O livro guardado na estante é grande e cheio de páginas. Kinberly Novaes, 35, o abre para mostrar recortes e impressões das milhares de entrevistas e reportagens publicadas quando era lutadora profissional. Há textos em diferentes idiomas e imagens reproduzidas em jornais de vários países, registros de uma atleta no auge da carreira. Algumas manchetes ganharam molduras e espaço na parede da sala, ao lado de uma coleção de cinturões, medalhas e troféus.
Aposentada dos combates desde dezembro de 2018, a joinvilense, radicada em Curitiba desde 2014, divide hoje a rotina entre a maternidade, as aulas particulares e a militância nos movimentos sociais. Nas redes, compartilha o vínculo afetuso com o seu filho, Breno, 10, e o cotidiano da maternidade atípica. Também publica registros dos treinos, das oficinas de defesa pessoal para mulheres e do trabalho voluntário com crianças e adolescentes na Comunidade Nova Esperança.
Conheceu o esporte aos 13 anos, quando uma amiga curitibana a convidou para uma aula experimental de Muay Thai durante as férias escolares. Na época, morava com os pais em Joinville e costumava passar parte das férias na capital paranaense, na casa de familiares.
Assim que voltou para Santa Catarina, procurou um lugar onde pudesse continuar treinando. Ia e voltava sem muito afinco até ceder à insistência dos professores. Diziam que levava jeito e deveria competir.
O caminho para a profissionalização engatou aos 17 anos. Na primeira disputa, chegou ao fim do combate, mas sofreu uma espécie de apagão depois de quebrar o nariz e sangrar sem parar. Perdeu também a segunda. Na terceira, experimentou o gosto da vitória. Aí as coisas aconteceram: aos 18 anos, já competia profissionalmente no Muay Thai e no kickboxing, com transmissão pela tevê.
No início, a família não gostava da ideia de vê-la envolvida naquilo. “Hoje eu entendo. Acho que nenhuma mãe quer ver seu filho sangrando”, comenta. A resistência diminuiu quando ficou evidente que jovem não iria baixar a guarda. Os pais passaram a acompanhá-la nas lutas realizadas nas proximidades e reuniam amigos e familiares diante da televisão nas vezes em que a distância impedia a presença.
Entre os combates inesquecíveis, destaca um realizado em Santa Catarina. Ainda era relativamente nova na modalidade no momento em que foi escalada contra uma adversária experiente, conhecida pela dominação nas quatro linhas do ringue. A luta foi penosa, mas conseguiu nocautear a oponente no segundo round. “Quando acabou, eu me joguei no chão. Parecia emoção, mas eu simplesmente não conseguia ficar em pé. Dei tudo de mim”, lembra.
Foi nesse período que começou a cursar Educação Física. A escolha estava ligada ao esporte que praticava. Kinberly já ajudava nos treinos e começou cedo a ensinar. Na universidade, chegou a dar aulas em troca de parte da mensalidade. Ensinando, percebeu uma dimensão do esporte que, como competidora, nem sempre lhe parecera tão evidente: o fato de ser mulher em um ambiente majoritariamente masculino.
Nos primeiros eventos televisionados de que participou, lembra-se de pessoas perguntando como funcionariam as lutas femininas. “A regra é igual. Só são duas atletas”, respondia. Segundo ela, o machismo não estava necessariamente dentro do tatame. Aparecia do lado de fora. Começou a notar a disparidade nos tratamentos assim que chegou a Curitiba, assim que passou a dar aulas em uma cidade onde sua trajetória ainda era pouco conhecida.
“Em Joinville, eu tinha muitos alunos e ganhava bem como professora. Eu já era uma atleta conhecida na cidade, então minhas turmas viviam cheias, com homens e mulheres. Quando vim para cá, entendi uma coisa: se ninguém te conhece, você é só uma mulher — a não ser que já chegue como uma grande atleta”, relata.
Em outra situação, recorda que passou a integrar uma equipe de professores ao lado do companheiro da época, o Jackson. Ele também lutava, mas estava no início da carreira. Os dois começariam a dar aulas em uma academia de judô. Para anunciar as novas turmas, o espaço publicou nas redes sociais uma fotografia em que ela aparecia segurando um cinturão enquanto o ele a carregava. A legenda anunciava aulas com o “professor Jackson Carvalho e sua esposa Kin”. Apesar disso, as carreiras como atleta e professora seguiram em ritmo constante.

Um ponto de virada na vida
Em 2015, se preparava para um combate nos Estados Unidos. Havia vencido recentemente em Joinville e assinado contrato para competir em um evento fora do país. Era uma oportunidade importante na carreira, mas havia um problema: o corpo não respondia como antes.
Não conseguia perder peso. Faltava fôlego, sentia câimbras e passava mal. Também recorda um descontrole emocional que, naquele momento, não conseguia explicar. Tempos depois, descobriu que estava grávida havia meses.
A notícia veio acompanhada de espanto e incertezas. A gravidez não havia sido planejada, e atleta precisou cancelar a luta internacional. Contou primeiro à equipe, ao treinador e ao empresário; depois, à família.
Restava explicar publicamente por que não viajaria. Na página que mantinha no Facebook, então a principal rede social de sua carreira, gravou um vídeo para dar a notícia. O conteúdo viralizou. Não demorou para alguém fazer as contas: se a gestação já estava avançada, Kinberly também estivera grávida durante o embate anterior.
A informação virou manchete. “Evento de MMA não exige exame e atleta descobre ter lutado grávida”, publicou Combate.com (O Globo) em 16 de agosto de 2015. A história também apareceu no UOL, na ESPN e em veículos estrangeiros e locais.
O telefone começou a tocar. Vieram novas entrevistas, inclusive para emissoras de televisão. Alguns veículos recuperaram fotografias das lutas anteriores e passaram a procurar, nas imagens de seu corpo, sinais de uma gravidez que ninguém havia percebido na época.
A exposição ampliou o reconhecimento do trabalho da atleta e trouxe contatos para novos patrocínios. Também veio acompanhada de ataques. “Muitos ataques e mensagens, tipo ‘assassina de bebê’, ‘irresponsável’. Falavam: ‘Claro que ela sabia, fez de propósito porque queria perder esse bebê’”, relata.
Aos 24 anos, estava grávida, em um relacionamento recente, afastada de um combate importante e submetida ao julgamento de milhares de pessoas que não a conheciam.
Durante a gestação, ouviu repetidamente comentários sobre como era extraordinário que o bebê estivesse bem, apesar das lutas que ela havia feito sem saber que estava grávida. As pessoas pretendiam tranquilizá-la, mas as observações produziam nela a pergunta inversa: se o filho tivesse algum problema, a culpa seria dela?
Com o passar dos meses, o susto inicial deu lugar à expectativa pela chegada do bebê. Nos primeiros meses de vida, Breno apresentou um desenvolvimento que parecia comum. Começou a falar algumas palavras — água, banana, papai —, cumprimentava as pessoas e pedia coisas. Comunicava-se e estabelecia contato com quem estava ao redor.
Por volta de um ano, os pais perceberam uma mudança. Em vez de aumentar, o vocabulário diminuía. Algumas palavras desapareceram, assim como comportamentos que já haviam surgido. Levaram as dúvidas ao pediatra e ouviram repetidas vezes que aquilo era normal, mas continuaram preocupados. Eram jovens e pais de primeira viagem.
Ainda assim, decidiram procurar outra médica. A nova pediatra recomendou uma investigação neurológica. Antes dos três anos, Breno recebeu o diagnóstico de autismo. Para Kinberly, a notícia chegou em um período no qual a culpa que carregava desde a gestação ainda não havia desaparecido.
Aprendendo a lidar com o inesperado, a mãe encontrou no filho um amor que mudou o significado de lutar. Nem a gravidez nem a maternidade colocaram um ponto final na carreira. Depois do puerpério, ela voltou aos treinos e, cerca de quatro meses depois, já competia novamente.
Vivendo a maternidade e as rotinas esportivas, tentou conciliar os treinos, as aulas, a casa, os cuidados com Breno, as viagens e as competições. Continuou sendo atleta profissional por mais três anos, até perceber que aquela rotina já não era sustentável.
O MMA de alto nível exigia uma preparação que se tornava cada vez mais difícil de manter. A atleta participava de eventos internacionais contra adversárias que, em sua percepção, podiam se dedicar integralmente ao treinamento.
Na mesma época, encaixava os próprios treinos entre as aulas que ministrava, as contas da casa e os cuidados com uma criança que demandava acompanhamento constante. Além disso, começou a sentir um conflito interno: nos treinos, pensava que deveria estar com Breno; ao lado do filho, precisava pensar em como trabalhar.
As primeiras crises de pânico apareceram, assim como os desgastes físicos. O corpo já mostrava as consequências: dores crônicas, lesões, uma reconstrução no cotovelo e placas no rosto. Havia ainda uma mudança difícil de descrever: vencer já não produzia a mesma alegria. Diante desse conjunto de fatores, decidiu pendurar as luvas em dezembro de 2018.

Um novo significado para a luta
Deixar de ser atleta profissional não anulou o amor pelo universo dos combates. Mesmo distante das competições, Kinberly seguiu envolvida com o esporte como professora e passou a se dedicar exclusivamente ao ofício. Desde então, trabalha como personal de alunos particulares, ministra oficinas e atua como voluntária em movimentos sociais.
Quando a pandemia arrefeceu, começou a participar do Movimento Popular por Moradia e das ações na comunidade Nova Esperança, em Campo Magro, que abriga mais de 1,2 mil famílias. Chegou como voluntária na preparação e distribuição de marmitas solidárias e, depois, tornou-se professora de Muay Thai para crianças e adolescentes no centro cultural da ocupação.
Foi às redes sociais pedir doações de luvas, tatames, sacos de pancada e outros materiais para as aulas. Em pouco tempo, recebeu um grande volume de equipamentos.
Uma vez por semana, vai à comunidade para conduzir as atividades. Volta e meia aparece também em outros dias, durante eventos culturais. Em um dos vídeos publicados nas redes sociais, aparece reunida com as crianças para assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2026. São vínculos que, segundo a professora, foram construídos com tempo e perseverança.
A experiência também mudou sua maneira de enxergar o trabalho voluntário. Kinberly rejeita a ideia de que quem chega a uma comunidade necessariamente será recebido como herói ou conseguirá transformar a realidade local.
“Às vezes você nem vai ser respeitado, pode até ser maltratado. Também não é uma coisa de filme, em que você vai encontrar um atleta olímpico, ir para Las Vegas e ficar rico. Vou [na Nova Esperança] consciente de que não vou mudar o mundo, talvez não mude a realidade de ninguém. Mas sei que, às vezes, mudo o dia de uma ou duas crianças. E isso, para mim, vale muito a pena” comenta.
Nos últimos anos, Kinberly também passou a oferecer oficinas de defesa pessoal para mulheres. Os encontros ainda são esporádicos e ela pretende oferecê-los com mais frequência. Nas oficinas, ensina movimentos básicos, como se levantar, criar distância e escapar de determinadas situações, mas evita demonstrações que prometam uma segurança que, segundo ela, não existe.
Nas oficinas, recomenda que as mulheres pratiquem alguma luta, musculação ou outra atividade que lhes permita experimentar a própria força — não porque isso garanta que conseguirão vencer fisicamente um agressor.
Como professora e feminista, também rejeita a ideia de que ensinar defesa pessoal seja uma resposta suficiente para a violência de gênero. Tampouco acredita que a responsabilidade pela proteção deva ser transferida para as próprias mulheres.
O que procura transmitir começa antes de qualquer confronto. “Uma mulher que descobre a força do próprio corpo”, diz ela, “passa a ocupar o espaço de outra maneira. Foi algo que ela própria aprendeu com a luta. Hoje, é isso que tenta transmitir.

Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.