O Plural manifesta solidariedade à Agência Pública, à sua diretora executiva, Natalia Viana, e à sua equipe, alvos de uma sequência de ataques misóginos do influenciador Paulo Figueiredo, amplificados pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Em publicação de 29 de agosto, Figueiredo escreveu que é "como jornalista que se prostitui tem que ser tratado(a)", nomeou Natalia Viana, exibiu uma foto dela e a classificou como "uma desgraça para a profissão". Em outro momento, chamou a organização de "agência puta".
Foram ao menos quatro publicações em dez dias contra a agência e sua diretora, além de mensagens agressivas enviadas diretamente a ela. Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, republicou uma delas e ampliou o alcance. Desde então, segundo a Pública, a agência e a diretora vêm recebendo mensagens ameaçadoras, que estão sendo documentadas.
Nada disso é resposta a um erro de apuração. É resposta ao pedido de resposta.
O gatilho foi o telefonema
As publicações começaram logo depois de a Pública procurar Figueiredo e Eduardo Bolsonaro para ouvir suas versões sobre duas reportagens. Uma revelou que Figueiredo doou US$ 10 mil — o teto permitido pela lei americana — à deputada republicana Elvira Salazar um mês antes de ela apresentar um projeto para punir o ministro Alexandre de Moraes. A outra, feita em parceria com o ICL Notícias, descreveu o padrão de vida dos dois nos Estados Unidos.
Ouvir o outro lado antes de publicar é o procedimento mais elementar do ofício. É a etapa que existe justamente para proteger quem está sendo investigado. Transformá-la em motivo de linchamento é uma inversão que merece nome: não se trata de crítica à imprensa, e sim de punição por ela existir.
Vale registrar o que não houve. Em nenhuma das publicações há contestação de um dado, uma data, um valor ou um documento das reportagens. O que há é a tentativa de atacar a jornalista, não a informação.
O padrão se repete e tem número
Não é a primeira vez. Em abril de 2024, Eduardo Bolsonaro e aliados lançaram uma campanha de desinformação contra a Pública e contra uma repórter da casa, citada pelo nome e exposta ao público das redes. Dias antes, a agência havia sido o primeiro veículo brasileiro a noticiar a articulação para pedir retaliações estrangeiras ao Brasil por causa do processo sobre a tentativa de golpe — articulação que depois se converteu em sanções concretas contra empresas brasileiras e integrantes do Judiciário.
Levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo aponta que, em 2024, 31% dos registros de ataques a jornalistas no Brasil tiveram motivação de gênero, um salto em relação ao ano anterior. A mesma entidade calculou que, durante o governo Jair Bolsonaro, o então presidente e seus filhos produziram em média um ataque à imprensa por dia. A organização Repórteres Sem Fronteiras classificou essa hostilidade não como excesso retórico, mas como método.
E há o calendário. Isso acontece em plena campanha eleitoral, num ano em que a violência contra mulheres virou tema de palanque — inclusive dos palanques de quem amplifica esse tipo de mensagem.
Por que um jornal de Curitiba se manifesta
Porque o mecanismo é o mesmo em qualquer escala, e a escala menor é a mais frágil.
O Plural é um jornal local, independente, sustentado por seus assinantes. Não tem anunciante grande para agradar nem acionista para proteger — e também não tem departamento jurídico robusto nem estrutura para absorver uma campanha coordenada de destruição de reputação. O que tem é o crédito que constrói matéria a matéria. É exatamente esse crédito que ataques como esses procuram queimar.
Se funciona contra a Pública, que acumula mais de 90 prêmios, entre eles o Gabo, o Vladimir Herzog e o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, funciona contra qualquer outra redação. E o prejuízo final não é do jornalista. É do leitor, que fica sem a informação que a apuração produziria.
O Plural seguirá publicando o que apurar. E seguirá ao lado de quem faz o mesmo.