Maringá coleciona títulos de orgulho. Com frequência, figura no topo dos rankings nacionais como uma das melhores cidades do Brasil para se viver, lembrada pela arborização abundante, qualidade de vida e um desenho urbano projetado ainda na década de 1940. Mas, entre as avenidas planejadas e a paisagem verticalizada que se consolida hoje, existe um capítulo importante sobre como a cidade lidou com o seu rápido crescimento populacional há cinco décadas.
Durante as décadas de 1960 e 1970, o Norte do Paraná passou por uma intensa reorganização econômica e social. A decadência do ciclo cafeeiro, somada à histórica Geada Negra de 1975, acelerou a migração do campo para a cidade. Maringá recebeu milhares de novos moradores que buscavam oportunidades no comércio e nos serviços, mas a falta de acesso ao mercado imobiliário formal levou ao surgimento de habitações precárias. Ao contrário do que a memória coletiva costuma preservar, pesquisas históricas identificaram que a cidade chegou a ter 14 favelas mapeadas e pelo menos 11 cortiços em funcionamento.
Entre essas ocupações estavam a Favela Cleópatra e a Favela do Cemitério — uma das maiores da época, que chegou a abrigar mais de 300 ranchos de madeira nas proximidades da área central —, além da Favela Bosque, da Santa Maria Goretti e de núcleos na Vila Vardelina e na Avenida Pedro Taques. Paralelamente, cortiços se multiplicavam em bairros como a Vila Operária, a Zona 7 e o Maringá Velho, onde proprietários de lotes alugavam pequenos cômodos para trabalhadores de baixa renda e boias-frias.
A presença dessas aglomerações em áreas valorizadas e próximas ao centro gerava incômodo ao projeto de "cidade-modelo" e às diretrizes do plano diretor. A partir de meados dos anos 1970, durante as gestões de prefeitos como Silvio Magalhães Barros e João Paulino Vieira Filho, o poder público intensificou as políticas de reordenamento urbano. Com a criação da Fundação de Desenvolvimento Social de Maringá (FDSM) em 1976, o município iniciou um cadastro das famílias e o fechamento progressivo dos núcleos informais.
Apesar da ausência de grandes passeatas ou sindicatos organizando protestos — em um período em que a conjuntura política do regime militar e a imprensa local limitavam a articulação popular —, o deslocamento esteve longe de ser um processo totalmente pacífico no cotidiano dos afetados. A resistência ocorreu de forma velada, fragmentada e, em alguns momentos, marcada por confrontos diretos. Diante do cerco promovido pelas equipes municipais, moradores recorriam a táticas individuais para protelar a saída, negociando prazos diretamente com os fiscais ou adiando o cumprimento das notificações.
Em episódios mais tensos, famílias chegaram a se mobilizar na frente de motoniveladoras e tratores da prefeitura para impedir a demolição dos barracos. A resistência também se manifestava na reocupação silenciosa: logo após o desmonte das casas de madeira, moradores retornavam para áreas próximas ou reconstruíam suas moradias no escuro da noite. A pressão sobre as famílias também se dava por meio de fiscalizações rígidas, onde a prefeitura numerava os barracos e mantinha guardas de prontidão para impedir reformas ou a construção de novas benfeitorias. Na época, figuras como o bispo Dom Jaime Luiz Coelho e o vereador Bonifácio Martins atuaram em defesa das populações atingidas, cobrando soluções habitacionais públicas e articulando apoios institucionais.
A logística de remoção envolveu diferentes destinos. Parte das famílias cadastradas foi transferida para novos conjuntos habitacionais construídos pelo Governo Federal e geridos pelo município, como o Conjunto Habitacional Santa Felicidade (CHSF), criado pelo programa PROFILURB em 1976, e posteriormente o Conjunto Roberto Requião e o Ney Braga. Para a seleção dos contemplados nos programas oficiais, a FDSM aplicava triagens rigorosas que exigiam comprovação de renda e atestados de "bom comportamento".
Aqueles que não foram absorvidos pelos projetos habitacionais receberam auxílio transporte, passagens de ônibus para outros estados ou foram encaminhados por meio de acordos entre prefeituras para os limites de municípios vizinhos, como Paiçandu e Sarandi — este último crescendo de forma acelerada no período para absorver a força de trabalho que continuava servindo à infraestrutura maringaense.
Nos primeiros anos, os novos conjuntos periféricos enfrentaram forte isolamento urbano, caracterizado pela falta de pavimentação, escassez de água e ausência de serviços básicos. Com o passar das décadas, a infraestrutura desses bairros foi se consolidando, mas a estratégia de deslocar a população de menor renda para fora do perímetro central estabeleceu as bases do mercado imobiliário contemporâneo.
A rigorosa preservação do uso do solo e a concentração de investimentos na área central abriram caminho para um processo gradual e sutil de valorização imobiliária. Conforme o centro se especializou em serviços, comércio de alto padrão e empreendimentos residenciais verticais, a moradia na região central tornou-se um item cada vez mais exclusivo. Esse movimento empurrou os custos de aluguel e aquisição de imóveis para patamares elevados em comparação a outras cidades do interior paranaense, influenciando diretamente o custo de vida geral do município.
Hoje, os desdobramentos desse passado se expressam na própria mobilidade urbana: o fluxo diário de milhares de trabalhadores que se deslocam das cidades vizinhas e dos bairros afastados para o centro evidencia como a distribuição do espaço, definida há 50 anos, continua a ditar, silenciosamente, a dinâmica social e econômica de Maringá.