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Empréstimo francês irá bancar data center com dados dos curitibanos

Parte dos € 100 milhões pleiteados pela Prefeitura vai para a 2ª fase do Hipervisor Urbano, plataforma do IPPUC que reúne dados públicos e privados, usa inteligência artificial e cria um "gêmeo digital" de Curitiba

Empréstimo francês irá bancar data center com dados dos curitibanos
Hipervisor Foto: Hully Paiva/SECOM
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Uma fatia do empréstimo de € 100 milhões que a Câmara vota nesta quinta-feira (26) será destinada a ampliar o Hipervisor Urbano de Curitiba, plataforma de dados da Prefeitura que usa inteligência artificial para monitorar a cidade e antecipar riscos. O projeto inclui a criação de um "gêmeo digital" — uma réplica virtual de Curitiba — e a compra de um data center próprio.

O Hipervisor é um dos três projetos financiados pelo Programa Curitiba Resiliente, ao lado da requalificação do rio Belém e da Reserva Hídrica do Futuro. A segunda fase está orçada em US$ 12,6 milhões (cerca de R$ 67 milhões), dos quais US$ 2,2 milhões correspondem à aquisição do data center e de sensores. A primeira fase entrou no ar em 2024, com mais de R$ 11 milhões já investidos.

Embora o empréstimo seja justificado por razões climáticas — prevenir enchentes e ondas de calor na bacia do Belém —, o Hipervisor foi concebido como algo maior: o "cérebro da cidade inteligente", uma central que reúne dados de toda a Prefeitura e de fontes externas, públicas e privadas.

De "cérebro da cidade" a "Centro Municipal de Dados"

O Hipervisor nasceu no Plano de Governo 2021-2024 da gestão Rafael Greca, projetado pelo IPPUC em parceria com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) — a mesma que agora financia sua expansão — e com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O aporte inicial da AFD, de R$ 850 mil, veio de um fundo de cooperação técnica, e a modelagem contou com a consultoria francesa Egis, que apresentou à Prefeitura modelos de "hipervisores" de cidades como Dijon, Lyon, Singapura, Medellín e Rio de Janeiro.

Hoje o projeto é uma Diretoria do IPPUC, instalada no Palácio da Inovação, no Cabral, e se apresenta como "Centro Municipal de Dados". A equipe tem cerca de 12 analistas, além de cientistas de dados e desenvolvedores, e usa ferramentas como modelos de linguagem (a tecnologia por trás de IAs como o ChatGPT) e visão computacional.

A estrutura de análise está dividida por temas que cobrem praticamente toda a vida urbana — entre eles segurança pública, transporte, trânsito, saúde, educação, meio ambiente, economia e concessão de serviços públicos. Na prática atual, o Hipervisor já apoia projetos como o monitoramento da dengue (com a UFPR) e a categorização de pedidos do programa Fala Curitiba.

Como o sistema funciona

O documento técnico enviado ao governo federal descreve o Hipervisor operando com modelagem preditiva, big data, aprendizado de máquina e profundo, inteligência artificial, gêmeos digitais e edge computing.

A lógica é reunir, num só ambiente, bases hoje espalhadas em sistemas isolados de cada órgão — e cruzá-las com fontes externas. O objetivo declarado é evoluir de uma análise que descreve o que aconteceu para outra capaz de explicar causas, prever recorrências e recomendar ações.

O "gêmeo digital" é descrito como um modelo de alta precisão que reproduz as dinâmicas urbanas e permite simular cenários — crescimento populacional, mudanças no transporte e, no caso de inundações, o avanço das águas no território.

Na documentação do empréstimo, o IPPUC enfatiza que o Hipervisor não é responsável por ações de comando e controle — ou seja, não opera diretamente câmeras ou despacha viaturas. Seu papel declarado é de planejamento e análise. Mas, segundo a própria Prefeitura, o centro de planejamento do Hipervisor foi pensado para se integrar a estruturas operacionais da cidade.

A ponte com a Muralha Digital

Quando o Hipervisor foi apresentado a secretários municipais, em 2023, a Prefeitura informou que seu centro de planejamento integraria, entre outros, a Muralha Digital — o sistema de videomonitoramento da cidade —, além dos centros de operação do transporte e da Defesa Civil e de dados de concessionárias como Sanepar (água) e Copel (energia).

A Muralha Digital, lançada em 2021, conta com mais de 2.100 câmeras em espaços públicos. E vem crescendo por uma via que levanta questões de privacidade: em julho de 2025, o prefeito Eduardo Pimentel lançou o programa Conecta Muralha Curitiba, que integra ao sistema público câmeras de empresas de segurança privadas e condomínios.

Até fevereiro de 2026, segundo a Prefeitura, já eram 300 câmeras particulares integradas, com meta de chegar a 2 mil até o fim de 2026 e a 6 mil até 2028. Muitas dessas câmeras operam com reconhecimento facial e leitura de placas por inteligência artificial. Uma das empresas parceiras anunciou a intenção de incorporar até 900 câmeras com essas funções. A gestão municipal afirma que a integração se limita a câmeras voltadas a ruas e calçadas, com finalidade de segurança pública, e que respeita a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O ponto de atenção é a convergência: de um lado, uma rede crescente de câmeras com reconhecimento facial, em parte privada; de outro, um centro municipal de dados que integra IA e tem a segurança pública entre seus domínios de análise. A documentação disponível não detalha em que medida o Hipervisor cruzaria imagens ou dados do videomonitoramento — e essa é uma fronteira que merece esclarecimento.

Dados privados no mesmo ambiente

A integração de dados de "entes privados" aparece explicitamente na descrição do Hipervisor enviada ao Ministério da Economia. O documento, porém, não detalha quais dados privados seriam esses, sob qual base legal e com quais salvaguardas.

A concentração de grandes volumes de informação sobre a população em uma plataforma central, sob uso de inteligência artificial, levanta questões de governança de dados e de adequação à LGPD que não estão equacionadas no material disponível — e que ganham peso justamente pela proximidade com o videomonitoramento.

Apesar de o Hipervisor usar inteligência artificial, o data center previsto no projeto não é uma central de processamento de IA no sentido que o termo ganhou nos últimos anos. Os grandes data centers de IA são galpões cheios de GPUs (placas de processamento gráfico) caríssimas, projetados para treinar modelos de inteligência artificial ou rodar essa tecnologia em larga escala, com consumo intenso de energia e refrigeração.

Não é o caso aqui. Pelos US$ 2,2 milhões previstos e pela descrição no documento — equipamentos para "coleta, recebimento, armazenamento e processamento de dados" —, trata-se de uma infraestrutura convencional de armazenamento e integração de bases municipais. A inteligência artificial que o Hipervisor utiliza, incluindo os "modelos de linguagem" citados pelo próprio IPPUC, tende a vir de serviços externos contratados de terceiros — ou seja, a cidade muito provavelmente consome IA processada em data centers de outras empresas (pagando pelo uso, em geral medido em "tokens"), em vez de rodar esses modelos na própria estrutura. O data center curitibano guarda e organiza os dados; o "músculo" de IA, esse fica em outro lugar.

Se o Hipervisor de fato usa modelos de inteligência artificial de provedores externos — algo provável, mas ainda não confirmado pela Prefeitura —, surge uma questão de privacidade que vai além de onde os dados ficam guardados. Para que uma IA externa analise uma informação, esse dado precisa sair dos servidores da Prefeitura e ser enviado ao provedor, muitas vezes em outro país. Quando se trata de dados sensíveis — registros de saúde, dados de assistência social, informações de segurança pública ou imagens de videomonitoramento —, esse envio levanta perguntas que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige responder: a empresa contratada pode reter, reutilizar ou treinar seus próprios modelos com esses dados? Onde eles são armazenados e sob qual legislação? Há contrato que proíba esse reaproveitamento? O cidadão foi informado de que suas informações podem trafegar por sistemas privados de terceiros? No setor público, em que o tratamento de dados pessoais depende de base legal específica e de finalidade definida, transferir informações sensíveis a um serviço de IA comercial sem essas salvaguardas pode configurar uso irregular — e o material disponível sobre o Hipervisor não esclarece como esse fluxo seria tratado.

Escala municipal, não comercial

Vale dimensionar: o data center previsto é uma infraestrutura municipal de pequeno porte (US$ 2,2 milhões), voltada ao processamento dos dados da própria Prefeitura — e não um grande centro de processamento comercial, do tipo que tem atraído investimentos bilionários ao Paraná. A justificativa do município destaca que a opção é por adquirir os equipamentos, em vez de contratar capacidade como serviço, em nome da segurança dos dados.

Ainda assim, o Hipervisor representa a aposta de Curitiba em concentrar a inteligência de dados da cidade em estrutura própria — escolha com desdobramentos de longo prazo sobre como a gestão pública usa, guarda e cruza informações sobre os moradores. O empréstimo que o financia será votado em primeiro turno nesta quinta (26), mas a contratação efetiva só está prevista para 2028.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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