner Moura, que faz desse Marcelo um homem íntegro, calmo, amoroso e inteligente. 

O sucesso internacional de “O agente secreto” começou em maio, no festival de Cannes, com as premiações para diretor e ator. Nos próximos meses e no início de 2026, o filme será lançado em vários países e, certamente, será aclamado. Muita gente diz que o filme será o novo “Ainda estou aqui”, tanto no Brasil como no estrangeiro. Mas “O agente secreto” não terá a mesma repercussão do longa de Walter Salles, que teve seis milhões de espectadores só no Brasil. Já há pessoas desgostando (muito) do filme. A obra não é para todo o público, como foi “Ainda estou aqui”, um filme lindíssimo, mas clássico, acessível. “Ainda estou aqui” é Mozart. “O agente secreto” é Stravinsky. 

Kleber criou um clássico do cinema brasileiro. É um tesouro esse filme existir. 

Filme

“O agente secreto” estreia nos cinemas de Curitiba nesta quinta-feira (6).

Mais em cultura

Ver todos

Mais de Gilberto Bonk Jr.

Ver todos

De nossos parceiros